4 Apresentação dos resultados
4.4 O processo de aprendizagem do consultor na relação consultor ONG
4.4.3 O apoio do contexto social
Para os consultores, os aprendizados obtidos por meio da experiência e da reflexão sobre estas experiências, não se dá no nada. Eles são resultados de uma interação dos consultores com pares e/ou com os integrantes das ONGs. Conseqüentemente, esta interação se configura como uma oportunidade rica para o aprendizado próprio. O consultor aprende se engajando na ONG e de acordo com suas necessidades aprendem com as atividades e com os comportamentos desenvolvidos por terceiros.
Eu tive que interagir com vários profissionais durante esta trajetória. Engenheiros agrônomos, economistas, advogados. Então quando eu fui trabalhar com ONGs, normalmente os projetos têm uma equipe multidisciplinar. Então, interagi muito o conhecimento de advocacia, de economia, de engenharia agronômica e de sociologia, então, só aí, foi um aprendizado muito forte (Consultor A, entrevista em maio de 2007).
E aí você tem coisas da experiência, da batalha das pessoas que estão envolvidas que lhe dão uma lição de coisas que você tende a superar e até alterar sua metodologia com a aprendizagem, diferenças que a gente num trabalho científico não conseguiria (Consultor C, entrevista em maio de 2007).
Olha, a gente vai aprimorando, a gente vai aprendendo com as pessoas. No caso, a gente tem que entender melhor como é que funcionam as coisas, principalmente a variável que é o ser humano (Consultora J, entrevista em novembro de 2007).
Para aprender com o grupo, ou com as pessoas que estão em sua volta uma questão que os consultores colocaram como crucial é a obtenção de feedbacks. São através dos
feedbacks que se pode tomar consciência dos comportamentos inadequados para que possa
mudá-los. São as informações de terceiros detentores de uma melhor compreensão da postura do consultor que podem facilitar a percepção dos erros e acertos do mesmo. Como afirmou o Consultor C (entrevista em maio de 2007) “Às vezes, numa dificuldade, você tem que ter uma aliança onde aqueles parceiros que já viveram a experiência, eles podem orientar e lhe dar o caminho”.
Peço ajuda para o [Consultor B que é seu amigo], que é um consultor de janela. Ele já foi meu consultor de janela, assim generosamente. (...) Eu peço aos de fora. Quando o tempo permite. Tem vez que eu pego do próprio grupo. Por exemplo, este artigo que eu vou produzir, a gente reuniu em dois tempos. No primeiro tempo com as pessoas que pediram, para as pessoas da entrevista e algumas pessoas de fora também. Eu vou reescrever em função delas. Então tem um olhar justamente importante, eu posso cometer grandes erros e aí existe realmente uma grande ajuda (Consultor E, entrevista em outubro de 2007).
Então, eu não estou levando experimentos, mas muitos instrumentos que eu fui buscar na literatura, eu nunca apliquei, eu estou aplicando pela primeira vez. Neste sentido, eu estou tendo muitos feedback de que os instrumentos estão sendo bons (...) (Consultor B, entrevista em maio de 2007).
Além das relações normais do dia-a-dia, outra forma de propiciar feedbacks é através da avaliação das atividades, fazendo os ajustes quando necessários. A consultora H (entrevista em novembro de 2007) considera que as avaliações das atividades desenvolvidas permitem a realização de momentos de reflexão em grupo que possibilitam novos aprendizados: “quase que o tempo inteiro, a gente trabalha muito, a gente tem uma avaliação contínua. Da sua própria prática, a gente avalia sempre, a gente sempre busca. Pelo menos, uma vez por ano, a gente pára e faz avaliação”.
Para que se tenham feedbacks é ideal que o contexto da aprendizagem tenha algumas características facilitadoras do mesmo. No entanto, nas ONGs, este ambiente não é conseguido logo em que o consultor começa a trabalhar com ela. O consultor, com o tempo, busca a aceitação dos integrantes das ONGs até ser considerado como parte daquela organização. Uma alternativa para o engajamento dos consultores é a realização de trabalhos voluntários para conhecer a cultura e o comportamento dos integrantes da organização.
Agora, não se abre imediatamente não. Você vai ter que buscar, primeiro vai ter que trabalhar com relação, e vai perguntar e vai buscar e vai tentar. Hoje a gente tem um estado mais aberto. Um ano é um diferencial. Uma coisa que parece pouco tempo, mas não é. É possível e é necessário você introduzir e passar um tempo. As pessoas abrem espaço, tipo, você quer conhecer, você
pode passar um tempo conosco. Pode ser voluntário por um tempo e pode acompanhar os projetos (Consultora H, entrevista em novembro de 2007).
Para se ter feedbacks, tornam-se necessários relacionamentos mais intensos entre os envolvidos, o que, muitas vezes, demanda tempo. No entanto, para o Consultor E, como as pessoas estão muito atarefadas, há uma limitação para os relacionamentos mais intensos e, conseqüentemente, para a obtenção de feedbacks.
Eu não sei se é tão propício. O que está acontecendo agora, eu não sei se é o seu caso, vive super atarefado, é gente super atarefada. Tem pouco tempo para reunião, pouco tempo... E às vezes quer empurrar um pouco goela abaixo: olha eu preciso. E às vezes funciona e às vezes não. Não sei se é um ambiente propício para o aprendizado, se é mais ou menos que o ambiente empresarial. Sentar com as pessoas duas horas é preocupante. Sem ela fazer outra coisa ao mesmo tempo. Então fora a exceção, eu acho que não (Consultor E, entrevista em outubro de 2007).
Além da necessidade de que as pessoas se dêem tempo para as interações, dar e receber feedbacks também está extremamente relacionado com a geração de confiança. Caso ele seja um estranho no grupo o aprendizado social fica dificultado. Deste modo o Consultor G considera indispensável se trabalhar as relações de confiança dentro das ONGs, e, de se tornar parte confiável desta organização.
Este é o grande aprendizado. No grupo, de se ouvir, de se escutar. Como eu disse, é preciso que a ONG seja digna de confiança nesse sentido, e as pessoas terem a confiança de poder escutar e de poder falar. É preciso ter confiança. Sem esta confiança as experiências não são expressas ali dentro, mas com confiança elas são expressas. (...) O nosso trabalho, o trabalho do Libertas com a ONG é da construção da confiança. O nosso trabalho primeiro trabalha a competição, que é à luz do poder. Depois nós trabalhamos com o corpo. A questão do trabalho do Libertas é psicorporal. Depois do trabalho da competição, raivas, diferenças, preconceitos, achômetros, são trabalhados no grupo, é trabalhada a confiança. As pessoas podem se dar as mãos e se olhar nos olhos. E aí, quando as pessoas se dão as mãos e se olham nos olhos é outro contato. Porque elas já trabalharam, já tiraram aquela carga, e aí entra em outro lugar, das pessoas poderem se encontrar no mesmo barco, se enxergar no mesmo barco. Aí já abre, aí a aprendizagem acontece (Consultor G, entrevista em outubro de 2007).