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4.1 Experiências linguísticas

4.1.2 A voz dos aprendizes

4.1.2.5 O PL2 fora da sala de aula

Esta subseção está dedicada a descrever e analisar a realidade dos intercambistas fora da sala de aula. Assim, serão apresentados recortes de discursos sobre experiências indiretas com a L-A, relacionados ao âmbito público.

Para começar, ofereço as primeiras pistas sobre a vivência dos estudantes levantadas por meio do questionário64 (Q4). No instrumento, perguntei se eles tinham contato com brasileiros e pedi que falassem um pouco mais sobre essa relação. A questão visou obter informações sobre as qualidades das interações estabelecidas tendo em vista o desenvolvimento da L-A. Sobre isso, Marc afirmou que conversava com os brasileiros em vários espaços: no bairro, na universidade, em festas, no ônibus. Ao final da resposta, o estudante assegura ter disposição positiva para se relacionar: “[...]somos todos amigos.

E minha relação com eles é uma relação de amizade” (Excerto 36).

À época da aplicação do questionário, Dora afirmava que tinha contato com os brasileiros virtualmente por meio do Facebook (Excerto 37). Apesar de não ser possível comprovar a veracidade das informações apresentadas pelos aprendizes, ao longo do estudo, as falas dos estudantes foram confrontadas com as percepções das professoras e com as observações da pesquisadora. O resultado dessa operação sugere que os registros do questionário expõem características específicas dos intercambistas. Por exemplo, Marc afirma ter contato com brasileiros em vários espaços, fato que parece condizer com sua característica de sujeito aberto e proativo. Já Dora, que é descrita pelas professoras como aluna com dificuldade em PL2 e pouco participativa, afirma estabelecer contato com brasileiros por meio virtual, o que reforça a hipótese de pouca interação na L-A.

Com o objetivo de confrontar as informações coletadas pelo questionário, na primeira entrevista, perguntei aos estudantes quais espaços eles tinham para interagir em PL2 fora da sala de aula. Marc afirmou que tinha oportunidade de praticar a língua na academia, no clube, na igreja (Excerto 38). Como sugere o Excerto 39, sua participação na igreja parece ser bastante ativa: “Na igreja, tenho muitos amigos, muitos amigos”. Ele afirma que faz parte de uma comunidade grande, que se reúne toda sexta-feira. A partir das conversas realizadas com professoras e alunos, foi possível notar a frequente menção à igreja como importante espaço de socialização no Brasil.

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Para compreender melhor a natureza das experiências com o PL2 fora de sala de aula, na segunda entrevista realizada com Marc65, perguntei a ele o que já havia feito durante o tempo de estadia. Segundo o aprendiz: “Eu fiz muitas coisas, muitas coisas.

São Paulo, Goiânia, Anápolis, Brasília… Quase todas as cidades satélites” (Excerto 40).

Segundo ele, em todas as cidades visitadas havia um amigo brasileiro ou estrangeiro. Da mesma forma, visando confrontar a resposta dada por Dora no questionário, perguntei a ela como era sua relação com os brasileiros. Novamente, a estudante apresentou o discurso de que: “lá no meu bairro, as pessoas não são legais” (Excerto 42), reafirmando impressão negativa sobre a população da Vila Telebrasília. Outra constatação foi que, diferente de Marc, que possui uma rotina agitada, após as aulas de PL2, a opção que resta a Dora é ficar em casa: “durante a semana, quando ter… é… às

sextas, eu vou para lá [igreja], mas se não tem nada, eu vou para casa” (Excerto 41). É

importante notar que, segundo ela, a igreja é o lugar de referência para encontro com brasileiros e o PL2. No entanto, apesar da expectativa de desenvolver a L-A no espaço da igreja, Dora afirma encontrar uma comunidade pouco disposta à interação. Veja, no Excerto 43, o que ela fala sobre sua relação com a comunidade católica:

