Mais do que qualquer outro nos últimos anos, o finado mitólogo Joseph Campbell nos instruiu acerca do papel do Herói. Disse Campbell que as mitologias de todas as culturas destacam figuras, muitas vezes consideradas semi-divinas, que participam de uma jornada dividida em três partes. Revestidas de características locais, essas figuras empreendem uma busca que é essencialmente idêntica e portanto reflete uma estrutura profunda da cultura humana, ou um motivo arquetípico único, o "monomito".
Como primórdio da sua busca, uma figura típica de Herói, incomodada pelo status quo em casa, é seduzida ou impressionada por determinadas circunstâncias a deixar a família e o que lhe é familiar, para iniciar uma aventura pelo desconhecido. Confrontando guardiães de portais ao iniciar sua jornada, esta pode implicar que ele "morra" para alcançar a separação, de tal modo que a aventura ocorre no mundo inferior ou no domínio sobrenatural de terrores e
maravilhas, deuses e demônios. Sua iniciação requer que ele enfrente essas etapas como testes ou tarefas, e ele conta com a ajuda de um mentor sábio ou de espíritos animais auxiliares para enfrentar suas lutas. No ponto mais baixo de seus padecimentos no mundo inferior, o Herói deve enfrentar o desafio supremo: matar o dragão ou apoderar-se do tesouro, resgatar a princesa ou localizar o prêmio. O Herói deve sacrificar os benefícios sobrenaturais de seu triunfo pessoal e voltar com seu elixir para o mundo dos mortais comuns. Essa volta é a verdadeira justificativa e a meta de toda a sua jornada: tanto o Herói como a sociedade necessitam de uma recuperação espiritual e ele deve trazer de volta a dádiva sagrada para seus semelhantes, seja a família, a aldeia, a nação, ou, no caso de Jesus, de Maomé e de Gautama Buda, o mundo inteiro.
A imagem traçada por Campbell desse protagonista arquetípico, tão central a toda a sua noção do poder do mito, pode ser persuasiva. Nos contos de fada, nas lendas míticas, nos textos religiosos das culturas tradicionais, como nas artes, na ciência, e nos meios populares de comunicação do mundo atual, guerreiros, sábios e santos nos inspiram, evocando em nós a nossa admiração e desejo de imitá-los. As histórias de vida de pessoas como Martin Luther King Jr., ou Luke Skywalker — reais ou fictícias — ainda nos parecem hoje "mais do que realmente humanas". Isso, diria Campbell, é porque essas figuras foram capazes de vencer a batalha de suas limitações pessoais e históricas, ultrapassá-las e ingressar no âmbito de formas humanas normais, válidas em geral. As visões, idéias e inspirações surgem imaculadas das fontes primárias da vida e do pensamento humanos. Por isso são eloqüentes, não para a sociedade e a psique presentes e desintegradoras, mas para a fonte inquebrantável de onde renasce a sociedade.1
Além disso, Campbell nos fez lembrar que esses poderes cosmicamente criativos podem se personificar na vida moderna através da forma aparentemente humilde de pessoas como nós: "A última encarnação de Édipo, a continuação do romance entre a Bela e a Fera, estão esta tarde na esquina da rua 42 com a 5* avenida, esperando que o sinal mude para verde."2
Sobretudo, a separação, a iniciação e a volta do Herói antigo ou moderno pode ser também nossa aventura pessoal interior. Nas sentenças que precedem esta tão citada passagem, Campbell já tinha apontado as poderosas reverberações psicológicas do padrão do Herói, seu reflexo no desenvolvimento da nossa personalidade individual: "Freud, Jung e seus seguidores demonstraram, de modo irrefutável, que a lógica, os heróis e os feitos dos mitos sobrevivem nos tempos modernos. Na ausência de uma mitologia geral eficiente, cada um de nós tem um panteão de sonhos particular, ignorado, rudimentar, mas de uma força secreta."3
Erich Neumann, notável seguidor de C. G. Jung, discriminou com grandes detalhes a relação entre a busca heróica da cultura e o processo psicológico pessoal. Em seu História da
Origem da Consciência,* espalham-se informações que compõem um panorama dos estágios
da evolução da consciência tanto na cultura ocidental como nas pessoas que nela vivem. Numa extrapolação do conceito junguiano de "individuação", que é o desenvolvimento da natureza única e peculiar a cada ser humano, Neumann lê a jornada mítica do Herói do ponto de vista psicológico, como "a história da auto-emancipação do ego, que se esforça para se libertar do poder do inconsciente e firmar-se como presença própria vencendo obstáculos monumentais".4 Uma vez que o inconsciente é, em termos junguianos clássicos, "maternal", a luta do Herói é nascer e depois superar e abandonar a Grande Mãe do mito (ou seus análogos simbólicos, como o "uroboros" circular que engole a própria cauda).
