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Fiquei em segundo plano enquanto Charlotte conversava com seu irmão e sua avó, mas nunca tirei meus olhos dela. O sorriso no seu rosto era o seu próprio pedaço do céu para mim. Ver o sorriso dela foi tudo que eu sempre quis.

Vovó nos alimentou com pão fresco e biscoitos caseiros, e relembrou o avô de Charlotte, que ainda estava vivo. Uma parte minha sentiu que deveria sair, mas então outra parte disse não para isso. Eu acabei de encontrá-la. Não iria deixá-la fora da minha vista.

— Você se lembra de eu me despedindo de você, Vovó? — Charlotte perguntou. — Você não abriu os olhos, mas juro que apertou minha mão.

— Eu ouvi você, doce. Cada palavra. Eu estava tão doente e tão cansada que não conseguia abrir os olhos.

Charlotte lamentou. — Eu sempre me perguntei sobre isso.

Vovó forçou um sorriso, os olhos dela brilhando. — E quando eu finalmente morri e meu espírito deixou meu corpo, vi todos vocês. — Ela olhou para trás e para frente entre Charlotte e Axel. — Eu vi minha família em pé em volta da minha cama e orei. Isso me deu tanta paz.

— Você foi capaz de se ver... e a nós... logo depois de morrer? — Charlotte perguntou, parecendo confusa.

Vovó assentiu. — Sim, brevemente.

— Huh, — Charlotte bufou. — Eu sei que Axel esteve no limbo por um curto período de tempo, mas ele tinha negócios inacabados. Assim que ele soubesse que eu ficaria bem, ele atravessou.

Vovó franziu a testa não entendendo onde ela queria chegar. — Qual é o problema, Charlotte Anne?

— Eu não vi meu corpo. Eu não consigo nem lembrar como eu morri, — ela disse, desnorteada.

— Sua memória vai voltar para você, — eu ofereci, na esperança de tranquilizá-la.

Charlotte olhou para mim. — Você se viu, seu corpo, depois de morrer?

Imagens passaram pela minha cabeça em um flash, mas não do meu corpo depois da minha morte. Eram lembranças da devastação que minha morte causou à minha família, quando fiquei impotente e vigiando. — Eu não vi meu corpo. Apenas todo o resto.

— Então vocês estiveram todos no limbo, pelo menos por um breve tempo, — ela confirmou, olhando para cada um de nós.

Ela estava obviamente perturbada com isso, mas eu não conseguia entender o por que. — Tenho certeza que você vai se lembrar em breve,

— eu reiterei quando ninguém mais falou.

Charlotte assentiu algumas vezes antes de tomar um gole do chá gelado. Suas feições estavam tensas, fazendo pouco para esconder a confusão que ela estava sentindo. Vovó, assim como Axel e eu, sentimos que Charlotte estava preocupada, e como Charlotte não estava articulando exatamente por que estava chateada, decidimos redirecionar a conversa.

— Bem, Charlotte amor, — Vovó suspirou. — Por que você e seu jovem aqui não vão passear. — Ela lançou um olhar consciente na minha direção. Acho que era óbvio que eu estava ansioso para ter Charlotte para mim mesmo por um tempo. Charlotte olhou para mim, os cantos de sua boca subindo quando nossos olhos se encontraram.

— Eu acho que eu gostaria disso Vovó, — Charlotte concordou. — Ike... você gostaria de me mostrar por aí?

— Eu vou levá-la onde você quiser, — eu disse a ela, o entusiasmo na minha voz difícil de perder.

— Bem, eu vou indo também, — anunciou Axel enquanto esfregava seu estômago. — Talvez possamos passar um tempo juntos depois, — não tão sutilmente sugeriu, seu olhar encontrou o meu antes de mudá-lo para Charmudá-lotte. Ele definitivamente queria estar com Charmudá-lotte sozinha, sem mim. Mensagem recebida, alta e clara.

Charlotte o abraçou e beijou sua bochecha. — Estou tão feliz em vê-lo.

Vovó me abraçou calorosamente e apertei a mão de Axel, depois Charlotte e eu saímos. Quando descemos o último degrau da varanda, a casa desapareceu. Parando, ela se virou e olhou de volta para a área vazia, um sorriso flutuando em seus lábios. — Você fez isso?

— Não, — eu ri. — É assim que as coisas são aqui. Quando você quer ir a algum lugar... você está lá, e quando você sai... some. — Eu balancei a cabeça. — Isso provavelmente não faz qualquer sentido.

Ela suspirou: — Isso é surreal.

— Você estar aqui é surreal.

Seu olhar suave fixou em mim antes que ela deslizasse sua mão delicada na minha e unisse nossos dedos. Eu olhei para as nossas mãos, felicidade surgindo através de mim. — Eu ainda não consigo...

