O Monstro
O monstro é o mediador do mundo arquetípico ao permitir que o lado de baixo da vida se expresse. O monstro se renova sem cessar e dá surgimento a uma infinidade de imagens. Por trás dessa variedade, podem-se discernir padrões mais universais, como o monstro que engole, capaz de transcender não só diferenças de culturas e épocas históricas, mas também de eras.
Quando analisamos a vida onírica de crianças com a intenção de estudar as imagens de monstros que aí aparecem, reconhecemos que na sua luta com este as crianças atravessam os estágios da jornada do herói, identificados por Joseph Campbell em seu livro O Herói das Mil
Faces.* No sonho, a criança viaja para uma floresta, uma montanha, o mar, e ali encontra um
monstro. Ou este a chama para uma aventura invadindo a casa da criança. O primeiro impulso desta é, em geral, recuar, mas depois aceita o desafio e avança rumo à aventura, sozinha ou com algum aliado. Segundo minhas observações, a criança enfrenta o monstro de uma de três maneiras: combatendo-o, domando-o ou engolindo-o.
Das três possibilidades, a última é a que parece mais paradoxal. Na minha pesquisa, os sonhos de uma menina de cinco anos, Marjorie, ilustram essa terceira via da absorção. Os onze sonhos que ela me descreveu ao longo de um período de dez semanas falam de uma passagem através da barriga da baleia e o desfecho do evento. Essa série revela sua evolução através da descida e do ressurgimento.
No seu primeiro sonho, Marjorie é uma criança pequena sendo empurrada num carrinho de bebê pela sua amiga Caroline. Ela e Caroline vêem um monstro. O aparecimento do monstro marca o início da aventura de Marjorie, mesmo que o passeio no carrinho de bebê
pareça no início uma coisa inócua. A identificação de Marjorie com a criança pequena sugere um retrocesso no tempo.
Ela vai para um momento ainda mais remoto do passado em outro sonho. Neste, vai de carro até o mar e se afoga. Depois vê uma baleia e um tubarão. A baleia a engole. Em um desenho deste sonho, Marjorie se retrata na barriga da baleia. Sua cabeça está para baixo e ela está envolta em substância de cor verde, que representa as entranhas da baleia.
A passagem de Marjorie pela água, antes de entrar na barriga da baleia, sugere uma dissolução e uma volta à consciência urobórica ou indiferenciada que caracteriza os primórdios da vida.1 Marjorie volta para a água como o primeiro elemento de sua existência fetal. A barriga da baleia é seu local de origem.
Ser engolida pelo monstro é algo que partilha do mistério da morte e do renascimento. Alguns ritos pubertários de iniciação incluem a introdução ritual de uma criança na barriga de um monstro marinho, tal como um crocodilo, uma baleia ou peixe grande. Depois a criança nasce do monstro como iniciada. Em muitas culturas da África, Oceania, Lapônia e Finlândia, assim como entre os esquimós, os mitos de absorção falam de heróis homens, e de mulheres e crianças também.2
Ser engolido pelo monstro "significa o reingresso no estado embriônico, pré-formal, do ser", o "retorno a um modo de ser germinal", que implica morte também, uma vez que é preciso que o sujeito morra para a sua própria existência a fim de retornar "ao princípio".3 A volta da Marjorie para a barriga do monstro marinho pode conter o significado de uma morte simbólica. Francês G. Wickes observa que a morte e o renascimento governam a evolução da vida humana desde o início da infância, sem mais cessar: "Progresso e regressão, renascimento e morte estão presentes desde os primeiros dias, e manifestam-se nos pequenos atos da criança pequena, assim como nos atos maiores dos adultos."4
O verde que Marjorie usou para representar as entranhas da baleia sugere que ela está cercada por um terreno fértil. Embora a baleia a tenha comido, sugerindo morte, essa verdejante fertilidade pode conter também o potencial de renovação e renascimento. Jung escreve sobre como os que são engolidos pelo monstro passam por uma regressão que vai até a vida intra-uterina e ainda mais além, alcançando os estratos mais fundos da existência, para ali se manterem presos ou dali se livrarem do controle maternal com vida nova.5
Em contraste com o sonho no qual é acompanhada por Caroline, o sonho em que Marjorie é engolida não tem outra presença humana. Ela está sozinha, pois o encontro com o monstro é um confronto direto e íntimo. Marjorie e aquele mamífero são praticamente um só. O corpo de Marjorie, no seu desenho, segue o contorno das entranhas da baleia com bastante precisão, como se estivesse envolvido é firmemente contido por todos os lados.
O encontro com o monstro através de um combate ou domesticando-o implica uma ação que nasce do sonhador, mas o ser engolido implica uma participação do sonhador que sofre a ação. O caminho da absorção pelo monstro implica a permissão de se tornar o objeto dessa absorção para uma transformação. Esta, no entanto, na medida em que passa por uma morte simbólica, também significa um novo começo.