Depois de ter-se desprendido do inconsciente maternal e de ter se estabelecido no mundo de opostos, o ego heróico enfrenta o estágio final do que Neumann chama de "centroversão": a volta transformadora a um novo relacionamento de igualdade com o inconsciente, numa relação que promove a união equilibrada da natureza pessoal amadurecida. Para Neumann, a cultura ocidental está tão repleta de mitos de Herói como constitui um vasto mito do Herói
em si mesma, na evolução de sua consciência desde o animismo primitivo por meio de um racionalismo cético até a perspectiva de uma interação harmoniosa e centrada entre a ciência e a espiritualidade. Os três estágios do movimento rumo à centroversão da cultura, por um lado, e à centroversão da personalidade, por outro, servem de modelo entre si.
Esse resumo da versão psico-histórica de Neumann para a aventura do Herói mal e mal honra a erudição de seu volumoso trabalho. Como o de Joseph Campbell, o trabalho de Neumann é caracterizado por múltiplos exemplos de simbolismo heróico que o autor supõe exemplificarem o padrão-chefe, e muito há que aplaudir nas teorias de ambos. Decerto que eles fazem com que as ações agressivas do Herói pareçam adequadas em nome do desenvolvimento ativo que marca a primeira metade de vida para a pessoa e a cultura, enquanto o estágio final, em cada caso, é apresentado como uma admirável reconciliação de opostos, um proveitoso casamento para todos os envolvidos. Na realidade, é difícil derrubar a visão de Joseph Campbell, formulada há 40 anos, segundo a qual "herói é o homem que realizou a sua própria submissão".5
Não obstante, desenvolvi uma aversão por essa figura arquetípica, pelo menos por dois motivos. Primeiro, considero impossível isolar da minha forma de compreender a psicologia junguiana em termos de simbolismo religioso tradicional as críticas feministas das costumeiramente tão sutis maquinações — e do machismo já não tão sutil — desta cultura patriarcal. Como especialista em religião e cultura dentro da perspectiva junguiana, fui forçado por essas críticas a "re-encontrar" o que Jung e sucessores como Campbell e Neumann tinham a dizer acerca do heroísmo espiritual do desenvolvimento da personalidade. Assim procedendo, cheguei a ver que o Herói é um modelo profundamente problemático para a individuação.
Por um lado, o Herói é inevitavelmente masculino e, infelizmente, macho. Apesar da referência feita por Campbell à submissão deliberada a si mesmo e às maneiras pelas quais se pode aludir a um equilíbrio final no trato do Herói com as profundezas maternais, a despeito dos exemplos de suaves místicos asiáticos como heróis ou mulheres em trabalho de parto, e à revelia dos indistintos limites entre o Herói e outros papéis arquetípicos mais agradáveis como o do Explorador e o do Mágico, acredito que colocar o Herói no centro da busca de si mesmo é como instalar um guerreiro dominador e intransigente no controle da psique de cada um de nós, mulheres e homens sem distinção, pretos, brancos e outros, velhos e jovens por igual.
