6 RESULTADOS E DISCUSSÃO
6.1 Como as ideias circulam em texto
6.1.4 Biologia em contexto (AMABIS; MARTHO, 2013)
Os dois capítulos iniciais desta obra se dedicam a caracterizar como surgiu a vida e o que é vida, respectivamente. A definição de vida é discutida a partir de contribuições de Ernst Mayr e de Francisco Varela e Humberto Maturana, discutem as teorias sobre a origem da vida na Terra, a inserção da biologia como ciência e as origens da ciência, quais as características da vida, entre outros assuntos, mas tudo isso é feito sem considerar o conceito de diversidade biológica. A diversidade, como conceito, é pouco explorada nesta coleção, que também organiza a apresentação de alguns grupos de seres vivos, no volume 3 (que tem como subtítulo A diversidade dos seres vivos), em seções que são denominadas a diversidade de, como já encontrado em outras coleções. Esta forma de organização foi utilizada para protozoários, fungos e plantas, mas não para os demais grupos. A falta de um tratamento mais detalhado
60 As discussões sobre meio ambiente se concentram nos capítulos de 3 a 8 do primeiro livro (BR4.1),
do conceito de biodiversidade tem como consequência uma presença muito reduzida de questões ligadas à conservação nos três livros.
Os temas discutidos nos capítulos que tratam de ecologia (Volume 1) e nos que apresentam os grandes grupos taxonômicos (Volume 3) trabalham com uma narrativa quase que estritamente sistematizadora, sendo muitas das vezes apenas ilustrativos, sem favorecer à problematização ou à análise crítica. A conservação dos recursos hídricos é um tema discutido dentro de ciclo da água e adubação verde em ciclo do nitrogênio. No primeiro caso, há uma breve referência às reservas mundiais e brasileiras, e ao Fórum Mundial das Águas de 2012, mas sem maior análise. O esquema de uma residência discute hábitos de consumo e propõem novas atitudes, e pode ser bem explorado por professores e alunos, mas a adubação verde é apresentada de maneira estritamente descritiva e o ciclo do carbono não aparece conectado a nenhum processo ambiental, como o aquecimento global, por exemplo. Questões de poluição de recursos hídricos e gases de efeito estufa são explorados no capítulo que trata das relações da humanidade e o ambiente, e seria interessante do ponto de vista pedagógico que houvesse alguma indicação das conexões entre esses capítulos, e é isso que se espera de uma coleção que anuncia no título que vai tratar da biologia em contexto.
A população humana recebe um tratamento mais elaborado, com toda uma seção que começa perguntando quando o crescimento da população humana vai parar, após terem sido discutidos os elementos básicos da biologia populacional em abordagem que só utiliza exemplos de vida silvestre. A seção Ciência e cidadania, neste capítulo, inicia uma discussão que se estende por dezessete subtópicos numerados, com os dois primeiros relatando o histórico do crescimento da população humana, em texto e gráfico, e os seguintes, os fatores que favoreceram nossa explosão demográfica, dando destaque à produção de alimentos e ressaltando que não é possível ampliar indefinidamente as áreas cultivadas e estamos próximos dos limites da expansão agrícola. Isso leva o assunto para as áreas do Brasil que ainda mantém a cobertura vegetal natural:
Por outro lado, os ecossistemas naturais que ainda restam, como os da Amazônia, dos Cerrados e do Pantanal Mato-grossense, não podem ser explorados de forma predatória. É preciso manter áreas preservadas para não se perder a diversidade biológica
(biodiversidade) produzida ao longo de bilhões de anos de evolução (AMABIS; MARTHO, 2013, v. 1, p. 100).
A biodiversidade aparece no texto já com o viés de perda, na perspectiva de extinção de espécies em função da exploração do ambiente natural para o aumento da produção agrícola. Por outro lado, mais uma vez o conceito de conservação é substituído pelo de preservação, uma tendência já detectada em outras coleções. No capítulo que discute dos grandes biomas mundiais e brasileiros, apenas os verbetes sobre a Mata Atlântica (floresta pluvial costeira) e o Cerrado trazem alguma informação sobre a perda da cobertura original, atribuída em 95% para a primeira e em 40% para o segundo, em grande parte devido à atividade agropastoril.
