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“Aqueles dois” e a incompletude da expressão

“Aqueles dois” é um conto que “problematiza a ação e o olhar da sociedade diante de posturas que não seguem os valores estabelecidos pelo patriarcado no que se refere à identidade sexual” (PORTO, 2005, p. 116) e o faz de forma subentendida, através de um narrador em terceira pessoa que insinua o re- lacionamento homoafetivo entre os protagonistas da trama, mesmo que não evidencie nenhuma situação em que tal envolvimento se comprove. Assim como “Terça-feira gorda”, ele compõe o livro Morangos mofados (1982), integrando a sua segunda parte, na qual a dor é característica essencial e conduz a narrativa. A voz narrativa é fundamental para averiguar de que forma a temática homoerótica é abordada, pois são as indicações sugeridas pelo narrador que permitem a interpretação de que Raul e Saul _ protagonistas do conto _ se relacionam afetivamente. Desde a constatação de que, “num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra” (ABREU, 2005, p. 132), o narrador fomenta a percepção de que as personagens têm uma ligação afetuosa, mas a ocultam “apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto” (ABREU, 2005, p. 132). Com compor- tamento discreto, os protagonistas limitaram-se a uma conduta cordial quando se conheceram “porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca se sabe onde está pisando” (ABREU, 2005, p. 133). Com o decorrer da narrativa _ e passar do tempo _, Raul e Saul perceberam as suas afinidades e se aproximaram “tão lentamente que eles mesmos mal perceberam” (ABREU, 2005, p. 133) e, mesmo que inconscientemente, gostavam de estar acompanhados um do outro.

Em determinado momento, o narrador evidencia o apego entre as persona- gens quando Saul chega atrasado na repartição e Raul demonstra preocupação.

A explicação dada por Saul foi de que “tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão” (ABREU, 2005, p. 135), e aqui o autor introduz uma referência externa que se une à perspectiva do narrador ao sugerir a homoafe- tividade entre os protagonistas, uma vez que o filme em questão é Infâmia6, no

qual duas professoras são acusadas de manterem um relacionamento lésbico, mesmo que este não se comprove. A menção ao filme expôs as semelhanças entre Raul e Saul, visto que ambos gostavam da película, mesmo sendo “muito antigo, ninguém conhece” (ABREU, 2005, p. 135); além da história também se assemelhar à trama do conto, à luz do narrador. Percebe-se, neste trecho, a dificuldade que as personagens têm de falar sobre a homoafetividade, pois Raul, ao salientar que conhecia o filme, interrompe a sua sinopse antes de mencionar a acusação a que as duas professoras são submetidas.

A perspectiva de personagens periféricas passa a ser incluída na narrativa para dar verossimilhança ao enfoque do narrador e, também, para salientar a postura adotada pelo autor no conto, o qual apresenta uma crítica ao discurso homofóbico. Em “Aqueles dois”, Caio Fernando Abreu reflete “sobre valores morais socialmente legitimados num espaço em que o ‘diferente’ passa a não ter aceitação, tornando-se indivíduo à margem dos processos sociais” (PORTO, 2005, p. 47) e, a partir de insinuações e sugestões, introduz o “olhar” dos outros sobre a homoafetividade, desenvolvendo, assim, uma crítica ao sistema patriar- cal e heteronormativo.

A homofobia se desenvolve de forma mais latente no conto a partir da des- confiança dos colegas de trabalho sobre a orientação sexual de Raul e Saul, e os protagonistas tornam-se estranhos ao espaço heterocentrado que os segrega. A não inclusão no meio social _ representado pela repartição _ pode ser in- terpretada na representação do sonho de Saul: devido ao afastamento de Raul, decorrente da morte de sua mãe, Saul sentiu-se solitário no trabalho e, em dada noite, sonhou que “caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele” (ABREU, 2005, p. 138). A alusão às cores branca e preta referencia a segregação 6 Infâmia é um filme estadunidense de 1961, dirigido por Willian Wyler e baseado em peça teatral homônima de Lilian Hellman. Protagonizado por Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, que inter- pretam duas professoras de uma escola particular para meninas e são acusadas por uma das alunas de manterem um relacionamento homoafetivo. As consequências dessa denúncia se desdobram em acontecimentos trágicos. Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt0054743/?ref_>. Acesso em: 22 jul. 2015.

Caio Fernando Abreu, Cíntia Moscovich e a representação das sexualidades

a que os protagonistas foram submetidos _ o preto acusador está ligado à ne- gatividade em que a homofobia é auferida no conto, enquanto o branco remete à idoneidade dos personagens principais que estão sendo subjugados socialmente. O comportamento circunspecto de Raul e Saul, segundo a voz narrativa, reitera a interpretação de que “Aqueles dois” é um conto sobre homofobia, visto que o relacionamento homoafetivo sugerido na narrativa não pode ser externado devido à repressão que o meio social em questão impõe. A marginalização imposta aos homossexuais, nesse conto, conclui-se quando os protagonistas são chamados à sala do chefe para discutir a “relação anormal e ostensiva” (ABREU, 2005, p. 140) à qual estavam sendo condenados _ em cartas anônimas, os colegas de trabalho demonstraram um discurso pejorativo em relação à homoafeti- vidade. Nessa circunstância, Raul e Saul foram demitidos, sob o argumento de que “tenho-que-zelar-pela-moral-dos-meus-funcionários” (ABREU, 2005, p. 140), deixando a repartição em seguida.

Nos últimos parágrafos, quando Raul e Saul saíram do prédio onde tra- balhavam, o narrador apresenta a sua visão crítica acerca da sociedade que representa no conto, demonstrando que os indivíduos com “comportamento doentio” e “psicologia deformada” (ABREU, 2005, p. 140) são aqueles que dis- criminam, e não os discriminados. Sob um tom melancólico, sentencia àqueles que permaneceram naquele deserto de almas, “parecido com uma clínica psi- quiátrica ou uma penitenciária” (ABREU, 2005, p. 140), a serem infelizes para sempre, levando consigo o preconceito que os caracteriza.

Diante da dificuldade de julgar a legitimidade do relacionamento homo- afetivo de Raul e Saul, é possível analisar que em “Aqueles dois” o foco não está na suposta relação, e sim na sociedade _ os valores e a conduta que norteiam o comportamento da maioria social são postos em destaque para evidenciar a manipulação que a cultura hegemônica estipula aos indivíduos que nela transitam. A construção dos protagonistas questiona as noções fixas de identidade, além da constatação de que o heteropatriarcado não suporta as constituições identitárias subjetivas; e, por isso, essas personagens se apresen- tam de maneira fragmentada, indicando as suas dificuldades de identificação com os padrões estipulados. A performance conferida às personagens centrais condiz com o ambiente em que estão inseridas e se impregna nelas de modo a não possibilitar as suas identificações individuais, uma vez que “não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las” (ABREU, 2005, p. 132).

O discurso vinculado à supremacia heterocultural direciona a perspec- tiva criada em “Aqueles dois”, uma vez que o narrador se usa de artifícios que presumem a homoafetividade entre Raul e Saul, refletindo o meio social no qual a narrativa se desenvolve, caracterizado pela imposição de valores heteropatriar- cais e legitimação de atos preconceituosos, alicerçados pelo conceito de verdade que a sociedade ditatorial impôs. A história narrada já pode ser presumida no subtítulo do conto _ história de aparente mediocridade e repressão _ e a pers- pectiva adotada se confirma na sua conclusão, pondo em destaque a homofobia e suas consequências.