4 Apresentação dos resultados
4.3 Principais aprendizados construídos pelos consultores por meio do trabalho com ONGs
4.3.1 Conhecimentos construídos
Quanto aos conhecimentos foram construídos conhecimentos sobre a área social e relacionados à economia solidária, sobre novos arranjos produtivos, relacionados à metodologia de intervenção, e, sobre as reais demandas e potencialidades das ONGs. Consideramos como conhecimentos as informações ou noções desenvolvidas pelo estudo ou pela experiência (FERREIRA, 2004).
a) Conhecimentos sobre a área social e relacionados à economia solidária:
Dentre os conhecimentos construídos pelos consultores, ao trabalhar com ONGs, destacam-se os que estão relacionados à área social e à economia solidária. Pelo fato de muitos terem tido formação acadêmica e experiência com o segundo setor, tinham carência quanto ao conhecimento da realidade das organizações do terceiro setor e aos conceitos próprios das mesmas. Com a experiência neste contexto foi possível a construção destes conhecimentos. Além do contato constante com estas temáticas, muitas ações demandavam do consultor mais conhecimentos sobre a área, conseqüentemente, ele se viu estimulado a desenvolvê-los.
A minha formação é administração de empresas, fruto de uma Universidade que seria assim uma das melhores aqui de Pernambuco feito a própria Federal, mas é mais na linha de business school. Uma faculdade mais de negócios. Então, assim, a primeira coisa foi o conhecimento mais na área das ciências sociais e sociologia. Porque aí eu tive que interagir com psicólogas, assistentes sociais, e sociólogos. Então, assim, eu tive um aprendizado de alguns itens da parte dessas áreas. (...) De certa forma, por exemplo, consumo solidário, consumo responsável, autogestão, cooperativismo (Consultor A, entrevista em maio de 2007).
Além dos conhecimentos das áreas citadas pelo Consultor A, foram aprendidos assuntos relacionados ao poder público e sobre as variáveis presentes no ambiente externo das ONGs. Como o poder público tem uma forte ligação com as ONGs torna-se necessário que o consultor construa um maior conhecimento do mesmo para que sejam traçados cenários mais parecidos com o que será enfrentado pelas ONGs compreendendo suas oportunidades e ameaças. Na entrevista de acompanhamento com o Consultor A este aprendizado foi considerado como relevante.
Eu aprendi sobre interação com o poder público. Certo, assim, visão do mercado institucional, sabe. (...) Acho, na montagem dos cenários, eu trabalho no causal, causa e efeito, aí, nós compomos os cenários. Cenários otimistas, cenários pessimistas, e dentro dos cenários você trabalha com
várias áreas. Ambiente, ambiente institucional, ameaças tecnológicas, então dentro dos cenários, especialmente dessa interação com o poder público, eu aprendi a maestria do cara. A maestria com que o pessoal fazia isso. (Consultor A, entrevista de acompanhamento em outubro de 2007).
b) Conhecimentos sobre novos arranjos produtivos:
Além dos conhecimentos relativos à área social e às alternativas para o desenvolvimento social foram desenvolvidos conhecimentos sobre novos arranjos produtivos. Como a maioria das ONGs busca obter melhorias nas condições de vida de seus beneficiários por meio da geração de trabalho e renda, muitos projetos estão relacionados ao desenvolvimento de arranjos produtivos com os mesmos. Conseqüentemente, o consultor, para assessorar o desenvolvimento destes arranjos sente a necessidade de conhecer como eles se desenvolvem.
Aí, eu tenho experiência em caprinocultura, ovinocultura, piscicultura e vários tipos de projetos. Agroindústria. Então, eu aprendo muito sobre isto aí. Tenho que ver tudo, processo, mercado. Aí, termino sendo forçado a conhecer alguma coisa naquilo ali, o mais enriquecedor é nesta parte. E a estratégia de intervenção como um todo (Consultor A, entrevista de acompanhamento em outubro de 2007).
