4.2 Crenças sobre ensino e aprendizagem de PL
4.2.4 Como estou no processo de aprendizagem de PL2?
Com objetivo de compreender as crenças relacionadas à autopercepção do estudante no processo de aprendizagem, nesta seção, apresentarei e discutirei as falas que
tratam do desenvolvimento das quatro habilidades em PL2: produção e compreensão escrita bem como produção e compreensão oral.
Durante a investigação, foi possível notar que Marc acreditava que o desenvolvimento de suas quatro habilidades se encontrava em um bom nível, o q ue pode ser constatado nas respostas dadas à questão 11 do questionário70. Já Dora, até o momento da aplicação do questionário, acreditava que sua produção e compreensão escrita se encontravam em nível regular. Já as habilidades de produção e compreensão oral estavam em nível insuficiente71.
Para confrontar as percepções registradas no questionário, em entrevista, perguntei a eles como percebiam o desenvolvimento da aprendizagem em PL2 ao longo do curso. Conforme pode ser visto no Excerto 55, a primeira afirmação de Marc é positiva: “Eu
aprendi o português aqui na escola, aqui agora. Tá faltando um mês para acabar. Posso falar, a experiência foi muito boa”. Essa característica é acompanhada pela capacidade
de autopercepção no desenvolvimento da L-A. Assim, ao olhar as produções escritas realizadas no início do ano, o estudante é capaz de perceber o quanto evoluiu quando enxerga os próprios erros e compreende que, o que antes era difícil, tornou-se fácil. Hoje, é capaz de achar graça do processo de aprendizagem: “E porque quando eu tô olhando as
formas passadas, eu fico rindo mesmo” (Excerto 55). Somada à percepção positiva no
desenvolvimento da L-A, a crença de que aprender uma L2 é um processo contínuo, parece tranquilizar as expectativas de Marc sobre o Celpe-Bras: “O português vai vir com
o tempo. Vou aprender no dia a dia. Não tava com pressa de falar diretamente, direito mesmo” (Excerto 55).
Além de tudo o que já foi exposto, é interessante notar como, na fala de Marc, destaca-se a crença de que a compreensão oral é uma habilidade importante já que essa será a habilidade mais usada na faculdade. Essa crença parece relacionada com o futuro desejado para si, ou seja, com o espaço social a ser conquistado como estudante de graduação do PEC-G: “Importante desenvolver a escuta mesmo. Porque na faculdade eu
não vou precisar falar muito, importante é escrever e escutar” (Excerto 57).
Quanto à Dora, apesar de registrar autopercepção negativa em relação ao seu processo de aprendizagem, na primeira entrevista, ela afirma ter notado crescimento na L-A. À época, ela afirmou que os brasileiros já eram capazes de compreendê-la melhor: “Eu acho que agora, quando eu falo, a gente conseguir entende… Mesmo se é bem…
70
Confira, no Apêndice A, o questionário e as respostas integrais dadas à questão 11.
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Mesmo se não é melhor… Mesmo que eu não fale bem a língua” (Excerto 58). Apesar
disso, Dora ainda não estava satisfeita com o seu desenvolvimento: “Não, ainda não
porque fa… é… conversar com as pessoas, eu tô com vergonha, tô com medo” (Excerto
58). Segundo a estudante, as experiências de comunicação em PL2 são marcadas pelos sentimentos de medo e vergonha de errar, sendo a sala de aula o contexto mais afetado por esses sentimentos: “Por exemplo, para falar com minha professora, eu tô com medo,
tô com vergonha porque eu me disse: eu vou falar mal essa palavra… então ela vai ficar com raiva… ela já explicar essa palavra” (Excerto 58).
A partir das falas recortadas nesta seção, elaborei o Quadro 4, que resume as crenças de Dora e Marc sobre o ensino e a aprendizagem de PL2.
Quadro 4 - Síntese das CEAL
CEAL Marc Dora
O que é língua? O que é o PL2?
Antes, era uma bobagem. Hoje, é algo muito
importante.
É comparável a sabedoria geral.
É uma coisa de valor.
A língua é um bem de valor. Estudar uma língua é uma
grande oportunidade restrita a alguns.
Antes, achava que o PL2 era fácil e parecido com o francês. Hoje, o PL2 é difícil.
Por que é importante aprender PL2? É importante aprender PL2 para: Estudar. Fazer pesquisa. Desenvolver e ampliar o conhecimento. Exercitar a mente. Ingressar no mercado de trabalho.
Aprender outras culturas.
É importante aprender PL2 para: Ser livre.
A cultura em geral.
Conversar com outras pessoas. Compreender muitas línguas. Ter oportunidades.
O que fazer para aprender o PL2?
Praticar o PL2 regularmente mesmo que falando errado. Estudar em turma de
composição mista.
Potencializar as oportunidades de comunicação em PL2 saindo de casa, conhecendo pessoas novas, etc.
Conviver com falantes de português.
Como deve ser o papel do estudante no processo de aprendizagem do PL2?
Ativo Ativo
Como estou no processo de aprendizagem do PL2?
Produção textual: Bom Compreensão textual: Bom Produção oral: Bom Compreensão oral: Bom
Produção textual: Regular Compreensão textual: Regular Produção oral: Insuficiente Compreensão oral: Insuficiente
A partir da análise realizada, é possível sugerir a presença alguns contrastes nas crenças de Dora e Marc sobre a aprendizagem do PL2. O primeiro contraste é que, enquanto Marc acredita ter desenvolvido bem as quatro habilidades, Dora vê seu
desenvolvimento como insatisfatório. Além disso, é importante destacar que as crenças dos estudantes sobre a aprendizagem de PL2 parecem ser afetadas por experiências distintas, sugerindo relação específica com as emoções e identidades em jogo, tais como: desejo, medo, confiança, vergonha, ansiedade e tranquilidade. Assim, outro contraste que se apresenta é que, enquanto Marc aparenta estar tranquilo, Dora assume sentir vergonha e medo das professoras. Lançar luz sobre as diferenças relativas às emoções e aos sentimentos é tentar compreender como os caminhos na aprendizagem de PL2 foram percorridos de maneiras específicas. A meu ver, ignorar esses traços característicos é ignorar as biografias de cada aprendiz.