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Características gerais dos casos atendidos

CAPÍTULO 4: O COTIDIANO DOS ATENDIMENTOS

4.1. Sobre os atendimentos realizados

4.1.2. Características gerais dos casos atendidos

 Adolescentes não inseridos para o acompanhamento no CAPS e encaminhados para a Rede. Em 2016, em 20% dos casos de adolescentes que realizaram o primeiro atendimento devido a questões relacionadas ao uso de drogas, foi avaliado pela equipe que a relação estabelecida entre o adolescente e a droga não havia configurado prejuízos que justificassem a inserção no CAPS. Entretanto, foram encaminhados para outros serviços como UBS e CCA.

Em relação aos encaminhamentos realizados para a rede, não há descrição se o acompanhamento foi matriciado ou discutido com o equipamento de destino. Neste contexto levanta-se a possibilidade do adolescente não ter sido “recebido” pelo serviço ao qual foi encaminhado, acarretando a não continuidade da intervenção iniciada pelo CAPS, o que aumenta a possibilidade da piora nos aspectos psicossociais da demanda apresentada, com inúmeras e diferentes consequências para o usuário e sua rede de apoio.

 Internação em Comunidade Terapêutica / Clínica de recuperação. Totalizaram 5% dos acompanhamentos os usuários que passaram por estas instituições. Um destes, a mãe informou por telefone que o filho foi internado em uma clínica de recuperação e não foi dada continuidade ao acompanhamento. Outro adolescente era egresso de uma internação e não aderiu ao CAPS, assim como também não há registro da evolução do acompanhamento. Junto a esta informação não está apontada no prontuário qualquer problematização do CAPS IJ em relação à situação dos adolescentes. Observamos também ausência da informação se a internação ocorreu de forma voluntária, involuntária ou compulsória, assim como qual seria a expectativa da família em relação ao cuidado após o período de internação.

Informações mais detalhadas sobre os locais das internações também não constam dos registros dos prontuários. Por exemplo, não sabemos se os espaços pelos quais estes adolescentes passaram cumprem os requisitos previstos nas normativas do Ministério da Saúde, se possuem autorização legal para a prestação do serviço e são fiscalizados pelos órgãos competentes; assim como se a internação destes adolescentes foi realizada legalmente, com autorizações médica e/ou judicial. Tais características impactam diretamente no cuidado que estas instituições oferecem. Também não há informações sobre o atendimento realizado.

 Quadro depressivo associado ao uso abusivo de drogas. Dois adolescentes acompanhados no serviço, representando 5% da demanda total, apresentavam um quadro depressivo que posteriormente se somou ao uso de drogas. Em ambos os casos houve a adesão do adolescente aos grupos terapêuticos e a família se apresentou como importante apoio no cuidado ofertado.

Tal característica do usuário, quadro depressivo, aponta uma relação peculiar com o uso da droga, como uma consequência de uma questão que demandava prioridade no cuidado: a depressão. Trata-se de uma especificidade que deve ser considerada e que se sobrepõe ao uso da droga em si.

Neste contexto uma característica que se fez potente no cuidado construído foi a rede de suporte familiar que pode, junto com o adolescente, compreender o que estava acontecendo e construir possibilidades de cuidado para além das estratégias ofertadas pelo CAPS.

 Uso de drogas, sintomas psicóticos e vulnerabilidade social. Este cenário totalizou no CAPS IJ o percentual de 12% dos usuários atendidos. Adolescentes, inseridos no acompanhamento, com um quadro de desorganização psíquica, associada ao uso de drogas e com a característica de importante fragilidade no vínculo familiar. Situações em que a família aponta como queixa o uso de drogas, porém no decorrer dos atendimentos a equipe constrói uma percepção de que o histórico de relações fragilizadas, situações de violência, são anteriores ao uso de drogas e necessitam também de cuidados. Outra característica importante é a mãe como a única ou a principal cuidadora e com considerável fragilidade em ofertar um contorno ao filho. Também têm como características não estarem inseridos na escola e terem estabelecido alguma relação com a criminalidade (seja pelo tráfico de drogas ou roubos/furtos). Nestes acompanhamentos observamos articulações com os serviços da rede intersetorial (CRAS, SPTrans, CIEJA e UBS).

Cenários como estes indicam as seguintes necessidades:

I. Investimento considerável da equipe (desde tempo cronológico até a disponibilidade) para a construção da compreensão do fenômeno apontado e,

consequentemente e simultaneamente, a construção de ações efetivas para o cuidado, levando em consideração articulações com a Rede;

II. Levar em consideração as singularidades do usuário e sua rede familiar para a construção de um manejo dentro destas especificidades e demandas, ofertando espaços de cuidado para os familiares inseridos no convívio com o adolescente.

