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APROXIMANDO UM OLHAR SOBRE AS SINGULARIDADES DAS

Ao falarem de si e de seus aprendizados, esses sujeitos revelam singularidades, marcas próprias e experiências formadoras de suas trajetórias, como as destacadas abaixo:

Um sonho que eu tive... (Rita)

Eu decidi pelo fato de gostar. (Guilherme)

Eu sempre achei muito bonito! Era um sonho, mesmo! (Elizabeth) Eu vou vencer a miséria estudando. (Lau)

Eu não consigo me enxergar nesse mundo fazendo outra coisa. (Márcia)

Aprender um pouco de cada coisa, o máximo que você conseguir aprender em vida... (Thiago)

Cada estudo é mais um degrau que vou subindo pra aprender. (Ana)

De maneira geral, as manifestações das falas dos entrevistados refletem a sua singularidade; o fato de pensar sobre suas vidas leva-os à ação, pela qual expressam os fatores contextuais e a vivência pessoal construída a partir de suas experiências e possibilidades existenciais. Assim, é possível “[...] revelar a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço” (MORIN, 1999b, p. 39).

Esta ideia nos remete ao fato de que somos seres únicos e, mesmo compartilhando experiências, cada um tem uma forma própria, singular, de ver e se relacionar com o mundo.

Trata-se de procurar sempre as relações e inter-retro-ações entre cada fenômeno e seu contexto, as relações de reciprocidade todo/partes: como uma modificação local repercute sobre o todo e como uma modificação do todo repercute sobre as partes. Trata-se, ao mesmo tempo, de reconhecer a unidade dentro do diverso, o diverso dentro da unidade; de reconhecer, por exemplo, a unidade humana em meio às diversidades individuais e culturais, as diversidades individuais e culturais em meio à unidade humana. (MORIN, 1999b, p. 21)

Compreendemos que a atividade do sujeito em sistemas sociais, culturais, políticos, econômicos e educacionais apresenta singularidades interdependentes da influência que sofre do meio. Isso ocorre no que Morin chama de imprinting, a marca indelével imposta pela cultura familiar e social, que elimina outros modos possíveis de conhecer e pensar. O que inicialmente era visto de forma associada ao processo cognitivo dos desejos e interesses humanos passa a se relacionar às interações que o integram ao contexto e o introduzem na cultura. As relações entre cultura e sujeito são estreitas, mútuas e complementares. Se, por um lado, a cultura depende da sociedade, da forma de organização que se desenvolveu, por outro, o ser humano, em sua constituição, também possui muito da cultura à qual pertence.

Em seu processo formativo, os entrevistados sofrem a influência da família, da sociedade e também do aspecto religioso, como destacado no relato de Lau:

A prática é muito maior e tem que ser mais do que o falar, eu não preciso falar, eu só preciso fazer. Em todo lugar que eu vá, eu tenho a possibilidade de falar algo para a pessoa, seja para levantar, seja algo sobre o amor de Deus, da natureza, dos próprios ensinamentos

de Jesus, porque a vida da gente não deve se basear em pessoas que são erradas, porque nós seres humanos somos errados, quanto menos a gente vê, mais erramos. Nós já temos essa natureza, que é ruim, e estamos tentando ser melhores. [...] Quando eu vejo uma pessoa com uma dificuldade, alguma coisa eu tento passar, que o amor de Deus é que envolve, que se deixe levar e ver que ele é maior do que tudo. E que podemos ter um pouco desse amor dentro de nós. Então, essa coisa da religião é religar o homem a Deus, é religar o homem ao outro homem. Acho que isto tem que fazer parte da vida.

O conjunto de paradigmas, crenças, doutrinas, verdades estabelecidas sugere a preconcepção cognitiva por intermédio das crenças não contestadas, e faz reinar o conformismo intelectual. Desde o nascimento, por meio da cultura familiar e, posteriormente, da cultura social, a marca vai impondo e passa a fazer parte da constituição do sujeito, de sua individualidade, e com ele permanece continuamente.

Desse modo, a cultura submete o indivíduo, que, por sua vez, a realimenta com essa ação, e assim por diante, numa circularidade. Muitas vezes, estas influências vão além, como nos mostra Morin (2002b, p. 35): “impede de aprender e de conhecer fora dos seus imperativos e das suas normas, havendo, então, antagonismo entre o espírito autônomo e sua cultura”.

Fica evidente, nas falas dos entrevistados, que a cultura passa a fazer parte de suas vidas, imprime suas marcas e traz a maneira como eles devem organizar- se, como conceber seu mundo e os fatos que os envolvem, como nos diz Thiago: “dentro da igreja aprendemos muito, a ser disciplinados principalmente”.

Além disso, pude extrair dos depoimentos dos entrevistados evidências em relação a essas marcas, apresentadas nas seguintes ideias:

• A noção de transformação está ligada à educação e à religião. Assim, esta abstração implica, de um lado, a educação, considerada um importante instrumento de modificação, uma via para a mudança de posição social ao longo da vida e de desenvolvimento e solução do progresso individual e social. De outro lado, a religião, pois apresenta um destaque na organização da vida destes sujeitos, no que assimilam e interiorizam, ao aprender um conjunto de conceitos, dogmas, práticas e valores. Isso se dá na busca incessante de uma formação integral, em um aspecto em que corpo e mente, espírito, vida ética, filosófica e religiosa são princípios que devem ser aprendidos e que norteiam toda a vida do homem.

• A ideia de que uns escolheram a profissão como sonho; outros, pela necessidade. Estes sujeitos apontam, por um lado, o desejo e a escolha de suas

profissões, acreditando que o fazem para realizar o sonho de conquistar uma vida melhor; por outro, a real necessidade do mercado de trabalho.

• Em alguns entrevistados emerge outra característica na formação: a busca como marca, ao dizerem não terem sido preparados na graduação, em que o conteúdo teórico foi desenvolvido com pouca ou nenhuma articulação com os cenários encontrados nas escolas. Procuram, portanto, permanentemente, produzir novos conhecimentos, manifestando a busca por uma formação sólida, ao ver aí a possibilidade de melhor preparo para sua profissão.

Percebo, ainda, em suas falas o caráter indissolúvel da teoria tripolar de Pineau, interligando os construtos da personalização por meio da autoformação, a socialização na heteroformação e a ecologização na ecoformação, quando articulam, alternam, complementam, contextualizam e, ao mesmo tempo, identificam ações continuamente em seu processo formativo. Por exemplo, a perspectiva da utilização de ferramentas específicas, como o computador e a internet, que interfere em suas aprendizagens e é decorrente de suas relações consigo mesmo, com os outros e com o meio. Nessa perspectiva, sob a luz do pensamento complexo, parece-me compreensível conceber o processo formativo como auto-hétero- ecoformativo.

A partir das considerações e argumentos até aqui expostos, no próximo capítulo discutiremos os resultados das entrevistas dos professores bem como suas implicações para a autoformação docente.

5 LIMITES E INDICAÇÕES PARA A AUTOFORMAÇÃO

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. (SARAMAGO, 1995, p. 9)

Neste capitulo, apresentamos e discutimos as análises da pesquisa de campo à luz do pensamento complexo, abordado anteriormente.