6.2 PROCESSOS GERENCIAIS EMPREENDEDORES
6.2.4 Aprender
A aprendizagem, a aquisição e a expressão de conhecimentos gerenciais e técnicos tornam-se o modo de vida dos empreendedores de sucesso. Em geral, os empreendedores gostam de aprender em contato direto e trabalhando com uma matéria concreta e quase todos têm dificuldades em lidar com abstrações, como, por exemplo, noções de estratégia. Isso se aplica principalmente em empreendedores sem formação universitária.
Em todos os empreendimentos analisados, nenhum chegou ainda ao patamar de aprender e questionar o que foi feito e como foi feito. Os empreendimentos são relativamente novos e, com exceção da empresa Beta, as demais estão em um estágio muito inicial de amadurecimento empresarial. Para que a empresa consiga definir e redefinir sua visão central e sua visão complementar e em qualquer nível questionar o que foi feito e como foi feito, é fundamental que a empresa já tenha um delineamento estratégico mínimo.
7 CONCLUSÕES
Este estudo teve como objetivo principal verificar o processo de surgimento de novos empreendimentos a partir do projeto de reflorestamento da Mata Atlântica, conduzido pela SPVS. Para atingir este objetivo, foi efetuada a aplicação de um questionário semi-estruturado junto aos empreendedores da região e também para um responsável político, um responsável pela comunidade e um estudo de caso múltiplo em três empresas existentes na região. As entrevistas foram realizadas pelo pesquisador, com visitas agendadas em cada empreendimento e na comunidade local.
As visitas ocorreram em três momentos diferentes, sendo a primeira destinada a coletar informações sobre a viabilidade do projeto; na segunda visita, foi aplicado o instrumento de coleta de dados em todas as empresas e entidades participantes do projeto, e uma terceira visita se fez necessária para amadurecer questões levantadas na aplicação do instrumento de coletas de dados. A primeira visita ocorreu em setembro de 2005 e o levantamento de dados da segunda e terceira visita ocorreu no período de junho a julho de 2007.
Os elementos identificados nos questionários foram analisados segundo os estudos de Filion (1999) sobre formação dos processos gerenciais e nos estudos de Greene, Brussh e Brown (1997), que analisam o empreendedor e sua base de construção de recursos.
Foram discutidos na análise dos dados os aspectos pertinentes à criação de novos empreendimentos relacionados ao mercado de carbono na área de preservação da Mata Atlântica, conduzidos pela SPVS. Também foi efetuada uma análise sobre a construção da base de recursos por parte dos empreendedores, as modificações ocorridas na região após a implantação dos projetos e as principais barreiras de entrada para novos empreendedores.
Verifica-se nos três estudos de casos analisados que já existiam empreendimentos locais antes da atuação da SPVS na região, porém, todos os empreendimentos apresentavam porte muito pequeno, na maioria dos casos
restritos apenas à unidade familiar e todos tinham características extrativistas. Os pequenos negócios serviam apenas como economia de subsistência para o empreendedor e sua família. As poucas orientações e informações que chegavam até a região eram oriundas de técnicos agrícolas que prestavam serviços para grandes empresas, ou por meio de troca de experiências com moradores mais antigos.
Na análise efetuada sobre a construção da base de recursos, de acordo com a base teórica proveniente de Brusch, Greene e Hart (2002), é citado que
“empreendimentos iniciais inovadores e orientados para o crescimento exigem recursos diferentes daqueles da empresas de crescimento lento”. Nos estudos de caso analisados, verifica-se que todos são revestidos do caráter relativo à inovação, porém, não se trata de inovações radicais, mas de inovações incrementais. Estas inovações se devem ao fato de as culturas locais, anteriores à atuação da SPVS, apresentarem caráter meramente extrativista, com nenhuma preocupação com a sustentabilidade da região e qualidade de vida futura da comunidade. Os projetos implantados pela SPVS conseguiram, por meio de treinamentos e palestras de conscientização, demonstrar que existem recursos naturais à disposição na região e que podem ser utilizados de maneira racional e com direcionamento adequado junto ao mercado.
Os recursos que os empreendedores precisavam para modificar seus produtos não eram apenas financeiros, mas também em forma de auxílio técnico, pois os novos produtos desenvolvidos na região teriam que ser ecologicamente corretos, sem agrotóxicos, sem resíduos químicos e focados no mercado de venda de crédito de carbonos.
Verifica-se também que os aspectos de vantagem única, ativos estratégicos, competências essenciais, capacidade e recursos genéricos fornecem informações importantes para entender a relação de empreendedorismo e construção de recursos na região. Na análise efetuada nas respostas das entrevistas semi-estruturadas, observa-se que estes aspectos impactam de diferentes formas, em diferentes negócios, porém capacidades e recursos genéricos são recursos importantes e indispensáveis para todos os entrevistados.
