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O amor da minha vida estava em coma há dois dias. Quarenta e oito horas observando minha esposa imóvel em uma cama presa a máquinas. 2880 minutos de médicos me dizendo que Charlotte não acordaria. E ignorei esse prognóstico por 172.800 segundos. Eles estavam errados. Ela sairia disso. Ela tinha que sair.

Martin Kern tinha aparecido pouco depois do meu confronto com o pai de Charlotte no dia anterior, oferecendo ajuda de qualquer maneira que pudesse, e me senti mal por achá-lo um idiota, especialmente depois que ele hospedou nossas famílias em um dos apartamentos mobiliados da agência perto do hospital. Os pais de Charlotte e o meu estavam hospedados lá, e Sniper havia fechado o restaurante por alguns dias e chegaria esta tarde.

Eu estava sozinho com Charlotte e o quarto parecia estranhamente calmo, apesar do zumbido e dos bipes das máquinas mantendo-a viva. Tracey e Wayne tinham saído alguns minutos antes, depois de ficarem com Charlotte, enquanto eu saía para correr. Eu não queria me afastar de Charlotte, mas estava tenso e precisava de algo... qualquer coisa... para aliviar o estresse. Eu tinha acabado de voltar depois da minha corrida de doze quilômetros, e minha camiseta encharcada de suor grudava na minha pele enquanto eu olhava para ela, meus braços cruzados, frustração fazendo meus músculos enrijecerem. Ela não morreria. Isso não poderia acontecer.

Puxei o celular do bolso e cliquei no aplicativo que ela havia aberto antes de desmaiar. Eu encontrei o telefone embaixo dela enquanto os paramédicos a colocavam na maca. No caos da ambulância até o hospital e sala de emergência, eu tinha esquecido enquanto lidava com a papelada necessária e contatava nossos pais. Não foi até que estava sentado sozinho na sala de espera, tentando não enlouquecer, que me lembrei

disso e tirei do meu bolso, na esperança de encontrar uma pista sobre por que ela foi visitar Click sem mim. Quando abri a tela, o aplicativo do YouTube estava aberto em um vídeo de alguém tocando Fur Elise no piano, e isso vinha me incomodando desde então. Charlotte tocava piano quando coagida, mas não me lembrava de ela escutar composições.

Eu iniciei o vídeo, inclinando o alto-falante em direção à cabeceira da cama e estudei Charlotte por qualquer indicação de que ela estava ouvindo. Eu sabia que era um tiro no escuro, mas fiquei desanimado quando acabou e não houve nenhuma mudança nela. Eu coloquei o celular de volta no bolso antes de esfregar o rosto com as duas mãos. Todos tinham opiniões diferentes sobre o que, se alguma coisa, Charlotte poderia ouvir em sua condição, até mesmo os médicos e enfermeiros; Tudo o que sabia era que não doeria, e se houvesse uma chance de trazê-la de volta para mim, eu tentaria qualquer coisa.

— Eu me lembro da primeira vez que te vi, Charlotte, — eu lembrei em voz alta, minha voz soando estranha na sala vazia. — Você tinha todo aquele cabelo longo e seus olhos, baby... ufa... — Eu estremeci, esfregando a mão livre contra o meu peito em uma tentativa de aliviar a dor constante que tinha se instalado desde que ela havia se ferido. — Foram eles que me atraíram. — Senti um sorriso quando me lembrei dela sentada no banco junto ao bar, com a boca aberta, me encarando.

— O jeito que você me olhou naquela primeira vez, achei que tivesse se apaixonado pela minha boa aparência, — eu ri. Se ela estivesse acordada, levantaria uma sobrancelha e franziria os lábios para mim em resposta e sorri com o pensamento. Nós sempre tivemos as melhores brincadeiras. Eu amava irritá-la. Claro, ela tinha conseguido seu próprio tiro no meu ego quando eu soube que a sua reação era simplesmente porque ela não sabia que o irmão que concordara em ajudar era o gêmeo idêntico de Ike. Essa lembrança fez meu sorriso se alargar; Definitivamente era algo que meu irmão faria. Ele provavelmente deu boas risadas sobre isso. Meu sorriso não durou, porém, e a tristeza retornou com o bipe de uma máquina e retomou sua tarefa de

desmontar-me, lembrando-me que não havia como irritá-la porque ela estava em coma.

