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Capítulo vinte e seis Ike

— Quem é o garoto? — Perguntou Axel, projetando o queixo na direção da margem. Charlotte estava ajoelhada na frente do garotinho que tínhamos visto perto do penhasco. Novamente? Por que esse garoto continuava aparecendo? Eles estavam longe demais para que pudéssemos ouvi-los, mas ele parecia estar interagindo com ela um pouco mais do que nas vezes anteriores. Tão abruptamente quanto antes, a troca terminou quando ele desapareceu. Ela olhou para o lugar onde ele tinha acabado de estar de pé, as sobrancelhas estreitas em confusão.

— Você não o reconhece de qualquer lugar? — Perguntei a Axel sem tirar os olhos de Charlotte.

— Nunca o vi, — respondeu Axel.

— Nós o vimos com os guias turísticos e depois ele apareceu para nós em outro momento. É estranho que ele continue aparecendo.

— O garoto provavelmente aprendeu a se transportar antes que os guias explicassem tudo a ele. Talvez ele esteja apenas confuso sobre para onde deveria ir.

Eu balancei a cabeça em concordância, sem teorias melhores. Nenhuma outra razão fazia sentido.

Eventualmente, Charlotte se levantou e se virou para nós, levantando as mãos e encolhendo os ombros quando percebeu que a estávamos observando. — Eu vou verificar Vovó, — ela gritou e acenou.

— Nós estaremos lá em breve! — Axel gritou de volta.

Ela se transportou, e achei que ela tinha ido embora, mas um segundo depois ela apareceu na nossa frente, de olhos arregalados e braços erguidos, gritando: — Boo!

Completamente surpreso, Axel perdeu o equilíbrio e caiu de bunda no rio. — Filha da puta! — Ele grunhiu enquanto esguichava água tentando recuperar o equilíbrio.

Eu fiz o melhor para não rir muito, embora fosse difícil, enquanto Charlotte rugia sem pedir desculpas. — Eu sinto muito, mas tive que fazer, — ela engasgou sem fôlego quando estendeu a mão para ajudá-lo.

Axel aceitou, mas em vez de permitir que ela o puxasse, ele puxou seu braço, levando-a para a água e completamente sob a superfície. Ela emergiu, o cabelo cobrindo o rosto, tossindo e cuspindo, mas soltou um “idiota” fraco entre os ataques. Ele bateu forte nas costas dela. — Ponha pra fora, mulher, — ele zombou.

Charlotte sentou, ainda tossindo enquanto afastava o cabelo do rosto e olhou mortalmente para seu irmão.

— Você começou isso, — Axel lembrou, sua voz sem qualquer resquício de remorso enquanto continuava a acariciar suas costas.

— Eu só queria assustá-lo, — argumentou Charlotte calmamente, sua voz ainda rouca da tosse. — Você simplesmente tentou me afogar. — Seus olhos se encontraram e eles começaram a rir, brincando de bater um no outro, fingindo lutar.

Finalmente, Axel suspirou dramaticamente e se levantou. — Agora eu tenho que ir me trocar, — ele reclamou antes de desaparecer.

Sua dinâmica de irmãos era incrivelmente divertida. Eles estavam constantemente mexendo um com o outro, mas sempre com carinho e amor. Vendo isso me fez sentir falta dos meus irmãos mais do que nunca. — Vocês dois são loucos, — eu ri.

— Eu sei, — ela concordou. — Você nunca teve travessuras entre irmãos com George e Cameron?

— Sim, eu acho. Nós na maioria das vezes apenas pegávamos no pé um ao outro e nos socávamos.

Ela torceu a boca. — Eu posso ver totalmente vocês três fazendo isso. — Estendendo a mão, ela perguntou em um falso sotaque do sul, — Você seria um cavalheiro e ajudaria uma pobre donzela, gentil senhor?

— Seu sotaque sulista é terrível, Charlotte, — eu lhe informei.

Ela bateu os cílios e fingiu mascar um chiclete. — Então, ah, você poderia, ajudar uma dama, pois não... — ela disse, fingindo o que poderia

ser um sotaque do Brooklyn ou Jersey, mas era tão horrível que não tinha certeza.

— Por favor, pare antes de se machucar, — eu ri.

— Você está com inveja das minhas habilidades de imitação excepcionais.