— Eu sei, — ela interrompeu. — Eu ainda estou cambaleando um pouco.

Assentindo, apertei a mão dela gentilmente e começamos a andar.

— Me leve a algum lugar lindo. Algum lugar que você gosta.

— Há tantos lugares que eu amo aqui, mas você sabe que meu lugar favorito sempre será nosso lugar, Charlotte. Aquele último dia que passamos juntos lá… foi tudo.

Ela abaixou a cabeça como se estivesse pensando. — E aquilo foi apenas nós sonhando acordado, — ela meditou. Eu detectei o brilho de humor em seu tom. Ela estava flertando... sutilmente. Eu duvidava que ela percebesse que estava fazendo isso. No último dia em que estivemos juntos, passamos horas na água, fantasiando sobre a vida que teríamos compartilhado se pudéssemos... se eu ainda estivesse vivo quando nos conhecemos.

— Você esculpiu nossas iniciais na árvore.

Ela virou a cabeça para olhar para mim, uma expressão de surpresa feliz no rosto. — Você viu aquilo?

— Pouco antes de partir… antes de vir para cá. Você não tem ideia do que aquilo significou para mim.

Seus olhos se enchem de lágrimas. — Eu não tinha certeza se iria sobreviver, Ike, — ela admitiu. — Você partindo. Aquilo foi...

— Eu sei, menina. Eu sei.

Olhando para frente novamente, seus passos diminuíram quando sua boca se abriu ligeiramente. — Onde estamos?

O brilho do sol poente refletia em seus olhos enquanto ela olhava as montanhas. — Everest, — eu disse a ela.

Ela inalou uma respiração instável, o lábio inferior tremendo. — É lindo. — Ela soltou um soluço estrangulado antes de cobrir a boca com a mão. Seus olhos cheios de lágrimas encontraram os meus. — É difícil absorver tudo. Há muita beleza para absorver.

Eu me senti da mesma maneira quando cheguei. Eu tinha visto muitos lugares inspiradores em minha vida, mas nenhum deles chegava aos pés desse aqui, nesta parte; tudo era mais claro e mais nítido, as cores eram mais vibrantes. Todos os seus sentidos eram levados ao extremo. Você não estava apenas vendo montanhas, você estava experimentando-as. A magnitude de tudo era incrivelmente impressionante, mas de um jeito bom.

Enquanto Charlotte observava a paisagem, eu olhava para ela. Seu cabelo escuro estava ondulado, cobrindo os ombros e as costas, a luz do sol atingindo-o, tornando-o brilhante enquanto a leve brisa suavemente o afastava de seu rosto. Houve momentos em que estive preso no limbo, que questionei as coisas. Perguntei-me por que isso estava acontecendo comigo; perguntava-me se eu estava sendo punido por ter feito algo tão terrível que merecia ver minha família sofrer e não poder fazer nada para ajudá-los. Então Charlotte apareceu e eu senti a esperança; só para ter as perguntas voltarem quando me apaixonei por ela.

Mas agora, observando-a, sentindo sua mão na minha... nada disso importava. Eu finalmente alcancei. O Céu. Nós estávamos juntos. Todo o sofrimento que passei era apenas um nevoeiro nas minhas memórias.

— Vamos subir naquela rocha e sentar, — eu apontei. — Teremos uma visão melhor de lá.

Eu subi primeiro, em seguida, abaixei-me para ajudá-la a subir, mas assim que ela levantou a mão para pegar a minha, ela parou e tropeçou para trás, fechando os olhos com força.

— Você está bem? — Eu perguntei, inclinando-me para pular e ajudá-la.

Balançando a cabeça, ela levantou a mão para me impedir. — Estou bem. Algo pareceu esquisito por um segundo. Aquela mesma sensação que tive mais cedo. Como se algo estivesse me puxando.

— Tem certeza de que você está bem?

Ela respirou fundo e forçou um sorriso enquanto subia a rocha. — Sim, eu estou bem, — ela me assegurou. Quando nos sentamos, ela se aproximou e apoiou a cabeça no meu ombro. — Eu me sinto feliz.

Eu sorri fracamente. — Estou feliz, — eu disse a ela, descansando minha bochecha contra a cabeça dela.

— Mas também me sinto triste.

Meu coração apertou com suas palavras. Eu sabia que ela estava triste e eu sabia o porquê. George. Meu irmão. Marido dela. — Eu sei, menina, — eu murmurei.

— Eu me pergunto se ele está bem... — começou apreensiva, como se ela se sentisse mal por mencioná-lo.

— Não há problema em falar sobre ele, — eu disse enquanto as lembranças do meu irmão vieram à tona. — Ele está se portando bem, no entanto? Parece que quando penso nele... Eu sinto serenidade.

