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4.1 Experiências linguísticas

4.1.2 A voz dos aprendizes

4.1.2.2 As imagens sobre o Brasil

Nesta subseção, apresento as percepções dos intercambistas sobre o país e discuto como as impressões acerca da cultura e do povo brasileiro podem estar relacionadas às experiências linguísticas em PL2.

No questionário, perguntei aos estudantes quais imagens tinham sobre o Brasil antes de chegarem aqui. Enquanto Marc faz associações positivas em relação ao país, Dora enfatiza o lado o negativo de sua percepção sobre o povo brasileiro. Marc afirmou que tinha uma “boa imagem do Brasil” como “país desenvolvido” (Excerto 26). Já Dora

assegurou que “gostava muito do país, mas, quando veio para cá, notou que os

brasileiros eram muito contidos, não gostavam de falar com as pessoas e não eram muito gentis” (Excerto 27). A resposta sucinta de Marc aponta para a relação positiva entre o

aprendiz e o novo lugar em que irá morar. Já a resposta de Dora traz noção de adversidade à experiência vivida. Desde a época da aplicação do questionário, Dora apresenta queixas sobre o comportamento dos brasileiros. Essa imagem persistirá ao longo do processo de EALin.

Com o objetivo de ampliar as informações sobre a relação entre experiências, imagens do Brasil e aprendizagem de PL2, realizei entrevista59 com os aprendizes por meio da qual foi possível obter mais elementos para compor o quadro de análise desta subseção.

A segunda entrevista com Dora foi realizada no bairro onde ela vivia, chamado Vila Telebrasília. Antes de chegar à casa do Benin, passei em uma padaria que ficava em frente à residência dos estudantes. Lá fiz duas perguntas às pessoas que atendiam no estabelecimento e obtive respostas estranhas. Na primeira, perguntei a um senhor estoquista onde ficava determinado produto. Sem olhar para mim, e le apenas apontou para um canto indicando onde estaria o produto, sem falar qualquer palavra. O curioso foi que, quando entrei no estabelecimento, notei que ele havia parado todo o trabalho que estava fazendo para deter a atenção sobre mim. No entanto, ao me dirigir a ele, fui ignorada. Na saída da padaria, perguntei à moça do caixa onde ficava a casa dos africanos e ela disse que não sabia, o que também chamou atenção já que a Vila Telebrasília é um bairro pequeno e que, há algum tempo, possui diversas repúblicas de estudantes de vários países da África. Ao chegar à casa de Dora, expliquei o que tinha acontecido e ela confirmou, novamente, suas impressões sobre o povo brasileiro.

Antes da realização da segunda entrevista, como pesquisadora, buscava refletir até que ponto Dora estaria disposta a interagir em PL2. Entretanto, após ter vivido experiência de me sentir vigiada e, ao mesmo tempo, ignorada na padaria da Vila Telebrasília, passei a repensar a relação entre a imagem construída sobre o Brasil, o posicionamento do discurso de Dora e o contexto de suas experiências. As oportunidades de comunicação passaram a ser interpretadas a partir da perspectiva proposta por Norton Peirce (2000), que indica que vivenciar a língua não depende unicamente de nós, mas também de um sistema externo a nós, que nos atrai e impele a lidar com a L-A de maneiras diversas no

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A entrevista com Marc foi realizada no dia 26 de outubro de 2012. Já a entrevista de Dora ocorreu no dia 5 de novembro de 2012. Todas após o exame do Celpe-Bras.

tempo e no espaço situacional. Com isso, Norton Peirce (2000) sugere como as oportunidades interação são socialmente estruturadas.