A psicóloga Carol Gilligan e a pedagoga Mary Belenky e colaboradoras publicaram trabalhos que me convenceram da existência, entre as mulheres, de outros meios de crescer e conhecer que não os arrolados pelo modelo do Herói.6 As psicólogas feministas da religião, Naomi Goldenberg e Demaris Wehr, concentraram sua análise diretamente sobre a teoria junguiana, debatendo a viabilidade de categorias psicomíticas como "o feminino'', tal como aplicadas às vidas reais de mulheres de carne e osso.7
O filósofo Michael Zimmerman resume essa primeira fonte da minha aversão pelo arquétipo do Herói no seu trabalho sobre o ecofeminismo:
A "história da consciência", então, acabou sendo a história do desenvolvimento do homem. O homem heróico luta violentamente para se libertar das amarras dos poderes coletivos e subconscientes da Grande Mãe. Somente com o ato matricida de assassinar a fera (que representa a Grande Mãe) é que o herói atinge sua individuação. A ferocidade com que o ego reprime o feminino, o corporal e o natural é diretamente proporcional à constatação feita pelo ego de sua condição elementar de dependência. Mas o ego ansioso enfim alega estar independente de tudo, até do Divino.
Zimmerman acrescenta então que "a maioria das feministas... concluiu que a história da individuação de Jung e Neumann, apesar de sua crítica às distorções de perspectiva da
consciência patriarcal, é em si mesma tão marcada por categorias masculinas que não pode ser útil para a elaboração de uma concepção alternativa de individuação".8
A segunda fonte da minha reação negativa ao Herói arquetípico teve, no mínimo, uma influência comparável. Outro seguidor de Jung — embora este tenha desmontado de uma maneira surpreendente não só o pensamento junguiano como também a psicologia em geral — apresentou uma crítica de todos os ideais de individuação centrados no ego. Os textos de James Hillman acentuam a maneira insidiosa com que essa noção egocentrada da individuação pode penetrar e atingir até os objetivos mais benignos de harmonia entre ego e inconsciente.
Segundo Hillman, isso acontece por muitas razões. São especialmente importantes entre essas nossas tendências para visualizar apenas uma espécie de ego, para só vê-lo como heróico num determinado sentido, e para considerar a relação com o restante da personalidade como algo que exerce um controle por demais central. Ao nos atermos a essa noção egocentrada e monocêntrica do Self, esquecemo-nos de que o ego é em si uma fantasia heróica da psicologia moderna, e não um fato empírico sólido. E quando fazemos o ego corresponder ao Herói mítico num reconhecimento parcial desse fator de fantasia, esquecemo- nos de que no mito grego (a "base'' do heroísmo ocidental) o herói tinha deuses e deusas como as forças de controle às quais serviam.
Em seu Re-Visioning Psychology, James Hillman busca honrar a prioridade imaginai dessas outras forças ao configurar a individuação como "feitura da alma" numa psicologia não-heróica (alma, em grego, psyche; em latim, anima), que cede espaço à realidade de nossas vidas ambivalentes, feridas e dificilmente passíveis de controle, alicerçadas num fluxo ininterrupto de múltiplas imagens de fantasia. Nesta, a consciência do ego não é a força dominante, com pretensões a uma divinização secular. Há lugar e reverência também para a "consciência da anima", consciência essa que tem contato com os confusos estados de ânimo criados pela imaginação e a constatação da mortalidade.
Essa consciência não-heróica é, segundo Hillman, mobilizada por alguma coisa que vivenciamos na nossa vida real praticamente todos os dias (e que se reflete em nossos pesadelos, quando não aparece regularmente de forma distorcida em sonhos menos assustadores): ansiedades e perplexidades, dores e padecimentos, em suma, "o sintoma", que ele descreve como "aquela coisa tão estranha ao ego, aquela coisa que encerra o reinado do herói". O processo de observar o sintoma como passo no caminho de uma consciência de anima, ou de feitura da alma, é então denominado de patologização": "As forças patologizantes forçam a alma a uma consciência de si mesma como algo diferente do ego e da vida que este leva, a uma consciência que obedece a suas próprias leis de concretização metafórica em íntima relação com a morte."9
Hillman tem dito que "o arquétipo do Herói é ativo, combativo, vitorioso. Mas a alma torna o Herói vulnerável porque é o lugar em que ele se torna suscetível a doenças e à morte, a cair ou enfraquecer... Em geral, sempre que o termo 'alma' é empregado, ele evoca um outro conjunto de coisas. Evoca amor, emoções, morrer, valor, beleza".10 Essas evocações a mim parecem contribuir para um ideal mais autenticamente holista do Self do que a dominação do ego heróico.