A capacidade foi verificada pelo conhecimento prévio dos moradores da região em relação às culturas anteriores, mas aprimorada pela parceria com a SPVS em termos técnicos e na busca de produtos diferenciados com insumos regionais. O recurso genérico foi incentivado também pela SPVS, que promoveu a união dos pequenos produtores em torno de associações organizadas com o propósito de abastecer os empreendimentos maiores que estavam surgindo.
Em relação à base de construção de recursos, verifica-se que a atuação da SPVS na região foi um fato impulsionador na economia local, pois os produtos tradicionais, como horta familiar, cultivo de banana e produção de mel, ganharam nova roupagem, conseguindo diferenciais significativos de mercado, como a horta orgânica, a banana orgânica e a meliponicultura.
Mesmo com este aspecto favorável em relação ao produto final e à sustentabilidade do processo, cabe salientar que críticas ao trabalho das Organizações não-Governamentais (ONGs) e empresas privadas apareceram durante as entrevistas, focadas principalmente no favorecimento de grupos estrangeiros em detrimento do morador local. Estas questões não foram aprofundadas, pois não fazem parte do escopo do trabalho.
Em relação aos processos gerenciais dos empreendedores, verificou-se que os negócios da região foram aprimorados após a participação da SPVS. O processo de visão existente era muito limitado à esfera familiar, mas, após a constituição das associações de produtores e instalações das unidades produtivas, foi possível analisar esta visão em termos de relações primárias, secundárias e terciárias. Esta análise demonstrou que a visão na região opera de diferentes formas, mas que a experiência anterior e conhecimento das peculiaridades regionais auxiliaram muito na composição do formato final do negócio.
Na análise realizada sobre a criação de uma arquitetura de negócios, a única empresa que apresentou critérios melhores definidos foi a empresa Beta, por contar com uma operação de mercado mais robusta e com mercado consumidor bem definido. Nas demais empresas, a composição de uma arquitetura de negócios ainda não aparece de forma muito clara.
O processo de monitoramento nas empresas Alfa e Gama está em um estágio muito inicial, com pouco planejamento e sistemas de controles. De acordo com Filion (1999), este comportamento é típico de empresas pequenas, mas, com o passar do tempo e crescimento da empresa, estes processos tendem a tornar-se mais formalizados. Na empresa Beta, mesmo apresentando um porte um pouco maior, a estratégia é muito cognitiva e os sistemas de controles ainda estão resguardados aos mapas mentais dos proprietários.
Na parte referente ao aprendizado, todas as empresas ainda estão em um patamar muito inicial, aparecendo apenas alguns resquícios na empresa Beta. Como as empresas não partem de uma estratégia bem definida, ainda não conseguem utilizar as ferramentas de aprendizado para melhorar seu processo decisório.
Em uma análise final, verifica-se que o surgimento de novos empreendimentos na região foram derivados do novo mercado de carbono e também da atuação da SPVS. Sem apoio e treinamento, a produção local ainda seria extrativista ou talvez estivesse fadada à descontinuidade. A construção de uma base de recursos também é fundamental para o sucesso e longevidade do empreendimento, pois propicia uma leitura clara de quais pontos são críticos no negócio e quais subsídios devem ser aplicados.
Na análise do processo gerencial, fica evidente que a experiência anterior dos moradores da região foi fundamental para a implantação das mudanças e que o sistema de trabalho em associações permite maior interação dos produtores locais em relação à própria comunidade e também em relação aos empreendimentos maiores que processam ou distribuem as mercadorias. A ligação entre os empreendedores locais e a SPVS também é fundamental, pois auxiliou na visualização de um mercado futuro, não apenas em venda de crédito de carbonos, mas também em desenvolvimento sustentável para os moradores da região.
Os estudos de casos efetuados e suas devidas conclusões não devem ser generalizados a outras regiões e nem a casos similares, por se tratar de um estudo específico restrito a três empreendimentos na região de proteção da SPVS com peculiaridades específicas da região analisada.
O presente estudo contribuiu principalmente para os estudos de empreendedorismo relacionados à temática de desenvolvimento sustentável e mercado de carbono. Estudos relacionados a empreendedorismo têm encontrado um espaço cada vez maior na academia e a questão do desenvolvimento sustentável e do mercado de carbono também tem merecido uma atenção acentuada de diversos pesquisadores, tornando o campo de pesquisa bastante atrativo.
Como pesquisa futura, apresentam-se várias oportunidades, dentre as quais um estudo para avaliar o potencial financeiro da captação de carbono da região, a relação do associativismo local com a SPVS ou com os empreendedores de maior porte local, um estudo do sistema de liderança comunitária existente na região, bem como um estudo da potencialidade econômica da região, utilizando o modelo de cinco forças, de Porter.
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