As imagens da criança e da infância para a ciência humana evidenciam uma variação histórica e cultural como elemento de regularidade em todas as sociedades ocidentais. A
variabilidade do conceito por meio da identificação de diferentes concepções de criança e infância e imagens sociais em diferentes épocas históricas segundo Sarmento (2007), possibilita encontrar diferentes modos de conceber as relações entre crianças e adultos.
Alguns estudos evidenciam a tentativa da ciência em explicar as diferentes dinâmicas das crianças, entre eles o dos autores Thomas, Chess e Birch conhecidos pelo desenvolvimento da teoria das três constelações que resultou de um estudo longitudinal denominado New York Longitudinal Study (THOMAS & CHESS, 1977, apud, TURECKI, M. D.; TONNER, L., 1990). Segundo eles, toda criança tem seu próprio temperamento e eles acreditam ser possível enquadrar 60 a 65% das crianças em três perfis de temperamento: a criança fácil, a criança difícil e a criança lenta.
• A criança fácil: é descrita como aquela regular em termos fisiológicos (sono, padrões alimentares e que se adaptam a situações novas de maneira relativamente à vontade).
• A criança difícil: é descrita como biologicamente irregular e que reage negativamente perante situações novas, demora a adaptar-se as mudanças. Seu humor é definido como intenso e basicamente negativo.
• A criança de adaptação lenta: é caracterizada por apresentar reações negativas de maneira moderada quando colocada em novas situações. Embora acabe aceitando-as, após repetidas exposições.
Nessa perspectiva, os autores parecem assumir uma categoria biologicista para explicar o comportamento das crianças como fruto de um temperamento inato e não produzido pelo ambiente. Explicação que parece encontrar terreno fértil na atualidade para justificar patologias e a medicalização de crianças no contexto educacional, uma vez que os temperamentos considerados difíceis de algumas delas são interpretados como constituintes do sujeito. Para a psicóloga Adriana Marcondes, a obediência obtida através de medicamentos produz o que é conhecido na farmacologia como “efeito Zumbi” e o neurologista Esteven Strauss, professor do Hospital Franklin Square de Baltimore, em Maryland, aponta a medicalização como um tipo de controle social que rotula a criança, mas que tem atendido a demandas que procuram isentar problemas sociais e educacionais.
O estudo de Turecki e Tonner (1990) sobre o temperamento difícil da criança revela que desde a mais tenra idade, adultos reagem à dinâmica de bebês considerando-os difíceis e associando-os a exaustão dos pais, tensão matrimonial e familiar. Nestes casos, a maioria dos pais tem a tendência a acreditar que há algo de errado com o bebê e chegam até a mudar de pediatra em busca de uma resposta, pois o manejo da criança é difícil para eles. Processo semelhante ao que se encontra na relação entre professor e aluno caracterizado como difícil.
Do ponto de vista histórico, as imagens da criança em determinadas épocas compreendem que é no cotidiano infantil que se forma a imagem da criança e do seu brincar. Nesta perspectiva, Kohan (2003) mostra muitos aspectos da antiguidade sobre as formas de se conceber a infância, que acabam consolidando-se e refinando-se na modernidade. Na visão do autor, quando a criança é considerada sob um plano em que remete a infância como o outro desprezado, sendo elas descritas como quem não tem domínio e controle sobre si, torna-se a figura do desprezo e do excluído.
Desta forma, sob a concepção de uma criança inferiorizada e negativa, a educação assume a política como sua principal tarefa, pois se vislumbra a criança como objeto de interesses políticos em que situa a infância como um período de formação e que precisa adquirir conhecimentos para governar de modo adequado a polis.
Ao propor o desbravamento do campo semântico de criança e infância, Javeau (2005) anuncia uma tentativa de organizar um domínio em que se manifestam construções sociais da realidade. Assim, o campo semântico da criança seria de ordem psicológica pautado no discurso das “fases de desenvolvimento” da criança em que cada uma delas constitui-se uma etapa na formação da personalidade do indivíduo. O campo semântico da infância para o autor inscreve-se na perspectiva demográfica, pois é considerada improdutiva no paradigma econômico e percebida como um investimento.
Ao discorrer sobre a visibilidade social e estudo da infância, Sarmento (2007) apresenta um panorama da construção histórica das imagens sociais dela e a criação de sucessivas representações das crianças ao longo da história, onde essas imagens sociais se sobrepõem e fazem com que se confunda o plano de interpretação, dos mundos das crianças, bem como seus comportamentos. Nesse sentido, para o autor, buscar conhecimentos minuciosos que oportunize uma reflexão e desconstrução desses fundamentos, assim como um saber comprometido com o resgate da infância, torna-se relevante.
Sarmento (2007) cita os sociólogos como James, Jenks e Prout pela identificação das imagens sociais de crianças historicamente construídas. As mesmas podem ser compreendidas no diálogo com a classificação atribuída por eles no contexto de estudos orientados pela Teoria das Representações Sociais, uma vez que corresponde a tipos ideais de simbolizações históricas e que são disseminadas no quotidiano, apropriadas pelo senso comum e impregnam as relações entre os adultos e as crianças.
Para os sociólogos, as imagens de crianças se organizam em duas categorias: a pré- sociológica e a sociológica. As imagens propostas como pré-sociológicas são:
• A criança má: baseada na ideia de “pecado original” associada a uma natureza que precisa ser controlada, pois está dominada por seus instintos potenciais para o mal. Sarmento sinaliza que na contemporaneidade as crianças assim consideradas, estão associadas a crianças de classes populares em que suas famílias são referidas como “disfuncionais”. Desta forma, são vitimizadas e representam “perigos” que necessitam de intervenções repressivas tais como a redução da idade penal.
• A criança inocente: funda-se no mito romântico da infância em que o pensamento de Rousseau anuncia a natureza genuinamente boa das crianças contrapondo-se com a concepção “monstruosa” e de natureza indomável delas. Nesta imagem, a criança está associada a pureza, inocência, beleza e bondade.
• A criança imanente: parte da ideia de John Locke de um potencial de desenvolvimento da criança. Ela é uma tabula rasa em que podem ser inscritos vícios e virtudes. A infância está submetida à modelagem.
• A criança naturalmente desenvolvida: sob a influência de Jean Piaget e da psicologia do desenvolvimento, parte-se para um novo entendimento das crianças do século XX. Duas ideias centrais nessa imagem de criança: as crianças são seres naturais antes de serem sociais e elas sofrem um processo de maturação que se desenvolve por estágios. A psicologia do desenvolvimento de Piaget torna-se responsável por um conhecimento científico sobre as crianças.
• A criança inconsciente: esta imagem imputa ao inconsciente o desenvolvimento do comportamento humano. Esta visão introduz um viés interpretativo que impede a análise da criança a partir do seu próprio campo.
Essas diferentes imagens das crianças não são estanques para Sarmento (2007), mas sim dispositivos de interpretação que se revelam na ação de adultos com as crianças.
Dentre as imagens pré-sociológicas a da criança má possivelmente estabelece conexão, no âmbito do senso comum, com o estudo do aluno bagunceiro, pois este parece estar sendo relacionado à imagem da criança percebida como difícil e associada a uma natureza má que precisa ser controlada. Os sociólogos sumarizam que as imagens sociais das crianças, por mais estranhas e arcaicas que possam parecer, moldam ações e práticas dos adultos para com as crianças e isso não deve ser negligenciado.