4 Apresentação dos resultados
4.3 Principais aprendizados construídos pelos consultores por meio do trabalho com ONGs
4.3.2 Habilidades desenvolvidas e/ou aperfeiçoadas
Quanto às habilidades, segundo os consultores entrevistados, além das novas habilidades desenvolvidas, muitas foram aperfeiçoadas. Foram destacadas as habilidades políticas e de relacionamento interpessoal, habilidades para elaboração de planejamentos e habilidades em saber lidar com o outro, entendendo suas limitações. Consideramos como habilidades a expertise, capacidade ou facilidade em fazer algo com destreza.
a) Habilidades políticas e de relacionamentos interpessoais:
Como foi citado na seção 4.1.1.1 as relações interpessoais nas ONGs são muito conflituosas o que exige do consultor uma habilidade ainda maior para lidar com estes conflitos. Com essa demanda no decorrer de suas atividades, o consultor vai aperfeiçoando a sua habilidade em lidar com estas dificuldades. Os relatos abaixo ilustram o desenvolvimento/aperfeiçoamento desta habilidade:
É uma coisa extremamente profissionalizante, que todo mundo que chega aqui, vai desenvolvendo inúmeras habilidades, principalmente com relação à mediação de conflitos, que dentro do que eu fazia, eu já utilizava esta habilidade. Porém, aqui, sem dúvida alguma, são tantos os conflitos que você se depara no terceiro setor. Relação direta com a comunidade, que você tem que aperfeiçoar o máximo que você puder para que as coisas não travem e então não morram (Consultora H, entrevista em novembro de 2007).
Esta coisa, assim. Tem uma agenda oculta e deslegitima a idéia do outro. Não serve, por causa de interesses ocultados lá na frente. (...) Aí eu encontrei esta resistência. Mas, na realidade, nesse tipo de processo, das lapadas que eu levei da vida, eu já lido com aquilo ali (Consultor A, entrevista de acompanhamento em outubro de 2007).
A capacidade de olhar o que não está sendo dito. Cada vez mais você consegue olhar o que não está sendo dito, escutar o que não está sendo dito, o que está por traz dos processos, o que está nas entranhas desta história (Consultora I, entrevista em novembro de 2007).
O consultor, ele tem que ter muita sensibilidade para perceber nas entrelinhas o que é que está acontecendo. Ele entra em muitas áreas de conflito. E aí, você identifica as vaidades, o poder que existe, de modo geral. Não estou falando especificamente da Ande não, mas de todas as ONGs (Consultora J, entrevista em novembro de 2007).
Como foi afirmado pelo Consultor E, as ideologias de alguns membros das ONGs podem fazer com que surjam propostas que estão fora do senso de realidade. O Consultor A, diante desta realidade teve que desenvolver a habilidade de lidar com as ideologias dos integrantes das ONGs sem bater de frente com os mesmos.
Às vezes, na reunião, eu fico calado e depois eu falo: veja só, se, somente se, acontecer isto do jeito que você está pensando, vai acontecer isto aqui. E, às vezes, as pessoas deliram e é o cara mostrando a experiência. A lógica do raciocínio dele. E ele faz um raciocínio todo ideológico. Agora na praticidade, não tem consistência prática. Faço algumas perguntas, assim, meio idiotas. E aí termino mostrando meu ponto de vista, assim, qual é a capacidade de o cara negar o meu. Então não digo que o dele está errado, eu digo assim: se acontecer isto, o que vai acontecer? (Consultor A, entrevista em maio de 2007).
b) Habilidades para a elaboração de planejamentos:
Pelo fato de as ONGs buscarem um desenvolvimento sustentável, integrando pessoas, meio ambiente e desenvolvimento, nestas consultorias é demandado do consultor um entendimento maior do impacto das ações em partes específicas do todo. Para isto, segundo a Consultora H, ela desenvolveu uma capacidade de percepção mais ampliada dos problemas e do impacto de ações locais e/ou específicas na solução dos problemas globais.
Então esta é uma habilidade que eu aperfeiçoei muito. Uma visão mais holística do todo, você não vê o problema setorizado. Você tem que ver várias nuanças que influencia este problema, até dentro da empresa você pode fazer isto, mas de uma outra forma, porque não é tão subjetivo, é muito mais prático (Consultora H, entrevista em novembro de 2007).
Isto facilita o desenvolvimento de planejamentos cujas atividades proporcionam a obtenção de resultados mais efetivos. “Então, a gente aperfeiçoa a nossa capacidade de ler processos, de enxergar os processos das organizações” (Consultora I, entrevista em novembro de 2007).
c) Habilidades em lidar com o outro entendendo suas limitações:
Como foi citado pela Consultora H, ser mais sensível às limitações do outro torna-se importante em um ambiente onde nem sempre a eficiência e a competência são tidas como o norte para a realização das atividades. Para isso torna-se necessário ter uma habilidade de escuta, de abertura e altruísmo para com o outro. Como resultado dessa demanda, os consultores desenvolveram uma habilidade de se relacionar, de escutar e entender as limitações do outro, tornando-se mais emocionais que racionais. Como foi citado pela Consultora I (entrevista em novembro de 2007): “a cada processo a gente aperfeiçoa as habilidades. Habilidade de escuta é uma que eu aperfeiçoei muito, eu falava demais, hoje eu escuto muito mais do que falo”. Para isso é preciso “controlar a ansiedade. A capacidade de se colocar no lugar do outro. A capacidade de aprender com o outro (...). Construir junto. Eu acho que a capacidade de ouvir. Aprender bastante. Não ir com preconceitos” (Consultora J,
entrevista em novembro de 2007). O Consultor B também falou sobre esta habilidade desenvolvida:
Talvez lidar com coisas um pouco inusitadas para mim, como satisfação. Pessoas que estão ali e não estariam se fosse em uma empresa privada. Isso aí, tem me ajudado a desenvolver a questão de cuidado e empatia com o outro. Se fosse em uma organização privada, talvez eu falasse: o que você está fazendo aqui, cai fora, vai ficar preso aqui, e nesse caso não é o caso. Até porque as pessoas acreditam na missão da organização, faz, mas vai dizer: poxa! Eu gosto do que faço aqui! Neste sentido eu desenvolvi um pouco de habilidade mesmo, de ser mais sensível às dificuldades que o outro está enfrentando (Consultor B, entrevista em maio de 2007).