PARTE II: ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS
Capítulo 3: Trabalho no terreno
3.4. As crianças na Casa Magone
3.4.2. Casa Margarida e Casa Magone: juntos e separados
Ficou claro que há dois grupos diferentes na casa Magone, mas grupos que também estão inerentemente ligados, não só por causa do convívio no centro mas também devido ao seu contexto social e histórico, pois as crianças da casa Margarida viveram também uma vida nas ruas. O facto de haver pouca distância entre os grupos torna-se visível no comportamento das crianças. As crianças dos dois grupos usam a mesma cultura infantil com as mesmas expressões culturais e quando mostram estas expressões não fazem diferença na participação. Pelo contrário, todas as crianças podem participar sem ter que perguntar se podem participar. Um outro comportamento que mostra a ligação é o facto de as crianças da casa Magone poderem, em resultado do bom comportamento, e de acordo com os educadores, mudar para a casa Margarida onde podem começar a ir à escola, mas o contrário também é possível. As crianças da casa Margarida, de vez em quando, abandonam o centro e voltam para a vida na rua, e de repente voltam no grupo da casa Magone ou desaparecem (por um tempo). Isto torna visível a pouca distância que existe entre os grupos.
Por causa desta curta distância o próprio centro faz uma separação destes grupos para mostrar que há, com certeza, grande diferença e as próprias crianças também procuram aspectos em que os dois grupos podem mostrar que têm uma identidade própria. Primeiro quero concentrar-me na separação dos grupos que está visível através do tratamento no centro.
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Através do esquema diário podemos ver algumas diferenças, a maior delas está no facto de que as crianças da casa Magone só podem entrar no centro ao fim da tarde e têm que sair de manha. As crianças da casa Margarida têm que ficar no centro e, a partir daí, também têm acesso a comida e bebida durante todo o dia.
As crianças da casa Magone residem durante o dia nas ruas e não tem acesso à educação, ao contrário as crianças da Margarida que frequentam uma escola e a maior parte já consegue ler ou está na iniciação da alfabetização. A maior parte das crianças da casa Magone não conseguem ler nem escrever, havendo algumas excepções.
No centro há lugares diferentes para as crianças dos diferentes grupos, diferentes mesas enquanto tomam o pequeno-almoço e jantar, e salas diferentes para dormir.
Afinal também há certas actividades para as crianças da Magone e da Margarida. O grupo da Magone recebe aulas da alfabetização e aulas socioeducativas com o propósito de as ajudar a abandonar a vida de rua.
Estas diferenças visíveis em todas as crianças que visitam ou vivem no centro têm certas consequências nos contactos que os grupos mantêm uns com os outros. A primeira diferença, estar na rua ou no centro, é a maior diferença com grandes consequências. As crianças da Magone tem a oportunidade para trabalhar durante o dia e pois ganhar dinheiro, com este dinheiro tem a oportunidade para comprar o que é que querem, roupas, sapatos, música e comida são atributos com importância. Porém as crianças da Margarida que frequentam uma escola não tem a oportunidade para trabalhar e ganhar dinheiro e não podem comprar o que quiserem. Isto gera uma tensão entre eles porque antigamente também poderiam, o facto que as crianças da Magone várias vezes entram o centro com novas coisas é uma confrontação para crianças da Margarida. Este diferença se expressa num frase de kuduro que foi cantada por uma criança da Magone.
Canção 20-12-2010: Cantada pelo Daan
“…Magone é que compra, Margarita é quem rouba, Magone é que compra, Margarita é quem rouba, o Seba! Magone é que compra, Margarita é quem rouba, Magone é que compra, Margarita é quem rouba..”
Nota: uma frase cantada no ritmo de kuduro.
Esta é uma frase que a própria criança (cantor) repetiu várias vezes no centro e com ela as crianças da Magone sugeriram que as crianças da Margarida roubam os pertences que as crianças da casa Magone compram durante o dia.
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Uma consequência da diferença da literacia é o facto que as crianças que não podem ler nem escrever pedem ajuda às crianças que conseguem ler e escrever, pois elas sabem exactamente quem são as que podem ler e escrever e quem não pode.
Um momento complicado é quando uma criança muda de grupo, normalmente são as próprias crianças que decidem, mas mesmo assim vimos que a mudança leva algum tempo para ser aceite. Crianças que mudam da casa Magone para a casa Margarida ficam orgulhosas mas também sentem falta do próprio ritmo diário e do próprio grupo, por isso se encontram numa crise de identidade de grupo. Querem mostrar que agora são superiores às crianças da casa Magone mas fazem isto duma maneira com a qual ainda não se sentem confortáveis. Assim, encontrei o Cees sentado no centro enquanto as outras crianças estavam a jogar futebol. Eu sabia que ele gosta muito de futebol e não percebi porque é que ele não estava a jogar.
Notas de campo: 16-02-2011
“…Quando voltei ao centro vi o Cees no dormitório. Perguntei-lhe se não ia jogar. Ele disse que não e parecia triste, sentou-se cabisbaixo. Depois perguntei-lhe se ele agora faz parte da casa Margarida e ele disse que sim. Também vi o T e o P no centro, eu perguntei ao Cees se eles também mudaram de casa, e ele confirmou. Depois voltei ao oratório.”
Nota: estas notas foram feitas na Casa Magone entre as 6:00h e as 9:15h
Nesta situação vimos que a criança principal, não me deu uma explicação porque é que não estava a jogar, mas através da línguagem corporal é visível que ela não se sentia bem com a situação, pois gosta de jogar futebol. Quando eu lhe perguntei se ele mudou de grupo ele confirmou, mas as respostas foram curtas e era visível que ele não queria falar.
Quando passa esta fase de desconforto, as crianças têm que mudar a própria imagem, pois as crianças da casa Margarida já não trabalham mas vão à escola, têm menos liberdade mas têm acesso a condições de vida como alimentação, habitação e carinho. Estas mudanças geram uma outra imagem, pelo que as crianças usam as expressões para procurar a sua nova identidade no grupo novo.
Notas do campo: 18-01-2011
“…Os educadores deram a notícia que a Magone vai jogar contra a Margarida. As crianças estão muito alegres e algumas estão a preparar-se para jogar. Elas calçam outros sapatos, luvas e meias. Daan está a fazer um rap: “Margarida que bate, Magone que chupa!...”
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É mais uma vez visível a diferença entre as crianças da Margarida e as da Magone. Elas jogam um contra ou outro e as crianças gostam da competição entre os dois grupos o que sublinha o facto que elas se sentem mesmo como um grupo com identidade própria. O Daan faz um rap: “Margarida que bate, Magone que chupa” em que ele se refere ao facto de que as crianças da Margarida “batem”, ou seja, são inteligentes e jeitosas enquanto que as crianças da Magone “chupam”, ou seja, usam drogas e por isso são menos inteligentes. É engraçado reparar que, algumas semanas antes, quando estas crianças faziam parte do grupo das crianças da Magone, havia uma música rap em que se abordava as crianças da Magone como positivas (canção 20-12-2010: “Magone que compra, Margarida que compra” e agora coloca as crianças da Margarida numa perspectiva positiva em que na sua canção anterior eram consideradas como negativas.