Ao aumento da área de cultivo, cada vez menos viável, são contrapostas outras possibilidades como o desenvolvimento de tecnologias mais produtivas, transferência de excedentes de safra entre países, recuperação de solos degradados e o uso mais racional, e eficiente das fontes de energia. Essas medidas são, porém, consideradas insuficientes para o tamanho do desafio: “Entretanto, isso não basta par preservar o ambiente terrestre a curto prazo. É preciso frear o crescimento da população humana por meio do planejamento familiar e do controle deliberado da natalidade” (AMABIS; MARTHO, 2013, v. 1, p. 100). Seguem alguns subtópicos que tratam de planejamento familiar e controle de natalidade:
Até década de 1970, em certos países considerava-se o controle de nascimentos uma tese racista, reacionária ou imperialista. Hoje, os cidadãos da maioria das nações consideram importante realizar o controle da natalidade e o planejamento familiar par manter a qualidade de vida da população (AMABIS; MARTHO, 2013, v.1, p. 100).
Os países desenvolvidos são citados como exemplo de políticas de controle do crescimento populacional bem-sucedidos, aos quais se acrescentam Tailândia, Colômbia e Costa Rica, que teriam chegado a taxas expressivas de redução de natalidade. Não há espaço no texto para argumentos e posições divergentes da proposta de planejamento familiar e de controle de natalidade, temas capazes de suscitar debates acirrados em países como o Brasil, por exemplo. Apresentando essa questão da forma com que faz, esta coleção pode levar o leitor à conclusão de que se trata de uma iniciativa dependente apenas de decisão política e de utilização dos recursos tecnológicos já disponíveis, mas essa seria uma visão simplista da realidade,
uma vez que a escola não está imune a influência de outros coletivos de pensamento de visão contrária.
Em outro subtópico, o controle do crescimento populacional é tratado como uma questão de ganhar tempo para que outras soluções sejam encontradas e/ou viabilizadas:
Embora os problemas da humanidade sejam decorrentes de vários fatores, imagina-se que, se o crescimento da população for freado, será possível ganhar tempo para resolver problemas como a fome, as desigualdades econômicas, a degradação ambiental e várias doenças, que seriam agravadas num quadro de superpopulação (AMABIS; MARTHO, 2013, v. 1, p. 100).
Os autores propõem que se ganhe tempo para buscar a solução para fome e desigualdades econômicas, mas a fome não é um problema que possa esperar o resultado de políticas de longo prazo. Políticas de combate à fome e a miséria têm que ser efetivas o mais imediatamente possível, e a experiência brasileira do início do século XXI mostrou que é possível reverter em curto espaço de tempo as consequências mais extremas desses dois fatores sobre a sociedade. Em resumo, uma política voltada para a redução do crescimento da população não será capaz de ganhar tempo para reverter os índices de fome e miséria a longo prazo, mas um conjunto de políticas integradas voltadas para a redução da fome e miséria, pode sustar em curto espaço de tempo os efeitos mais drásticos desses fatores sobre a sociedade que, aí sim, ganhará tempo para reestruturar-se em bases mais justas.
O capítulo A humanidade e o ambiente inicia afirmando que a humanidade agride a natureza e perguntando se, por isso, estaria a caminho da autodestruição. E responde:
Vamos aos fatos: nos últimos séculos, o desenvolvimento da sociedade industrial e o crescimento da população humana tem causado impactos ambientais sem precedentes. Eis algumas das principais ameaças ao planeta: poluição; aumento da temperatura global; destruição da camada de ozônio; esgotamento de fontes de energia e de outros recursos naturais; extinção de espécies. Isto se deve principalmente à explosão populacional humana e aos modelos vigentes de desenvolvimento industrial e tecnológico, implementados pelo progresso tecnológico (AMABIS; MARTHO, 2013, v. 1, p. 152). As ameaças apontadas são discutidas ao longo do texto em narrativas sistematizadoras e de maneira ilustrativa. Anteriormente a isso, o conceito de
desenvolvimento sustentável proposto pelo relatório Nosso Futuro Comum (Relatório Brundtland) é apresentado. O leitor é informado apenas que se trata do relatório de uma comissão que se reuniu em 1987 e que o conceito havia amadurecido ao longo das década de 1970: “Segundo a comissão, desenvolvimento sustentável é aquele que leva em conta as necessidades atuais da humanidade sem comprometer a capacidade das futuras gerações de obter o necessário à sua vida.” O texto dá uma redação própria à definição Relatório Brundtland que se expressa nos seguintes termos: “O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991, p. 46). Imediatamente, é oferecida uma segunda leitura da definição de 1987: “Em outras palavras, cada geração tem o compromisso de deixar para as gerações seguintes um ambiente equivalente ou melhor do que o recebido por seus antecessores. Esse deveria ser o princípio norteador das ações e atividades humanas em relação ao ambiente” (AMABIS; MARTHO, 2013, v. 1, p. 153).