— Sim, é isso, — eu respondi secamente quando a levantei. Meus olhos focados nela quando ela alisou o cabelo de seu rosto novamente. A água permanecia em sua pele, refletindo a luz do sol nas gotas enquanto brilhava em sua pele. O tecido de sua camisa se agarrava a ela, acentuando cada curva perfeita de seu corpo. Ela parecia ter acabado de sair de uma das revistas da Playboy que eu mantinha escondida no meu quarto quando era adolescente. Minha mente voltou para a nossa noite juntos, a quantidade imensurável de tempo que passamos explorando um ao outro, enquanto eu traçava cada curva dela com minhas mãos, minha boca e meu próprio corpo.

Com um grande sorriso, ela encontrou meu olhar, seus olhos brilhando de alegria, e não tentei esconder meu desejo. Porra, ela era linda. Ainda mais quando o tom suave de rosa cobria suas bochechas quando ela viu o calor em meus olhos.

Enquanto ela segurava meu olhar, a necessidade de uma repetição da nossa noite no penhasco aumentou. A sensação de seus dedos delicados subindo pelo meu peito, sua boca perfeita subitamente curvada em um sorriso travesso. A curva suave de seu quadril enquanto minha mão acariciava. A pele macia no interior de suas coxas. Seu cabelo cobrindo seus ombros, cortinando seus seios. Ela era como arte; uma escultura viva, respirando, em movimento, que acariciava todos os meus sentidos.

— Oh, amor jovem, — Axel zombou em uma voz cantada, reaparecendo, interrompendo o nosso momento.

— Bem, vocês dois se divirtam, — disse Charlotte, ignorando-o. — Eu os verei daqui a pouco. — Com um último olhar e um sorriso de conhecimento, ela desapareceu.

Axel congelou no lugar, preparando-se para outro ataque surpresa. Eu ri: — Acho que ela realmente foi embora dessa vez.

Relaxando, ele deu alguns passos até estar ao meu lado. — Então você realmente faz isso por diversão? — Ele perguntou, seu tom provocante enquanto apontava para o equipamento de pesca ao nosso redor.

Eu ajustei minha vara e sorri. — Alguns dos melhores momentos da minha vida foram em um rio com meu pai e irmão. Eu aprendi muito na água.

— Oh sim? Tipo o quê?

— Bem, há o óbvio, — comecei. — Aquela história “dê um peixe a um homem e ele come por um dia; ensine um homem a pescar, e ele comerá todos os seus dias” era uma das frases favoritas do meu pai. Eu devo tê-lo ouvido nos dizer isso mil vezes.

Axel assentiu. — Eu gosto disso.

— Ele era o melhor homem que eu conhecia. Ele se orgulhava de seu trabalho e família, e superficialmente não parecia ser muito mais do que isso, mas na água com uma vara em suas mãos, George e eu conseguimos ver um lado dele que ele mantinha escondido da vista da minha mãe, ou de qualquer outra pessoa, na verdade. Tomei minha primeira cerveja enquanto pescava com meu velho. — Eu dobrei meu pulso e observei a linha dançar sobre a água antes de puxá-la de volta. — Ele nos contava histórias sobre perseguir mulheres antes de conhecer minha mãe, e como depois que a conheceu, nenhuma outra mulher serviria.

— Ele te deu a conversa sobre sexo aqui também?

Eu me virei para olhar para Axel, contorcendo meu rosto em uma das expressões clássicas do meu pai, e na minha melhor imitação de sua voz disse: — Rapazes, sexo é uma coisa linda. Ter filhos é uma coisa linda. Mas se você for pego no calor do momento com uma garota, e pensar que uma vez sem camisinha não vai te deixar em apuros, lembre-se disso: lembre-sexo leva a bebês, e bebês levam a menos lembre-sexo. Protejam-lembre-se sempre, ouviram?

Axel engasgou com uma risada. — Parece que ele era um cara muito legal.

Eu balancei a cabeça e olhei para o rio. Lembrar meu pai me fez sentir falta dele, mas eu sabia que o veria de novo algum dia. Até então, as lembranças e o amor que ele me deu, me mantinha contente. Eu tive sorte por ter tido um pai como ele.

Quando voltei, Axel estava segurando duas cervejas. — Eu posso não ser bom neste show de pesca, mas cerveja... bem, eu era um mestre em bebê-la. — Ele me entregou uma garrafa e disse: — Ao seu pai.