— Eu estava tão bagunçado naquele dia, mas quando dobrei a esquina e vi você... foi como se a neblina se abrisse um pouco e então...

lá estava você. — Eu sorri. — Todos lá também viram.

Pensei em uma pessoa em particular, me encolhendo com o olhar que eu sabia que Charlotte me daria se dissesse o nome dela. Misty. Suspirei com a lembrança da minha derradeira estupidez. Na maioria dos dias, parecia que isso tinha acontecido há uma vida, mas agora, com tudo o que aconteceu, parecia que nunca me libertara; que os últimos três anos foram apenas uma alucinação para escapar do pesadelo.

— Eu pensei que você fosse louca, — eu admiti, passando a mão pelo meu cabelo. — Quero dizer... você era... um pouco maluca.

Mais uma vez, eu poderia só imaginar o seu olhar, o jeito que seus olhos se estreitariam e a boca se contorceria. Deus, eu daria qualquer coisa para vê-la olhar para mim com seu jeito atrevido. Uma das coisas que eu mais amava em Charlotte, sobre nós, era como sempre encontramos uma maneira de rir da merda difícil. Ambos tínhamos nossa própria vergonha e segredos obscuros, mas não escondíamos um do outro. Nós os enfrentamos juntos, e até conseguimos rir dos erros que sempre estariam conosco, em vez de deixar que eles nos definissem.

— Com todo o drama e besteira, você nunca desistiu de mim. Nem uma vez. — Eu respirei fundo, antes de declarar: — Você não me deixou sozinho no escuro. Eu não vou deixar você também, querida. Eu preciso que você acorde, Charlotte. Por favor.

— Não pense que é tão simples assim, amor. — Eu saltei com a interrupção, virando a cabeça para a porta e para a fonte da voz inesperada. Uma mulher alta e esbelta de cabelos negros, usando calça jeans preta e camiseta branca apertada, estava encostada no batente da porta.

Marlena DuBois.

Eu limpei minha garganta, um pouco envergonhado por ela ter me ouvido implorar a minha esposa em coma para acordar. — Marlena, eu deveria ter ligado para você. Sinto muito, é que tem sido um pouco, — eu olhei para a cama do hospital, — agitado aqui.

— Kern me explicou, — ela balançou a cabeça com simpatia, em seguida, curvou a boca em um meio sorriso e encolheu os ombros: — Eu decidi que deveria vir de qualquer maneira.

Estreitando os olhos, examinei seu rosto numa tentativa de ler os pensamentos da médium psíquica. Ela viu alguma coisa?

— Não, — ela afirmou com firmeza. — Eu não vi nada.

Puta merda. Ela simplesmente...

— Não, — ela me cortou com um sorriso triste, conhecedor. — Seu rosto disse tudo. — Empurrando-se fora da moldura da porta, ela caminhou para o outro lado da cama, sua expressão irritantemente neutra enquanto ela olhava para Charlotte por vários momentos. — Conte-me sobre como isso aconteceu, — ela finalmente disse.

— Você não consegue ver isso? — Perguntei sem rodeios. A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia, mas imaginei que ela já soubesse, considerando seus dons.

Ela cortou seus olhos verdes para mim e explicou com paciência:

— Eu vejo muitas coisas, George, mas nem tudo de imediato, e sempre há mais para ser visto.

— Desculpe, eu não quis ofendê-la, Marlena. — Passei a mão pelo meu cabelo enquanto me repreendia. Ela estava aqui para ajudar, e eu precisava de toda a ajuda que pudesse conseguir. Eu soltei um suspiro e encontrei seu olhar sobre a cama, — Eu a encontrei inconsciente na parte inferior dos degraus. Eles acham que o aneurisma a fez desmaiar, e foi por isso que ela caiu da escada. Felizmente sem ossos quebrados.

Ela ficou quieta por um longo momento, sua expressão, não traindo nada enquanto estudava Charlotte. O simples vazio me lembrou dos guardas em frente ao Palácio de Buckingham, e me perguntei se era uma coisa britânica, ou se era por anos de prática não reagindo ao ver pessoas mortas.

