CAPÍTULO 7 – RESUMO DO PROCEDIMENTO
7.1 Atividade executiva perante o tabelionato de protesto
Tratando-se de execução de título judicial em quantia certa, desde que haja requerimento do exequente, o juiz intimará o executado para pagar voluntariamente o débito. Não ocorrendo pagamento espontâneo no prazo previsto, o débito será acrescido de multa de 10%, que passará a constar da certidão expedida para demonstrar a certeza, liquidez e exigibilidade do título, documento necessário para que o procedimento possa ser instaurado perante o distribuidor dos tabelionatos de protesto (CDT), se for o caso, ou no próprio tabelião, se a comarca contar com uma única serventia.
Importante registrar que no interregno do prazo para o pagamento voluntário, “independentemente de penhora”, conforme artigo 511 do Projeto de Lei nº 8.046/2010, aprovado no Senado Federal e em trâmite perante a Câmara dos Deputados, o executado poderá apresentar impugnação nos próprios autos, podendo arguir qualquer um dos fundamentos elencados.
O julgamento da impugnação terá seu curso regular perante o Poder Judiciário, mas não impedirá a prática dos atos executivos pelo agente de execução, no tabelionato de protesto, a menos que seja conferido efeito suspensivo diante de relevantes fundamentos ou grave dano, de difícil ou incerta reparação, devendo o tabelião ser informado imediatamente.
Julgada procedente a impugnação, o juiz extinguirá a execução, comunicando sua decisão ao tabelião. Julgada improcedente, a execução em trâmite perante o tabelionato de protesto retomará seu curso, caso tenha sido suspensa por ordem judicial, ou prosseguirá regularmente em suas atividades de penhora e expropriação.
Tratando-se de execução de título judicial cuja intimação para pagamento voluntário tenha ocorrido há menos de 1 ano, tão logo o advogado distribua o requerimento executivo (formulário eletrônico) contendo a certidão judicial que ateste a liquidez, certeza e exigibilidade da sentença, o tabelião de protesto desde logo realizará a penhora e a avaliação de bens, seguindo-se os atos de expropriação. Caso esse prazo reste expirado, será realizada a
regular citação para pagamento do valor constante na certidão, da qual já constará a multa de 10% pelo não cumprimento voluntário, acrescido de honorários advocatícios de 10% e emolumentos do tabelionato.
Antes de iniciar os atos executivos, a parte pode optar por protestar a sentença judicial. Assim, de posse da referida certidão, o tabelionato de protesto poderá realizar a intimação para protesto e, caso não seja efetuado o pagamento no tríduo legal, gerar o efeito da publicidade específica, fazendo-se constar a inadimplência nos bancos de dados disponíveis no mercado, tais como Serasa, SCPC, SPC Brasil, Equifax, entre outros.
Todo e qualquer título pode ser protestado, embora ainda seja pouco utilizada tal medida coercitiva em relação às sentenças. Já existem hoje alguns convênios assinados entre o Poder Judiciário e o Instituto de Estudos de Protesto de Títulos do Brasil para a efetivação do protesto de sentenças por meio de sistema eletrônico com certificação digital. A seção de São Paulo do referido Instituto assinou, em 12.12.2008, convênio com o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, objetivando o envio eletrônico das certidões de créditos trabalhistas para protesto. Um termo aditivo ao referido convênio foi assinado em 7.7.2010, com pequenas modificações acerca do procedimento do cancelamento do protesto.
Não sendo efetuado o pagamento, o agente de execução realizará a busca de bens, a penhora, a avaliação, a expropriação, o pagamento, a extinção da execução, tudo conforme detalhado na proposta procedimental apresentada no último capítulo. Caso não sejam localizados bens, o processo será suspenso imediatamente e o protesto lavrado.
Tratando-se de execução de título extrajudicial, protestado ou não, o advogado devidamente constituído apresentará o requerimento executivo, que não necessariamente deverá conter toda a formalidade da petição inicial. Sugere-se que, nos moldes da execução portuguesa, seja aprovado pelo CNJ e tribunais um formulário executivo padrão, a ser preenchido com todas as informações do título, das partes, dos fatos – de forma bastante sucinta –, dos valores envolvidos, dos bens conhecidos do devedor, entre outros. 437
437 O formulário eletrônico de requerimento executivo pode ser encontrado em <http://www.dgpj.mj.pt /sections /sobre-dgpj/anexos/impressos-requerimento/downloadFile/file/01_-_ReqExecImp.pdf?nocache=1256202122.44 22.44>. Acesso em: 9 mar. 2012.
Se o envio for eletrônico, a cópia do título deverá ser digitalizada e enviada juntamente com o requerimento, conservando-se o título original, uma vez que a qualquer momento poderá ser exigida a sua apresentação para conferência.
O tabelião de protesto examinará o requerimento e o título executivo em seus caracteres formais. Qualquer irregularidade relativa aos elementos extrínsecos do título, além da eventual ocorrência da prescrição ou caducidade, obstará o seguimento da execução, devendo haver então a comunicação ao advogado do credor, que poderá retificar, esclarecer, juntar documento complementar, entre outras providências. Frise-se, o agente de execução deve estar, necessariamente, autorizado e habilitado a fazer esse tipo de análise, já que diretamente relacionada à capacidade executiva do título.