A série de sonhos de Marjorie desdobra-se entre o reino arquetípico profundo, onde o monstro marinho apoderou-se dela, e sua realidade cotidiana.
Ao viajar nas profundezas do monstro aproxima-se o seu sexto aniversário e ela sonha então que é capaz de andar numa bicicleta de duas rodas, sem apoio, que seus pais lhe dão como presente de aniversário. O sonho mostra que ela tem domínio completo do veículo, e isso reflete uma competência recém-descoberta.
O sonho seguinte mostra que ela está subindo numa cruz e voltando ao reino arquetípico do sonho da baleia. Neste, ela vai até o alto de uma montanha onde vê um pequeno bebê. Ela o pega e depois deixa-o cair. Depois vê uma cruz e sobe nela. "Eu estava fazendo como Jesus", comenta depois de ter desenhado o sonho. No desenho, Marjorie (de preto) está
subindo uma montanha (amarela). No alto, vemos Marjorie pegando o bebê (ambas as figuras cor de laranja), a criança caída (preto) e a cruz com Marjorie sobre ela (ambas cor de laranja).
Depois do regresso ao início da sua infância e da descida até a barriga da baleia, Marjorie envolve-se no movimento contrastante de ascender ao topo de uma montanha. Encontra um bebê, pega-o nos braços. Enquanto no primeiro sonho ocupava o papel da criança pequena, neste ocupa o da mãe. Assim que ele é posto no colo, cai ao chão, e isso assinala o final da volta ao início da infância observado no sonho com o carrinho do bebê e no sonho da sua absorção pela baleia. Depois de ter deixado o bebê cair, Marjorie sobe à cruz, assim identificando-se com um herói espiritual adulto. O símbolo do deus sacrificado pode ser encontrado no cerne de várias religiões. Jung concebia o sacrifício do herói como uma renúncia da volta ao útero materno em nome da imortalidade. Nesse sentido, o sacrifício é o oposto da regressão: "O sacrifício é o próprio inverso da regressão — é uma canalização bem- sucedida da libido para o equivalente simbólico da mãe, e uma espiritualização do mesmo."6 A ascensão de Marjorie até a cruz "como Jesus", um herói espiritual adulto, contrabalança sua volta à barriga da baleia.
Marie-Louise von Franz observa que, quando o conflito entre o processo inconsciente do crescimento psíquico e a vontade da personalidade consciente é representado pela forma de uma crucifixão, isso pode querer dizer que o conflito alcançou sua fase aguda.7 Sob esse prisma, a subida de Marjorie na cruz assinala a existência de um conflito interior e da dor que o mesmo implica. A cruz contém um potencial criativo como lugar de sacrifício, assim como a barriga da baleia contém o potencial para um novo início de vida. Ao discutir os mitos da criação que incluem uma divindade que se sacrifica, Mircea Eliade escreve que a vida só pode renascer mediante o sacrifício de uma outra vida: "A idéia fundamental é que a vida só pode nascer de uma outra vida, que é sacrificada. A morte violenta é criativa; nesse sentido, a vida que é sacrificada manifesta-se numa forma mais brilhante a partir de um outro plano de existência."8
Embora a amplificação da cruz como símbolo ilumine parte do seu sentido no contexto do sonho de Marjorie, a subida da criança na cruz continua sendo, para citar a frase de Joseph Campbell, "um sinal de silêncio para o olho e o coração", um gesto que preserva todo o seu mistério.9
Os quatro sonhos seguintes novamente dizem respeito à realidade cotidiana de Marjorie: ela ajusta contas com três formas de violência — a violência natural de uma tempestade, a violência animal de seu cachorro e a violência humana de um vizinho contra sua família. Até esse ponto, ela vinha progredindo desde os primeiros sonhos mas, neste, seus sonhos devolvem-na para casa.
O caminho de retorno de Marjorie passa pela água, e pela segunda vez ela se afoga, mas desta vez volta à superfície. Marjorie está na praia e quer tentar nadar. Vai para o fundo e afoga-se, depois volta para a tona. Alguém aparece e a resgata. Depois de ter desenhado seu sonho, ela diz que essa pessoa a "salva". Marjorie exprime a magnificência desse momento quando põe o sol no desenho, "porque ele é lindo".
Embora a volta para a água no sonho de ter sido engolida tivesse assinalado uma dissolução do ego, a passagem de Marjorie para dentro da água e depois para fora, nesse sonho em que emerge, revela a sua intenção de permanecer em contato com seu próprio poder, nadando. Ela quer tentar direcionar a si mesma no elemento líquido mas, pela segunda vez, vai até o fundo.