Esse parece ser um exemplo de como o conceito de desenvolvimento sustentável circula, desde sua postulação original, por meio de um LD até chegar a alunos de primeiro ano colegial, mais de 25 anos após sua formulação. Não se trata aqui de considerar a exatidão conceitual, mas de constatar que há para um mesmo conceito diferentes definições, quando comparadas a versão original de 1987, as duas versões selecionadas como parâmetros para a discussão desta tese, e as definições dadas pela obra discutida. Trata-se de reconhecer que a partir de um determinado momento já não somos mais capazes de identificar quem formula uma determinada ideia, pois esta foi se modificando ao circular dentro e entre diferentes coletivos de pensamento (FLECK, 2010, 85). Não é possível precisar, por exemplo, o que os autores deste LD entendem por “deixar para as gerações seguintes um ambiente equivalente ou melhor do que o recebido por seus antecessores”, pois em nenhuma outra definição aqui considerada fala-se em melhoria do ambiente. Não é possível determinar o que serviria de parâmetro para considerar um ambiente melhor que outro em um dado momento, ou como seria possível promover esta melhora, mas é exatamente essa a mensagem desse LD.
Amabis e Martho seguem apresentando algumas possibilidades para o desenvolvimento sustentável, reportando-se a energias renováveis, recursos hídricos e à integração dos diversos setores da sociedade: governo, iniciativa privada,
instituições de ensino e pesquisa, mídia e a educadores e estudantes. Passam então a tratar de alguns princípios para uma sociedade sustentável e, para tanto, se utilizam dos princípios listados pelo PNUMA:
Apresentamos, a seguir, alguns dos princípios para uma sociedade sustentável segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Reflita sobre eles antes de iniciar a leitura do item seguinte (AMABIS; MARTHO, 2013, v. 1, p. 153).
Esses princípios não são trazidos para o LD em releitura, como foi feito para a definição de desenvolvimento sustentável, ou pela citação direta do PNUMA. O texto citado é aquele publicado pelos PCN – Temas Transversais para 5ª e 8ª séries em sua integralidade, exceto pela supressão do critério atribuído a cada princípio. Assim, o primeiro princípio aparece nos Temas Transversais como: “Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos (princípio fundamental). Trata-se de um princípio ético que “reflete o dever de nos preocuparmos com as outras pessoas e outras formas de vida, agora e no futuro”. (grifo no original); já na transcrição de Amabis e Martho lemos: “Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos [...]. Trata-se de um princípio ético que “reflete o dever de nos preocuparmos com as outras pessoas e outras formas de vida, agora e no futuro”. O mesmo se repete nos outros oito princípios, a manutenção integral de cada critério e de sua descrição, com a supressão do princípio correspondente. Se consideramos que princípios são mais abrangentes que critérios, a supressão daqueles faz com que o texto que circula nas escolas o faça sem os componentes mais gerais das formulações discutidas, e apenas com as mais específicas, ou seja, as ideias passaram a circular sem a parte que melhor permitiria que fossem aplicadas a situações não descrita, que pudessem ser generalizada (BRASIL, 1998c, p. 239-241; AMABIS; MARTHO, 2013, v. 1, p. 154).
Finalmente, em Alternativas para o futuro, há uma revisão dos principais eventos ligados à formação da consciência ambiental contemporânea, que são relacionados década a década, a partir de 1960. Esta revisão tanto pode servir de roteiro para a discussão em sala de aula como para orientar atividades de pesquisa.