Antes de extinguir o processo executivo em razão da insuficiência ou deficiência do título, o agente de execução poderá consultar o juiz de execução, que decidirá pelo prosseguimento ou não do processo, determinando-se as providências executivas ou a extinção. De todo modo, trata-se de faculdade do tabelião, já que munido de poderes para extinguir a execução cujo documento de respaldo não seja título executivo, nos conformes legais.
Observando a regularidade do título e do requerimento, o agente de execução realizará a citação para pagamento em 3 dias, sob pena de penhora. Não havendo pagamento, o agente de execução passará a consultar sua base de dados para localização de bens do devedor, sendo certo que a serventia deverá contar com o acesso a todos os sistemas de informação, a exemplo dos Registros de Imóveis, departamentos de registros de veículos automotores, INSS, entre outros.
O agente de execução poderá enviar ofício eletrônico ao Banco Central, o qual, em atenção ao sigilo bancário, não poderá prestar informações sobre a existência de ativos e seus valores, mas apenas e tão somente realizar a indisponibilidade de eventuais valores existentes, até o limite do crédito executado.
A penhora será realizada, passando-se para a fase de expropriação, cujo regramento é mantido nos termos hoje conhecidos, conforme o vigente Código de Processo Civil e o Projeto de Lei nº 8046/2010. Nessa parte, a proposta procedimental apresentada no último
capítulo basicamente altera a competência para a realização dos mencionados atos executivos, substituindo-se os termos juiz e judicial por tabelião de protesto, fazendo-se as adaptações necessárias. São raras as situações em que se prevê autorização judicial, citando-se o exemplo da invasão de domicílio.
O agente de execução deve estar autorizado a receber proposta de desconto ou parcelamento da dívida e, uma vez aceita pelo credor, deve zelar pelo seu cumprimento, quando então possa extinguir a execução.
Caso o agente de execução perceba que a execução não será frutífera, por absoluta inexistência de bens, ele tem o dever de comunicar o fato ao credor, evitando que execuções inúteis permaneçam tramitando, com seus custos inerentes. O tabelião de protesto deverá propor a suspensão da execução e o protesto do título, caso ainda não tenha sido lavrado. Se o advogado não apresentar bens localizados por meio de diligências próprias, tal providência deverá ser tomada de ofício. Nada justifica que esse tipo de execução seja perpetuado por mais de 6 meses, tumultuando e sobrecarregando os entes responsáveis pela execução.
Considerando que o título permanecerá protestado até que o devedor cumpra sua obrigação – respeitado o prazo de 5 anos –, ele sentir-se-á coagido a obstar a publicidade da sua inadimplência, que não raramente gera restrição de crédito, levando-o ao pagamento da dívida.
Não há solução para a falta de patrimônio para a satisfação das obrigações, mas em se tratando de devedores solventes o protesto é uma ferramenta poderosa e pouco utilizada pelos operadores do direito. Transcreve-se texto do atual Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013, Dr. José Renato Nalini, no qual defende que a solução para a cobrança da dívida ativa (CDAs) é o protesto e não a execução, enaltecendo o ofício do tabelião de protesto:
O Judiciário existe para julgar. Ou seja: resolver conflitos. Tudo o mais que se atribui à Justiça e que não seja decidir controvérsias, é função anômala. Uma delas é a cobrança da dívida ativa, assim chamada a obrigação financeira contraída pela Administração Pública.Todos os anos o Governo, suas autarquias e fundações – aí compreendidos União, Estados, Distrito Federal e Municípios – arremessam à Justiça milhões de CDAs – Certidões de Dívida Ativa, que darão origem a execuções fiscais. O Judiciário se conforma com a situação esdrúxula. Aceita ser cobrador de dívida. Mesmo sabendo que não tem estrutura, pessoal nem gestão eficiente para fazer
funcionar um setor nevrálgico. Todos têm interesse em que os devedores recolham ao Erário o devido. Se eles se recusarem a pagar, o ônus de sustentar a máquina – sempre perdulária e quase sempre ineficiente – recairá sobre os demais. Há comarcas em que os milhares de processos de execução fiscal estão paralisados há vários anos. Isso é prejuízo para todos e também para a Justiça, que arca com o ônus de não funcionar. Por isso estou envidando esforços no sentido de se oferecer uma alternativa ao processo judicial de execução fiscal. É o caso do protesto da CDA, que o STJ aceita, que o CNJ admite e que o TCE, em recente decisão, entendeu perfeitamente cabível para as Prefeituras. O tabelionato de protestos possui uma estrutura que o Judiciário não tem. Todos os serviços extrajudiciais conquistaram um status singular na Constituição de 1988. Exercem uma delegação estatal, mas em caráter privado. Isso faz com que a prestação por eles oferecida seja muito mais eficiente do que aquela a cargo do Poder Judiciário. Notificado de que terá um prazo para pagar a dívida, sob pena de protesto, o devedor solvente preferirá satisfazer sua obrigação. Enquanto a execução fiscal leva anos para tramitar. Não se encontra o devedor, nem existem bens a serem penhorados. Quando o Poder Público credor despertar para a superioridade estratégica do protesto em cotejo com a execução fiscal, todos ganharão com a única opção possível. Sociedade e povo e, por acréscimo, o aturdido Judiciário.438
Nesses termos, fora algumas poucas decisões que o juiz deverá tomar quando provocado pela parte ou agente de execução, todo o procedimento executivo será conduzido pelo tabelião de protesto; caso não sejam localizados bens do devedor e ainda não tenha ocorrido o protesto, o tabelião deverá lavrá-lo, para que a inadimplência torne-se pública, suspendendo-se a execução.