III. Contrariar a lógica de um PTS “adaptado” para o leque de possibilidades terapêuticas ofertadas pela instituição e propor acordos e combinados que vão ao encontro das demandas trazidas pelo usuário e família em uma construção de um Projeto Terapêutico Singular aparentemente simples e de curto prazo, com o usuário e família, com o objetivo de construir uma percepção de que as metas estabelecidas podem ser alcançadas e revisadas constantemente;

 Alta por abandono. Presente em dois acompanhamentos, representando 5%. Um usuário com o histórico de uso abusivo de drogas, tentativas de suicídio, hipótese de violência doméstica e família com envolvimento no tráfico de drogas. No outro caso, a família relata a mudança de território para que o filho “não ande com más companhias” e também não dá continuidade ao cuidado. Em ambos a família se muda, não atualiza os dados cadastrais e não atende o contato telefônico.

A avaliação feita aponta como explicação o desejo da família pela não continuidade do acompanhamento. Em relação ao primeiro acompanhamento citado, a mudança da residência apresenta-se como um receio de expor a informação de que a família tinha também envolvimento com criminalidade. A segunda situação é compreendida como a mudança do território sendo considerado pelos familiares suficiente para a superação da relação do adolescente com as drogas, “não está mais andando com as más companhias”.

Cenários como este apontam também as dificuldades de intervenção do CAPS que é atravessada pelas organizações familiares que não compreenderam a amplitude do atendimento e, consequentemente, por intermédio da leitura que possuem sobre o fenômeno do uso de drogas não apoiam as tentativas de intervenções construídas pelo serviço. Isso traz como uma importante demanda a necessidade dos serviços construírem um diálogo com as famílias em que possam trocar, de forma autêntica, suas percepções sobre o fenômeno e as formas de cuidado.

B) CAPS AD

 Adolescentes não inseridos para o acompanhamento. Em 4% dos casos atendidos houve a avaliação de que a relação estabelecida com a droga não apresentava prejuízos para os adolescentes que justificasse a inserção no CAPS. Houve uma compreensão de que a demanda trazida poderia ser atendida pela Atenção Básica e o usuário foi encaminhado para a Unidade Básica de Saúde; entretanto, não há registro da evolução na ficha de acolhimento, se o acompanhamento foi recebido pela UBS e se foi dada continuidade ao cuidado.

Mesmo considerando que o encaminhamento para a UBS foi feito por escrito, questionamos se este procedimento é o suficiente para que o usuário seja acolhido adequadamente para o cuidado da sua demanda. Observamos no cotidiano das UBS, de forma geral, poucos ou inexistentes espaços para o atendimento de adolescentes com diferentes demandas; quando se acrescenta a demanda do uso de álcool e outras drogas, a possibilidade de um acolhimento torna-se mais restrita. Nesse sentido, percebe-se a importância de haver discussões contínuas na UBS sobre o atendimento de adolescentes. Isso deve ser articulado às diretrizes da política de saúde mental, por um lado e, juntamente, deve ser considerada a perspectiva da Redução de Danos dentro do contexto da Atenção Básica.

 Internação em Comunidade Terapêutica / Clínica de recuperação. Três adolescentes acolhidos pelo CAPS AD (11% dos casos) tiveram passagem por clínicas de recuperação ou comunidade terapêuticas, conforme registro no prontuário. Em um dos casos, a mãe refere que o adolescente sofreu agressão física por parte da instituição e que ela o retirou de lá. Em outro, o adolescente refere ter fugido da instituição. Em relação ao terceiro caso, o CAPS, ao saber pela família que o adolescente estava internado em uma clínica, realiza o fechamento do prontuário com a alta do usuário.

Os registros nos prontuários não trazem possíveis reflexões sobre a escolha realizada pela família, pela internação do adolescente. Sabemos que o que está no prontuário não diz de tudo que se pensou ou fez em relação aos casos, entretanto, há uma preocupação do posicionamento do CAPS perante esta demanda. Sabemos que os atendimentos ofertados pelas comunidades e clínicas terapêuticas, são marcados pela Abstinência, por uma perspectiva manicomial e, muitas vezes, por diversas situações de violação de direitos. Podemos supor que eventuais reflexões a respeito da internação dos adolescentes nestes estabelecimentos não necessariamente estariam registradas nos

prontuários. Entretanto, o que chama atenção é que os procedimentos adotados nesses casos parecem desconsiderar essa complexa questão, chegando, em um dos casos, a simplesmente se encerrar o atendimento.

 Uso de droga e tentativa de suicídio. Esteve presente em um único acompanhamento realizado, o de um adolescente que iniciou o acompanhamento por demandas relativas ao uso de drogas e histórico de tentativa de suicídio. A família e o usuário não retornaram ao serviço para continuidade do acompanhamento e não há descrição de busca ativa realizada pela equipe do CAPS.

Observamos o desafio de construir espaços para problematizar esta demanda e construir ações que possibilitem o enfretamento desta problemática com continuidade.