Alguns momentos depois, ela recuou e se acomodou na cadeira que o pai de Charlotte aproximou da cama para ficar perto de sua esposa. — Me conte sobre a garota que você mencionou quando conversamos pelo Skype, George. Qualquer coisa que você saiba.

Eu pisquei em confusão. — A garota não importa agora. Minha esposa está em coma.

— Estou ciente.

— Minha esposa precisa de ajuda. Click pode esperar.

— Você me pediu para vir aqui ajudar sua esposa com a garota. É o que vou fazer.

— Sim, mas ela está em coma, — eu disse, me sentindo como um disco arranhado.

— O que significa que não há absolutamente nada que ela possa fazer para ajudar a garota agora, — Marlena fixou-me com o olhar, — mas eu posso, e por sua vez, ajudar Charlotte.

— Como ajudar Click com qualquer coisa ajudará, ou mudará o fato de Charlotte estar em coma?

— Tudo está conectado, George. Não apenas Click e sua esposa, mas tudo, — ela varreu a mão pelo quarto, — você, eu, as pessoas na rua abaixo de nós, estamos todos conectados, parte de um cenário muito maior, e tudo acontece por uma razão. Na verdade, não sei como; Eu só sei que vai. — Ela se inclinou e pegou minha mão, colocando-a na dela, forçando-me a encontrar seu olhar sincero. — Para esclarecer como, eu preciso que você me conte tudo o que aconteceu, desde o início, mas não apenas em palavras. — Ela fez uma breve pausa, seus olhos dilatando enquanto continuava: — Eu preciso que você reviva isso.

Eu me encolho com o pensamento do que ela está me pedindo para fazer. Inferno, eu nem tinha certeza se entendia o que ela quis dizer, mas meu instinto me dizia para confiar nessa mulher que cruzou um oceano inteiro só para ajudar minha esposa. Respirando profundamente, comecei a fazer o possível para conjurar todos os detalhes.

Charlotte estava agachada na porta do quarto onde Mary e Diana residiam, sua expressão vazia. Algo estava errado. Eu queria perguntar o

que estava acontecendo, mas me contive. Ela estava concentrada, e eu falar só a distrairia. Em vez disso, me preparei para qualquer coisa. Depois de um momento, Charlotte ficou de pé, com a mão no estômago. Merda. Ela estava doente?

— O que é Charlotte? — Eu perguntei, incapaz de esconder a preocupação na minha voz.

Ela apertou meu braço me tranquilizando, segurando o meu olhar por alguns momentos antes de virar para enfrentar um espaço vazio no corredor. — Você as atraiu até aqui para ele? — Charlotte perguntou ao espaço vazio com raiva mal contida.

Marlena puxou sua mão da minha, me afastando da memória. — Eu fiz alguma coisa errada? — Eu perguntei, incerto se estava revivendo isso como ela pediu. Eu sabia que estava descrevendo, mas realmente não havia palavras capazes de transmitir as emoções que eu sentia.

Ela segurou seu estômago como se estivesse se sentindo mal, mas sacudiu a cabeça enquanto olhava para Charlotte. — Não. Você está indo bem, George. Eu só preciso de um momento para organizar tudo o que estou vendo.

— Você está bem?

Ela inalou profundamente. — Náusea, — ela explicou com uma risada sem humor. — Um divertido pequeno efeito colateral dos meus dons.

Eu fiz uma careta. Isso parecia uma porcaria.

— Você está vendo alguma coisa? — Eu engoli o nó de derrota se formando na minha garganta.

— Estou vendo uma situação extremamente complicada, — disse ela com cuidado. Voltando-se para mim, ela estendeu a mão, palma para cima, convidando-me a colocar a minha novamente. — Vamos continuar... se você puder.

Eu detestava pensar no dia em que entramos naquele buraco, mas se ajudasse Marlena a descobrir como ajudar minha esposa, reviveria mil vezes. Colocando minha mão na dela, fechei os olhos e continuei

“revivendo” o dia em que entramos na Casa do Inferno.

Capítulo quatorze