Embora feministas como Naomi Goldenberg e Demaris Wehr tenham encontrado pontos elogiáveis nos trabalhos de Hillman, ele raramente faz afirmações feministas inequívocas. Entretanto, sua crítica do heroísmo egóico pode ser associada às lúcidas constatações de mulheres eruditas que assinalam o viés masculino na narrativa do Herói. Diz Hillman:
Por meio dessa narrativa, estipulamos que a Mãe é dominadora e controladora, pois dissemos que devemos deixá-la, Mas talvez ela esteja dizendo: "Você não tem que me deixar. Sou a natureza e as pedras. Sou a Terra. Sou o eterno amor. Estou constantemente emanando coisas
novas. Você não tem que me deixar... A coisa mais importante é que a Mãe é tudo que a Mãe é. Ela pode querer conservá-lo para sempre, mas você tem que aprender o que quer dizer esse conservar. Por que é que o Herói deve se afastar, desprender-se dela?11
Tendo em mente esses poderosos argumentos levantados contra o modelo do Herói para representar o processo da individuação, fiquei numa difícil situação quando Christine Downing me pediu que escrevesse este ensaio. Aliás, senti-me plenamente preparado para recusar o convite.
Mas naquela noite tive um sonho. Primeiro, depois de ter acordado no dia seguinte, não conseguia me lembrar de detalhes exceto do fato de que George Foreman estava no sonho. Logo depois porém recordei um episódio do sonho no qual eu tentava comprar alguma coisa para comer que era muito rica em calorias e uma amiga minha, que estava na loja, dizia: "Olhe para você." Fiquei em dúvida se ela queria dizer que meu rosto parecia gordo ou se ela estava me condenando pelo fato de eu estar prestes a burlar a minha dieta.
Mas eu sabia que "olhar para mim" poderia implicar uma auto-investigação mais importante: um apelo para inspecionar minha identidade estava sendo transmitido naquele sonho. E George Foreman, antigo campeão mundial de boxe dos pesos-pesados, e personagem do dia-a-dia em quem eu não pensava havia meses, tinha chegado para desempenhar algum papel nessa identidade.
Ao longo desse dia tentei pensar no que teria ouvido sobre a vida de Foreman a partir das notícias da mídia divulgadas nos últimos dois anos. Por volta de 1990, ele era um gigante envelhecido e obeso, tentando regressar ao mundo do ringue dezesseis anos depois de ter perdido o título para Muhammed Ali. Nos três anos da sua volta — depois de ter ficado fora do cenário do boxe por mais de uma década — ele facilmente derrotou uma série de adversários mas não foi levado a sério como lutador. Suas vítimas tinham sido cuidadosamente escolhidas pela sua inépcia, era o que parecia, e ele estava agora na casa dos 40 anos, calvo, e vinte quilos acima do que pesara quando se sagrara esbeltamente campeão.
Contudo, todos concordavam que ainda era um lutador da pesada. Talvez o que ainda fosse mais importante era que sua atitude parecia estar muito diferente do estilo não- comunicativo, soturno, com que conquistara o mundo nos anos 70. Neste ínterim, ele tinha se tornado um líder pregador num movimento religioso cristão conservador, e parecia estar muitíssimo contente com todas as mostras de popularidade que estava obtendo.
Incomodado com a constatação, pareceu-me que eu estava ali diante do que era a minha imagem arquetípica do herói — termo que me havia ocorrido assim que eu acordara na manhã seguinte ao sonho. — ou de meu próprio heroísmo interior. Além das reservas acadêmicas que eu alimentava a respeito do arquétipo do Herói como conceito, talvez a alma sonhante estivesse enviando uma mensagem: a de o estilo de heroísmo personificado por um homem gigantesco, escuro, parecido com Buda, estar ajudando a sustentar a minha noção pessoal de quem eu era. Nesse caso, George Foreman não parecia um guerreiro comum, dedicado e entroncado como Rocky Balboa ou Rambo. Embora estivesse às voltas com um mundo violentamente masculino que, moral e intelectualmente, eu considerava muito repreensível, meu "proto-homem" também parecia estar oferecendo uma definição diferente de como uma pessoa poderia destacar-se, estar na liderança, ser heróica.