— Ele está bem, firme em sua recuperação. Eu não sei como... — ela parou, depois riu amargamente, — Deus sabe que ser casado comigo, com toda a minha loucura, levaria alguém a maus vícios. Mas ele tem sido forte... por nós dois. Eu não sei como teria continuado sem ele, — ela terminou trêmula, tristeza entrelaçando sua voz. Por mais que me doesse ouvir, eu entendia sua tristeza.

Deixando escapar um suspiro, eu disse: — Sinto muito, Charlotte. Parece que você nunca fica sem situações complicadas em se tratando de nós, homens McDermott. — Quando ela não respondeu, eu continuei, — Você teve que lidar com tanta coisa, Charlotte. Eu mal posso

imaginar... — Foi a minha vez de parar quando o peso de tudo girou em torno de nós.

Ela se mexeu, se aproximando de mim, aninhando a cabeça na curva do meu pescoço. Eu coloquei meu braço em volta dela, mas de repente não conseguia levantar meu braço. O que…? Meu corpo caiu para o lado enquanto inutilmente lutava para levantar. Merda. O que estava acontecendo comigo? Minha visão borrou quando uma onda de tontura me atingiu. Parecia que eu estava prestes a desmaiar. Mas isso era impossível - isso não acontecia deste lado.

— Ike? — A voz de Charlotte estava distante, embora eu ainda pudesse senti-la ao meu lado. Um momento depois, a minha força cedeu e meu corpo fez um som alto quando bateu no chão.

— Ike! — Charlotte engasgou. — O que está acontecendo?

Mesmo que eu fosse capaz de falar, não teria uma resposta. A tristeza caiu sobre mim, me puxando para a escuridão. Segundos depois, a voz de Charlotte desapareceu. Meu coração batia no meu peito, pânico que eu não sentia há muito tempo passando por mim. Porra, eu não sentia falta dessa sensação. Eu não estava inconsciente. Na verdade, eu estava muito acordado, ciente de que estava à deriva em câmera lenta, indefeso contra o que quer que estivesse me sugando em uma escuridão sombria. Eu não tinha escolha a não ser me deixar levar. A bile subiu pela minha garganta quando a náusea me consumiu.

Depois de um momento interminável, uma pontinha de luz começou a aparecer, a claridade repentina me fazendo apertar os olhos. Então bati em um chão, grunhindo com o impacto. Movendo-me desajeitadamente para me apoiar em meus cotovelos, meu corpo desprovido de força, me concentrei em respirar uniformemente enquanto esperava minha visão clarear. Minhas mãos foram as primeiras a se tornar reconhecíveis, depois um piso de madeira suja abaixo delas. Eu virei de lado, lutando para me sentar quando outra onda de náusea me atingiu. Eu vou vomitar. Que diabos? Eu estava morto. Eu não deveria estar me sentindo enjoado ou fraco, ou ter desmaiado.

— Eu posso ver vocês duas.

Eu reflexivamente chicoteei minha cabeça na direção da voz que ouvi, percebendo o erro tarde demais quando a náusea se intensificou. Eu pisquei rapidamente, puxando o ar pelo nariz enquanto lutava pelo controle. Essa tinha sido a voz de Charlotte?

Com algum esforço, consegui distinguir a silhueta de uma mulher ajoelhada. Concentrei toda a minha energia em ver quem era e estava certo. — Charlotte, — eu murmurei, estendendo a mão trêmula para ela.

Ela não vacilou. Sua atenção permaneceu focada em quem ela estava falando. Ela estava ajoelhada em um corredor em frente a uma porta, e de pé atrás dela estavam George e Sniper. Apesar do imenso desconforto, sorri.

— George. Sniper — gaguejei em direção a eles o melhor que pude, mas nenhum deles parecia me ouvir ou me ver.

— Sim, vocês duas, — disse Charlotte. — Há duas de vocês aqui.

Meu olhar disparou para Charlotte novamente, depois de volta para George e Sniper, um pavor doentio subindo pela minha espinha. Eles não sabiam que eu estava aqui.

Suor escorria na minha testa. — George! — Eu rugi novamente, mais alto, mas ele não vacilou. Eu bati meu punho no chão. — Sniper! Charlotte! Olhe para mim, droga! — Nada. Meu peito se apertou. Eles estavam bem ali na minha frente, como eles não poderiam me ouvir? Era como quando eu estava no limbo

— Simplesmente acalme-se, Ike, — eu disse em voz alta, sem me preocupar em manter os pensamentos na minha cabeça, já que claramente ninguém estava por perto para me ouvir falar comigo mesmo. Se fosse o limbo e eu tivesse sido puxado de volta, Charlotte seria capaz de me ver ou ouvir, então tinha que ser outra coisa. — Pense, Ike,

— eu rosnei quando bloqueei a náusea e consegui me aproximar. — Talvez se você puder tocá-los... — Eu ponderei em voz alta para mim mesmo.