Em entrevista, também perguntei a Marc se a imagem que tinha do Brasil havia mudado e ele respondeu que sim. Com o tempo, ele percebeu que o país não é tão bonito quanto ele pensava (Excerto 28). A meu ver, a própria realidade socioeconômica da Vila Telebrasília sugere experiências transformadoras da percepção do aprendiz. No entanto, o que mais chama atenção é a permanência da imagem do Brasil como um país animado. Sobre isso, veja o Excerto 28:

“[...]O tempo que eu passei no Congo e o tempo que eu tô passando aqui no Brasil, eu participei das muitas festas aqui do que no Congo. Aqui todos os dias, sexta, sábado, domingo, eu tô na balada. Festa, festa, festa. Já fiz quatro dias sem dormir. [...]Mas a melhor imagem do Brasil que eu tinha é o Brasil, é um país onde eu vou estudar e planejar a minha vida”. (Marc - E2)

Como ele mesmo assegura no Excerto 2860, “a única coisa que não mudou é a

imagem do Brasil animado”. Sobre isso, é importante ressaltar como a percepção do

Brasil animado sugere estar diretamente relacionada à experiência de Marc na interação com o povo e a cultura brasileira. Segundo o estudante, ele participou mais de festas brasileiras que congolesas. Ao final do excerto, chama atenção a imagem do Brasil como um país onde ele irá realizar seus estudos e planejar sua vida. Ao longo da análise, será possível perceber como o intercambista se posiciona de modo positivo em relação às suas perspectivas futuras de aprovação no Celpe-Bras e ingresso no PEC-G.

Assim como no caso de Marc, as concepções de Dora parecem estar intimamente ligadas às experiências no Brasil. Entretanto, diferente dele, o discurso de Dora está carregado de uma imagem negativa sobre o povo brasileiro. Veja, abaixo, sua fala referente ao Excerto 29:

“[...]No início, eu chorava… [...]Eu chorava mesmo. À noite, eu não conseguia dormir porque tudo é diferente. Quando você… Aqui, eu não sei se na outra lugar é… Não é a mesma coisa, mas aqui, quando você cumprimentar uma pessoa, ela vai não te responder. Isso é muito ruim. Então, eu me disse: ‘o que eu fiz?’. É como se eu tá perdendo o meu tempo aqui. [...]A imagem que eu tenho dos brasileiros, algumas são as pessoas boas, mas algumas são be m… são[...]Eu tenho uma imagem, mas ruim. Mas não é para todo mundo porque tem umas pessoas que são boas.” (Dora - E2)

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Essa segunda descrição da imagem do Brasil está alinhada à resposta apresentada pela primeira vez no questionário. Em ambos os instrumentos, Dora destaca a face negativa do povo brasileiro. Para ela, no Brasil, há pessoas boas e também más. No Excerto 29, é possível depreender de sua fala que o ato de cumprimentar pessoas na rua e ser ignorada gera sentimentos de conflito, expressos na frase: “o que eu fiz?”. A partir do cenário de isolamento linguístico, escassez econômica, pressão familiar e incerteza da aprovação no Celpe-Bras, o sentimento de dúvida (“o que eu fiz?”) surge como uma face identitária de Dora que marcará o processo de aprendizagem de PL2. Essa característica será aprofundada na seção sobre as identidades dos aprendizes.

Desde a partida do país de origem, Dora e Marc passaram por diferentes experiências. Primeiro, foi a aceitação da família sobre a decisão de ir ao Brasil. Depois, foram as condições econômicas e familiares atravessadas por questões de gênero, que proporcionaram diferentes experiências aos intercambistas. Enquanto Marc pôde ir a festas e fazer frequentes viagens a outros estados, ao longo do curso, Dora permaneceu muito tempo em casa e em contato com francófonos. Assim, a análise desses relatos sugeriu que viver em outro país com amplas ou limitadas condições financeiras resulta em experiências distintas de emoções e sentimentos experimentados. Enquanto Marc se demonstra sempre positivo e seguro em relação às suas expectativas futuras, Dora se coloca de forma negativa e temerária. Diante disso, mostrou-se importante refletir, neste estudo, em que medida emoções e sentimentos podem ter influenciado o processo de aprendizagem do PL2.