Duas semanas depois de ter tido esse sonho, recebi uma espécie de confirmação dessas possibilidades. O George Foreman da realidade, que havia funcionado como o distante resíduo diário do meu sonho e a matéria-prima para imaginá-lo mais adiante num tempo futuro, estava lutando na televisão. Eu estava pronto e manejando o controle remoto do meu vídeo-cassete, gravando uma luta de boxe a serviço da feitura da alma. A primeira coisa que percebi foi que "as risadas tinham parado". Os adversários de George estavam se tornando mais críveis e, depois de 22 nocautes em 23 lutas marcando seu retorno, ele estava sendo
considerado um candidato viável para o título mundial. Essa luta estava ocorrendo em Londres, contra Terry Andersen, um respeitado peso-pesado, 12 anos mais jovem que ele.
A mídia britânica e George Foreman, neste ínterim, tinham tido uma espécie de romance particular. As manchetes a respeito do "pregador-boxeador" incluíam até seu xiste: "Eu costumava comer doze ovos nos café da manhã. Agora estou de dieta: só como sete." Gravado em vários pontos de Londres assinando autógrafos e tomando sorvete de casquinha, apontando para as Casas do Parlamento e depois para si próprio ("Big Ben — Big George", proclamou), estava descontraído e brincalhão, como numa entrevista que deu antes da luta. Observou que para as pessoas que iam vê-lo aos 42 anos "Não se trata de boxe". Quando os outros grandes lutadores peso-pesado vêm ao ringue "não significa nada... é só um outro esporte. Mas se George Foreman se torna o campeão mundial dos pesos-pesados", continua com um punho erguido e um sorriso doce no rosto, "todos podem celebrar com um grande brinde de Geritol". Também fez comentários jocosos a respeito de um outro lutador que "faz halterofilismo e tenta parecer um He-Man". Depois levou seus 128 quilos para o ringue e nocauteou o Terry Anderson de 115, no primeiro assalto.
No final da luta, o anunciador enfatizou na televisão a força de George, sua experiência e o que chamou de uma "atitude despreocupada — a luta não foi uma situação do tipo mata-ou- morre, em que tem que se provar como fazia antigamente". De sua parte, George mal estava suando mas mostrou-se elegante na vitória, elogiando a força dos golpes de Anderson e acrescentou que "todos esses novatos pensam que vão bater no velho mas não é isso que necessariamente conseguem". Além disso, havia outras coisas na sua cabeça que não o boxe, mesmo nesse momento de triunfo do macho: "Têm aqui uma excelente comida e eu não vim para a Europa para me sacrificar. Vou comer."
Mais ou menos na época em que fiquei sabendo que a luta Foreman-Anderson seria transmitida pela televisão, eu já tinha invertido a minha decisão a respeito de escrever este artigo. O ter refletido sobre o meu sonho havia me convencido que a psique nutria a respeito da questão uma opinião diferente da adotada pela minha relutância intelectual. O Herói estava vivo e bem, em algum lugar dentro de mim. Eu sustentara a noção de que o Herói era o representante de um ideal de guerreiro, que se mostrava inaceitavelmente unilateral e politicamente incorreto. Mas talvez eu, na minha atitude egóica deliberada, estivesse sendo heróico dessa maneira rígida e controladora, encarnando aquela própria espécie de heroísmo que eu condenava com tanta convicção. Eu era tão destituído de humor na minha inflexibilidade e tão sacrificialmente moralista a respeito do Herói quanto tinha sido a respeito da minha dieta.
Minha retidão política também poderia passar por uma revisão. Sua tendência a um dogmatismo pretensioso estava no ponto certo para um exame minucioso. Ah estava um Herói não-jovem, não-branco, e embora ele sem dúvida fosse uma figura poderosamente