Nessa ocasião, no entanto, sua descida pára e ela começa a subir de novo. O desenho mostra-a acima da superfície da água; na praia está o personagem benevolente que a salva, pintado em muitas cores (cabeça e braços de amarelo, tronco de vermelho, pernas azuis). O movimento de emergir da água significa renascimento. Diz Eliade: "Rompendo com todas as formas, desfazendo-se de todo o passado, a água tem o poder de purificar, de regenerar, de dar
à luz, pois aquilo que nela mergulha 'morre' e, erguendo-se outra vez da água, é como uma criança sem qualquer pecado ou passado, capaz de receber uma nova revelação e de dar início a uma nova vida real.''10
O mistério da volta às origens sugerido pelo sonho de ser engolida pelo monstro repete- se da infância até a idade adulta. A viagem de Marjorie até o ventre do monstro marinho, seguida pelo ressurgimento, encontra eco na odisséia descrita por Julie Stanton, no seu poema
La nômade. Quando o poema começa, a Nômade, uma mulher qualquer, é puxada pela Besta
de narinas de ouro. A Nômade é cega. Ela e a Besta viajam para a frente, sobre a terra vermelha. Nas costas da Nômade, onde "crianças natimortas dormem", "mulheres de água e vento choram" e "deitam-se homens presunçosos", seu passado pesa sobre ela. Enquanto vai viajando com a Besta, ao mesmo tempo retorna em sua memória outras eras de sua vida. Sua viagem leva-a para a água, faz com que atravesse uma tempestade, que chegue a uma montanha e se aproxime de um vulcão. A Nômade gradualmente entrega seu cabelo, sua beleza, seus seios, seus órgãos genitais e, depois, entra na cavidade do peito da Besta.
A Besta já escolheu o local. De repente, uma língua projeta-se para fora e uma voz ribomba como uma tempestade:
O zurro da Besta escancara-lhe o peito um imenso corredor que permite uma saída já
ela reconhece os arredores
"o encantamento profundo'' onde se cai prisioneiro
sem morrer
e sob a mágoa do dia
a estreita garganta do tempo,
supremo, o sol bate em cheio no claustro... E assim Ela está dentro da Besta
com a vida suspensa e apesar disso com vida passageira de um bote doravante atracável nesse lugar acolhedor
sedoso deslizar de membranas mucosas.
A Nômade é retida dentro da Besta, "onde aguarda pelo encontro com a luz". Através da escuridão, no entanto, pressagia-se um novo amanhecer, pois "as manhãs da origem caminham, no coração da Besta".11
O processo de Marjorie ser engolida e reemergir também encontra eco na experiência de uma mulher contemporânea que se sentiu engolida por Káli, a deusa hindu da morte e renascimento. Enquanto atravessava um período de intensa dor emocional, Marianne Paulus teve uma visão de Káli e rendeu-se para ser engolida por ela:
Um dia apareceu abaixo de mim a face feroz de Káli, com a boca escancarada, os dentes pingando sangue, os olhos dardejantes de fogo. Seu aspecto teria em geral inspirado medo ou horror, mas em vez disso senti um profundo conforto quando a vi ali e uma onda de amor me atravessou, unindo meu coração ao dela. No mesmo instante, ela começou a me engolir por inteiro.
Paulus entregou-se à vivência, sentindo afeto e um grande conforto enquanto ela era engolida pelas trevas absolutas de Káli:
Quando estava completamente dentro dela, minha respiração cessou e assumi uma imobilidade radical — totalmente imersa no escuro, querida, segura, a salvo... Eu havia sido inteiramente tomada. Senti-me curada nessa absorção todo-abrangente de mim por ela. Em Káli nada causava horror. Somente a mais inacreditável ternura. Ela era de fato grande o bastante para englobar dentro de si mesma o que quer que fosse... De dentro de Káli, onde tudo era sangrento, só podia dar-me conta da imponência, do deslumbramento, de uma tal força geradora de vida... Permaneci dentro do ventre de Káli — no coração da terra por assim dizer, onde o fogo queima e consome tudo que não consiga resistir-lhe — durante semanas, em total escuridão. Mas dessa treva começou a brotar entendimento e conhecimento. Entendimento do meu processo. Conhecimento da natureza interior da vida.12
Marjorie entra na barriga da baleia; a Nômade retorna à cavidade torácica da Besta de narinas douradas; Marianne desce às escuras profundezas do ventre de Káli. Marjorie deixa cair o bebê; a Nômade perde os olhos, o cabelo e a beleza; Marianne suporta o fogo que queima e consome tudo que não consiga resistir-lhe. Marjorie sai da água de volta para a superfície; a Nômade espera pelo encontro com a luz; entendimento e conhecimento vêm a Marianne.
A viagem de Marjorie, da Nômade e a descida ao inferno de Marianne constituem todas formas simbólicas que têm ressonância entre si. O nível de consciência acionado pela experiência de ser engolida aos 5 e aos 40 anos não poderia ser o mesmo, mas a semelhança do padrão simbólico atesta que tanto a criança como o adulto partilham do mistério da morte e do renascimento que molda a própria evolução da vida humana.