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2 O LIVRO DIDÁTICO COMO POLÍTICA PÚBLICA E INSTRUMENTO DE DIFUSÃO

2.2 Sobre o PNLD 2015

2.2.4 PNLD 2015 e Direitos Humanos

Fica bastante evidente que questões relacionadas a direitos constitucionais foram privilegiadas no PNLD 201513. Tomando como referência a Resolução Nº 2 do Conselho Nacional de Educação (CNE) de 30 de janeiro de 2012, que define as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM), o Edital de Convocação 01/2013 – CGPLI resume os cinco itens do artigo 13 da Resolução da seguinte maneira (BRASIL, 2012, p. 4-5; BRASIL, 2013a, p. 39):

as dimensões do trabalho, da ciência, da tecnologia e da cultura como eixos integradores entre os conhecimentos de distintas naturezas; o trabalho como princípio educativo;

a pesquisa como princípio pedagógico;

13 A Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014, que criou o PNE com vigência de 2014 a 2024, determinou o prazo de um ano para que estados e municípios aprovassem seus respectivos planos. A discussão que se seguiu em todo o país foi fortemente pautada por grupos resistentes à inclusão das diretrizes nacionais para diversidade cultural e gênero nesses planos. Em 1º de setembro de 2015 o CNE publicou Nota Pública dirigida às “Assembleias Legislativas, à Câmara Legislativa do Distrital Federal, às Câmaras de Vereadores, aos Conselhos Estaduais, Distrital e Municipais de Educação e à Sociedade Brasileira” em que:

manifesta sua surpresa e preocupação com planos de educação que vêm sendo elaborados por entes federativos brasileiros e que têm omitido, deliberadamente, fundamentos, metodologias e procedimentos em relação ao trato das questões relativas à diversidade cultural e de gênero, já devidamente consagrados no corpus normativo do País para a construção da cidadania de segmentos específicos da população brasileira e sobre o qual não pode permanecer qualquer dúvida quanto à propriedade de seu tratamento no campo da educação

A nota reafirmava orientações anteriores e recomendava zelo “pela explicitação das singularidades mencionadas nos planos de educação” e considerava “que a ausência ou insuficiência de tratamento das referidas singularidades fazem com que os planos de educação que assim as trataram sejam tidos como incompletos e que, por isso, devem ser objeto de revisão.” (CNE, 2015).

os direitos humanos como princípio norteador;

a sustentabilidade socioambiental como meta universal. (BRASIL, 2012, pp 4-5).

Os dois editais e os dois guias compartilham um mesmo texto para tratar das questões de atitudes, posturas e valores como critérios de seleção, guardando entre eles diferenças apenas quanto a adequações ortográficas, e pelo fato de o PNLD 2012 colocar essas ideias de maneira afirmativa e o PNLD 2015 interrogativamente:

divulga conhecimentos biológicos para a formação de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos no contexto de seu pertencimento étnico-racial – descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – e de relações de gênero e sexualidade para interagirem na construção de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos e sua identidade valorizada. (BRASIL, 2009, p.38; BRASIL, 2011a, p.10; BRASIL, 2013a, p.64; BRASIL, 2014a, p.16).

Ao caracterizar as obras de Biologia o Guia de Livros Didáticos: PNLD 2015: Biologia: Ensino Médio refere-se diretamente aos direitos humanos e às relações étnico-raciais, sexualidade, corpo e relações de gênero, em dois subitens específicos. O texto reconhece como grande o apelo para a que se promova uma educação em biologia voltada para a conexão de saberes, com seu ensino tratando desde o âmbito local até o planetário e, de maneira articulada, com questões estruturantes da vida em sociedade. Especificamente, o Guia aponta como um dos desafios para o ensino de Biologia nas escolas promover a formação dos alunos em questões como:

a biodiversidade, as relações de gênero, as sexualidades, os corpos, as relações étnico-raciais, os direitos humanos e as culturas estejam conectadas aos conteúdos de biologia que têm sido ensinados nas escolas ao longo dos tempos (BRASIL, 2014a, p. 22).

Em seguida, o texto afirma que:

a presença destas temáticas é recente no Ensino de Biologia, sendo que professores e professoras têm o papel social e político de acompanhar a inserção das mesmas, desnaturalizando o silenciamento de temas e conteúdos considerados, contemporaneamente, imprescindíveis à educação para a diversidade, no currículo escolar e no contexto da escola (BRASIL, 2014a, p. 22).

Tratadas com destaque na formação dos alunos de ensino médio pelo PNLD 2015, juntamente com a temática biodiversidade, as questões étnico-raciais, de gênero e sexualidade e sua relação com a educação têm recebido atenção acadêmica tanto dentro como fora do contexto da produção e utilização do LD, levando a importantes contribuições e reflexões para o debate. Do ponto de vista deste trabalho, visa-se apenas identificar convergências presentes no PNLD no tratamento de questões ambientais, étnico-racial e gênero, dentro da perspectiva dos direitos humanos, ali proposta. Assim, ao discutir a representação étnico-racial e de gênero em fotografias nos livros do PNLD 2015, tem-se como objetivo estritamente investigar como essa questões, postas no PNLD, podem contribuir com a educação básica para formação cidadã, o entendimento e respeito de direitos e, do ponto de vista institucional e acadêmico, identificar as perspectivas de aprimoramento do LD com instrumento para esses fins.

Vale ainda ressaltar que, o fato de o PNLD reunir diferentes temas sob uma mesma perspectiva, a dos direitos humanos, não vincula uma pesquisa sobre um desses temas aos outros, e que é possível extrair um recorte especifico para análise, neste caso, a biodiversidade. Não é possível antever se e como tais questões estarão representadas nas discussões ambientais no LD brasileiro, mas estes são temas que têm recebido atenção da parte dos pesquisadores. Entender esses temas dentro do ideário dos direitos humanos exige atenção para questões, como as que aponta Reis da Silva (2014), pois mesmo sendo um valor ético em si mesmo, “as retóricas em seu favor correm sempre o risco de sair em defesa tanto de um relativismo de interesses dificilmente equacionáveis, quanto de uma universalização que anula a diversidade.” A autora enxerga, ainda, um paradoxo, entre “a proliferação de políticas e dos parâmetros legais que buscam preservar e dar garantias mínimas aos direitos humanos”, neste caso, a LDB, os PCN e a própria política do PNLD e suas diretrizes, “e, paralelamente, o aumento das práticas que violam e desrespeitam prerrogativas básicas de respeito à dignidade de todo ser humano independente de sua orientação sexual, condição de gênero, etnia, credo e classe social,” (REIS DA SILVA, 2014, p. 21-22). Trata-se de uma questão particularmente importante para a análise do LD na medida em que os alunos de educação básica de escolas públicas em todo o Brasil, púbico alvo majoritário do PNLD, são extremamente vulneráveis às violações de seus direitos básicos, e, mais que isso, são cidadão em formação, em fase de definição de valores e compromissos éticos e sociais.