“Eu sou católica. Tenho um amigo que ele me pediu de vir para só a igreja, para conversar mais com as pessoas. Mas, quando eu fui lá, as pessoas não estavam. E, depois do culto, só ele conversar as pessoas que eles conhece. Então, tô… Eu me… Sou tímida. Então, porque… Eu me disse: ‘porque eles são assim?'… Lá na igreja não tem diferença. Todo vem para orar, agradecer Deus. Então, porque eles são assim? Não é meu opinião, não é para todo mundo. Eu me disse, por exemplo, eu sou… Porque eu estou tímida… É a razão, é a razão… Mas não sei se as pessoas se comportar assim…” (Dora - E1)

É interessante notar como a igreja oferece espaço propício para a interação e, consequentemente, para a aprendizagem de PL2. Entretanto, a expectativa de Dora em estabelecer comunicação com os brasileiros parece ter sido frustrada pela cultura da Igreja. Veja, no Excerto 44, a hipótese criada por ela para explicar a falta de interação:

“Lá na igreja, para falar a verdade… Na Igreja Católica, depois… da missa… as pessoas vão embora. Então, tem ninguém com quem conversar assim… mas pra a igreja… igreja. [...]Evangélica… eles são mais… mais… como a gente diz… eles falam mais… conversar mais com as pessoas… Então, são mais simpática.” (Dora - E2)

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A fala de Dora sobre a diferença entre a socialização na Igreja Católica e na Igreja Evangélica é uma observação importante a ser feita. Para a aprendente, na Igreja Evangélica, as pessoas conversam e interagem mais que na Igreja Católica, ou seja, a forma de comunhão entre os membros favorece a interação e, consequentemente, a aprendizagem da L-A. Vale lembrar que a professora Helena argumentou no mesmo sentido de Dora, afirmando que a participação dos estudantes na comunidade evangélica, nos grupos de estudos e no louvor pode ter contribuído para o desenvolvimento da L-A.

A partir dos recortes das falas apresentadas na seção sobre experiências, elaborei o Quadro 3, que traz as experiências de Dora e Marc relacionadas ao PL2. Confira abaixo:

Quadro 3 - Síntese das experiências

Experiências Descrição

Marc Dora

A reação da família  Reação dupla: boa e triste.  Reação negativa.

Abandonar a

faculdade no país de origem

 Essa questão não surge em sua fala como um problema.

 O assunto surge em sua fala com um tom de dúvida ou arrependimento. As imagens sobre o Brasil  1º momento: Imagem boa.  1º momento: Imagem boa.  2º momento:

País animado, mas que possui pobreza.

 2º momento:

Há pessoas ruins, fechadas e pouco gentis no Brasil.

Uma situação marcante vivida no Brasil

 Perder o avião por não saber falar PL2.

 Ser repreendida pela professora, que disse para ela melhorar o PL2 senão teria que voltar para o Benim.

O PL2 em sala de

aula  Tem boas experiências diretas.

 Sente medo e vergonha ao falar PL2 com as professoras.

O PL2 fora da sala de aula

 Tem muitos amigos brasileiros.  Interage em vários espaços de

comunicação.

 Não tem amigos brasileiros.  Sai pouco de casa.

Nesta seção, foram descritos os caminhos percorridos pelos estudantes em suas experiências com o PL2, buscando-se evidenciar como os trajetos se diferenciaram ao longo do período de aprendizagem em forma, frequência e qualidade de interação com a língua-alvo. Essas diferenças foram marcadas, principalmente, por uma relação de aprendizagem direta, no caso de Dora, e indireta, no caso de Marc. Nesse sentido, busquei lançar luz não somente para a comunicação em sala de aula, mas também para a forma como as oportunidades em PL2 são socialmente construídas fora dela.

Tendo em vista a primeira pergunta, 1) Como se caracterizam as experiências dos

estudantes em PL2?, é possível sugerir que as oportunidades de comunicação em PL2

disponíveis, 2) os sentimentos e as emoções envolvidos no processo de EALin e 3) os tipos e as qualidades das interações estabelecidas ao longo do processo de aprendizagem.