Peguei a cerveja oferecida, tilintando em um brinde antes de tomar alguns goles. Quando terminamos, Axel olhou para sua bebida, sua boca apertada. Não era difícil dizer que ele tinha algo em mente e estava tentando decidir se queria falar sobre isso comigo. Eu não tinha dúvida que tinha a ver com Charlotte. Voltei meu olhar para a água, contente em deixar o silêncio continuar até que ele estivesse pronto.

Depois de vários momentos, ele finalmente falou: — Ela sempre foi um pouco diferente, sabe?

— Ela era?

Ele bebeu sua cerveja. — Bonita. Agradável. Gostava de todos, mas de alguma forma nunca pareceu se encaixar.

Eu inclinei minha cabeça. — O que você quer dizer?

— Como se ela soubesse como se encaixar, mas ela simplesmente não conseguisse. Na verdade não.

Bebi minha própria cerveja enquanto trabalhava para entender o que ele estava fazendo.

— Pelo que ela diz, ela descobriu isso na sua cidade, por sua causa. Ela encontrou um lugar para se encaixar.

— Gostaria de pensar que foi tudo eu que fiz, mas minha cidade…

as pessoas lá são simplesmente boas pessoas. A maioria de qualquer maneira, — acrescentei. A população de Warm Springs era pequena, mas o que faltava em números compensava em coração, e a maioria era de pessoas honestas perante Deus. — Honestamente, foi Charlotte. Há algo sobre ela que atrai as pessoas. Ela foi quem as conquistou. Tudo o que

eu realmente fiz foi impedir uma garota de pular de uma ponte e apontá-la na direção certa.

Ele ergueu o queixo, piscando os olhos interrogativamente. — Pular de uma ponte?

Eu mentalmente me repreendi por esquecer que Charlotte tinha deixado de fora essa parte quando explicou como nos conhecemos, porque tinha vergonha e não queria que seu irmão a achasse fraca. Era uma parte do passado dela, da vida dela, que compreensivelmente não queria lembrar.

Suspirei, sabendo que não poderia colocar o proverbial gato de volta no saco. — Ela ia se matar. Foi por mero acaso que apareci na ponte naquela noite.

Ele passou a mão pelo rosto e suspirou: — Ela estava tão ruim assim, hein?

Imagens de Charlotte, encharcada e vestindo uma jaqueta enorme que estava emplastrada em seu corpo, cabelos molhados e lábios azuis trêmulos, passaram pela minha cabeça. — Ela estava no seu limite, — eu admiti. — Eu não gosto de lembrar o jeito que a encontrei naquela noite.

— Ela... parece bem para você? Agora, eu quero dizer. — Axel abordou.

Eu torci minha boca em pensamento. Antes da minha visita a Marlena, eu teria dito sim, mas agora, sabendo o que sabia, os momentos que achei que ela só estivesse perdida em pensamentos, agora pareciam ser um efeito colateral de ela estar deste lado enquanto ainda estava tecnicamente viva. E embora ela mesma não soubesse disso, talvez, de algum modo, em um nível subconsciente, soubesse que algo não estava certo.

— Eu acho que sim, — eu finalmente respondi, internamente me encolhendo por quão facilmente a mentira havia saído. — Por quê?

— Eu não sei. Estamos todos tristes logo que chegamos, mas eventualmente… nos acomodamos. Você vem a entender que as pessoas

que sente falta estarão aqui com você em algum momento. Mas Charlotte parece... ansiosa. Ela não encontrou essa calma ainda.

Eu mascarei minha crescente ansiedade em Axel dançando tão perto da verdade. Eu não podia deixá-lo pensar que sabia alguma coisa. Eu não estava pronto para arriscar perdê-la, contando a verdade a alguém. — Eu não sei, Axel. Charlotte é diferente. Talvez para alguns de nós demore um pouco mais.

— Talvez, — ele supôs e deixou morrer o assunto, passando a planejar um peixe assado com qualquer coisa que pegássemos. Eu fiz os comentários esperados enquanto ele planejava, mas minha mente estava agitada indefinidamente sobre o que fazer, quando contar a ela. Marlena poderia me puxar de volta a qualquer momento, esperando ter respostas sobre como ajudar Click, e embora eu soubesse que deveria estar mais preocupado com isso, não conseguiria fazê-lo. Pela primeira vez na minha vida, meu lado egoísta estava no controle, e eu não tinha nenhuma intenção imediata de colocar em movimento qualquer coisa que pudesse tirar Charlotte de mim.

Capítulo vinte e sete