Quando me aproximei dos três, o quarto em que Charlotte estava ajoelhada apareceu e vi duas jovens de pé praticamente em cima uma da

outra. Os seres vivos não podiam fazer isso, então eu sabia que elas tinham que ser espíritos.

Algo se moveu no canto de trás do corredor, chamando minha atenção para longe das imagens diante de mim. Havia uma mulher que eu nunca tinha visto antes me observando. Nenhum dos outros parecia notar sua presença. Ela era uma mulher atraente, apesar de seu delineador pesado, vestimenta estranha e estrutura esbelta.

— Você pode me ver? — Eu perguntei a ela.

Sua franja entrecortada deslizou para o lado quando ela inclinou a cabeça para olhar para mim com seus olhos de esmeralda.

Ah sim, ela definitivamente me vê.

Abri a boca para perguntar quem ela era, mas, ao contrário de como fui puxado para esse momento, de repente fui arrancado dele em alta velocidade.

— Ike? — Forcei meus olhos a abrir com a voz familiar. Vovó olhava para mim, preocupada vincando sua testa. Levei um momento para perceber que estava no sofá dela.

— Ele está acordado, — ela chamou por cima do ombro. Voltando sua atenção para mim, ela sorriu fracamente. — Você nos deu um susto,

— ela confessou. — Pobre Charlotte estava fora de si.

— Cara, — Axel bufou quando ele apareceu, afastando seu cabelo desgrenhado do rosto com um toque de sua mão, só para que caísse cair de volta para onde estava antes. — Onde você foi, cara?

Eu não sabia como responder a essa pergunta.

— Você me assustou, — disse Charlotte quando se sentou ao meu lado, soltando um suspiro pesado.

Eu limpei a rouquidão da minha voz o suficiente para me controlar,

— sinto muito. — Eu me movi para sentar, mas Vovó apertou meus ombros.

— Você deveria descansar, criança.

Náuseas agitaram meu estomago, mas eu não conseguia ficar parado. — Eu preciso me sentar, — eu insisti. — Eu preciso pensar.

Quando me movi para ficar em pé, Charlotte se levantou e pegou minhas mãos, me ajudando, segurando meus antebraços enquanto eu cambaleava um pouco. — Talvez você devesse deitar, Ike.

— Eu nunca vi ninguém aqui fazer isso, — observou Axel.

— Fazer o quê? — Charlotte perguntou.

— Desmaiar. Você já viu? — Perguntou ele a Vovó. Vovó olhou para mim e depois para baixo. Isso foi um não, mas ela não queria dizer isso e me alarmar, ou mais importante, a Charlotte.

Charlotte franziu a testa com um pequeno vinco se formando entre as sobrancelhas. — O que isso significa?

Querendo aliviar suas preocupações, eu a puxei contra mim, guiando sua cabeça para descansar no meu ombro. — Eu não sei, menina, — eu admiti. — Tudo o que importa é que acabou.

— Você tem certeza que está bem? — Ela murmurou contra o meu ombro.

— Charlotte... acho que tive um sonho com você, — confessei. Onde quer que eu tenha ido, sabia que Charlotte estava lá, mas os detalhes eram confusos. — Foi estranho. Você e George estavam lá. Sniper estava lá também, — eu vasculhei minha mente por mais, — e duas garotinhas que tenho certeza estavam mortas.

Charlotte se afastou de repente, seu olhar distante e desfocado enquanto a cor drenava de seu rosto. Eu apertei seus braços, com medo que ela desmaiasse. — Charlotte, o que há de errado?

— Você estava na Casa do Inferno, — ela disse distraidamente antes de cobrir a boca e sair do meu alcance.

— O quê? — Axel perguntou.

— Eu não estava lá, exatamente, — eu esclareci e acrescentei, — era mais como se eu estivesse assistindo, mas de dentro. — Frustrado, eu cocei a cabeça procurando uma maneira melhor de explicar, sabendo que não estava fazendo sentido algum. — Nenhum de vocês podia me ver.

— Como você pode ter sonhado com isso? — Ela perguntou, mais para si mesma do que para mim.

Eu respondi de qualquer maneira. — Eu não sei.

— O que é a Casa do Inferno? — Axel perguntou novamente, mais enfaticamente desta vez.

Charlotte se virou para nos encarar, sua expressão subitamente horrorizada. Seu corpo pareceu desabar sob ela, mas eu a peguei e a movi para sentar no sofá. O jeito que ela apertava meu braço era tão forte que os nós dos seus dedos ficaram brancos. Claramente abalada, ela finalmente encontrou cada um dos nossos olhares. — Eu lembro o que eu estava fazendo, — disse ela com cautela. — Eu me lembro do que estava fazendo quando morri.

Capítulo dezesseis