No entanto, para a Consultora I não há somente uma construção de novos conhecimentos, há uma reformulação dos conhecimentos antigos pelos que foram obtidos mudando a visão de mundo sobre o que foi reformulado. Desse modo, há uma qualificação destes conhecimentos e novas compreensões sobre os mesmos.
Eu acho que a mala vai enchendo, sua bagagem vai aumentando e ela vai qualificando. Você vai qualificando o que você pensa sobre determinados assuntos. Porque assim, uma coisa é quando você pega um processo que é micro crédito e outra coisa é quando você pega um processo que é plano diretor de cidades, e, outra coisa, são organizações que trabalham com temas muito diferentes, a criança e o adolescente, enfim, cada vez que eu saio de um processo desse, a minha visão sobre aquele assunto, normalmente, se ampliou “pra caramba”. Qualificou e eu consigo ter um discurso político muito mais aprofundado (Consultora I, entrevista em novembro de 2007).
c) Conhecimentos relacionados a metodologias de intervenção:
Além de conhecimentos sobre novos conceitos, novos empreendimentos e novas alternativas para a organização social, como foi destacado pelas consultoras H e I, foram construídos também conhecimentos sobre metodologias de intervenção.
(...) então, como a gente pega assuntos diferentes que estão no mundo, digamos assim, vários problemas sociais que estão por aí, você vai qualificando a sua visão de mundo, você vai vendo o que é que realmente tem a ver, o que é que realmente pode mudar, e, você vai transformar o que muda e o que é que não muda. Ao menos assim, a gente aprende muito o que é que não muda. E como mudar em determinadas situações, como pode intervir naquele processo, naquele assunto, com uma outra fala (Consultora I, entrevista em novembro de 2007).
Eu tinha essa visão de trabalhar o social com senso crítico, mas eu não tinha uma visão elaborada. (...) Então, assim, modificou muito a minha visão de mundo, minha visão do trabalho, a forma como eu avalio hoje é totalmente diferente de como eu avaliava antes. Não é tão tecnicista. A forma como eu monitoro hoje é totalmente diferente de como eu fazia antes. Hoje eu sou uma profissional completamente diferente. Completamente diferente de como eu entrei (Consultora H, entrevista em novembro de 2007).
Estes novos aprendizados não foram utilizados somente na reformulação de metodologias para ONGs, algumas práticas adotadas nas ONGs também foram úteis para o trabalho nas empresas privadas. Este é o caso do Consultor C que desenvolveu aprendizados relacionados à gestão coletiva que são úteis para seu trabalho com algumas empresas familiares.
A gestão coletiva. Já, duas empresas em que nós trabalhamos eram empresas de base familiar e a gente alterou esse processo e criou sugestões que vêm sendo construídas, duas delas há mais de dois anos e que a gestão passou a ser feita de forma coletiva. Um envolvimento tanto do grupo familiar que criou a empresa, quando dos funcionários que trabalham na empresa. Com órgãos, colegiados de decisões maiores, discutem como vai ser a execução, mas quem executa é cada área, tudo dentro do aprendizado nessa área de ONG, isso foi bem interessante (Consultor C, entrevista em maio de 2007).
d) Conhecimentos sobre as reais demandas e potencialidades das ONGs:
Outros conhecimentos citados pelo Consultor A estão relacionados a uma melhor compreensão das demandas das ONGs. Este conhecimento é útil para este consultor, que também presta consultoria a órgãos públicos, sendo estes os principais financiadores das ONGs. Desse modo, quando está prestando consultoria a estes órgãos ele pode propor estratégias de relacionamento entre o órgão público e a ONG, embasado em seus conhecimentos sobre as demandas e as potencialidades desta última.
Tipo assim: como eu estou do lado do governo e eu negocio com ONGs, eu sei como as ONGs pensam, eu já sei como articular, eu já sei onde está, até quando o cara bota uma proposta. Eu já sei onde está pegando mais, onde dá para tirar. E já fui do outro lado. E quando eu estou do outro lado eu tenho aquela sensação de que eu conheço o outro lado e posso fazer os ajustes (Consultor A, entrevista em maio de 2007).