PARTE I: ORIENTAÇÕES TEÓRICAS
Capítulo 1: As crianças de rua – Abordagem teórica
1.2. De criança a criança de rua
1.2.3. O dia-a-dia da criança de rua
Neste capítulo quero referenciar-me às crianças que pertencem ao grupo 3 (crianças que residem durante da dia nas ruas e voltam durante da noite para uma casa de acolhimento) e grupo 5 (crianças que vivem durante o dia e a noite nas ruas) do modelo
(ANEXO 3) considerado no capítulo anterior. Limitei-me a estas crianças porque são
também estes dois grupos de crianças que participaram na pesquisa da qual resultou a maior parte dos dados que obtive. Por isso, elas foram o meu alvo. Para perceber melhor como a vida destas crianças se manifesta na prática vamos colocar o foco sobre o
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quotidiano destes dois grupos. Como já referi no capítulo anterior, os grupos cruzam-se e há sempre movimento entre eles, por isso abordo-os como sendo um grupo com o seu quotidiano específico. Digo quotidiano específico porque este grupo tem toda a liberdade para gerir o seu próprio tempo.
Em Luanda, capital angolana, vivem muitas crianças que pertencem aos grupos 3 e 5 das crianças da figura 1. A quantidade não é conhecida e uma das razões mais importantes é o facto da movimentação permanente destas crianças (Kanoquela, 2009). Foram feitas pesquisas com crianças no município da Maianga (Figura 3) onde foram contadas 198 crianças de pertencem a este grupo (MINARS, 2003, apud Kanoquela, 2009). Ela também refere que não há dados certos e recentes sobre o número das crianças de rua em Luanda mas é provável que o número não tenha mudado radicalmente e ainda é possível um ligeiro aumento. Neste caso só estamos a falar das crianças do município de Maianga, portanto, quando levamos em conta todos os municípios, é bem provável que existam centenas, até mesmo mil crianças que residem na rua durante dia e noite.
Figura 3: Munípios de Luanda, CIES, 2009.
Cacuaco Ingombotas Rangel
Viana Sambizanga Cazenga
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A maioria delas são rapazes e uma menor parte são meninas. Zoran (2000) diz não ser estranho que não haja meninos muito mais jovens do que esta idade como os estudos apontam que o processo de desligamento da família começa por volta dos cinco anos, sendo muito difícil encontrar crianças com idades inferiores a esta como moradoras da rua sem as suas famílias (Aptekar, 1996; Verma, 1996, apud Santana, 2007). A idade de iniciação das crianças em actividades de rua situa-se entre os 7 e os 12 anos havendo predominância nos 9 anos, (Rizzini e Rizzini, 1996, apud Santana, 2007) e a vida mais difícil é quando a criança tem menos de 10 anos (Lalor 1999; Chatterjee, 1992; Veale, 1993, apud Santana, 2007). Em Luanda há uma grande parte das crianças que se encontra na adolescência e uma parte menor que ainda se encontra na infância. Kanoquela (2009) refere na sua pesquisa que foram identificados 71% na faixa etária dos 13 aos 18 anos e 29% na faixa etária dos 6 aos 12 anos
As crianças que vivem em Luanda com idade dos 9 aos 15 anos são as que vivem em grupos instáveis e em refúgios, como a Casa Magone que participou neste estudo. Para Zoran (2000) viver num grupo é mesmo uma maneira de sobreviver à situação em que as crianças se encontraram. Existem dois tipos de grupos na rua: o primeiro caracteriza- se pela grande dimensão e organiza-se por razões económicas. E o segundo caracteriza- se, por sua vez, pela pequena dimensão, sendo formado de acordo com as relações de camaradagem e intimidade. Segundo Hutz e Koller (1999, apud Santana, 2007) dentro desses grupos, elas criam uma cultura própria, com as suas próprias expressões linguísticas. Em Angola, as crianças costumam falar o calão que é a linguagem da rua, não só falada pelas crianças que vivem nas ruas mas também pelo povo que frequenta muito as ruas urbanas. Embora elas usem o calão, existem palavras específicas que mexem com o próprio calão. O tipo de calão que falam também está um pouco dependente do bairro em que vivem. Menezes e Brasil (1998, apud Santana 2007) afirmam que o lugar onde as crianças vivem nunca é o mesmo, pois mudam permanentemente de lugar. A isso chama-se a mobilidade e rotatividade espacial. Esta mobilidade não é decorrente apenas do desejo da criança ou fruto do acaso mas ocorre muitas vezes em função da própria dinâmica da rua. Para Lucchini (2003, apud Santana, 2007) isso significa que, por exemplo, o trabalho pode decidir onde as crianças permanecem e se não há mais trabalho para fazer podem decidir ir para um outro lugar. Normalmente, escolhem também lugares que, na rua, melhor respondem às suas necessidades, seja em função da oferta de recursos que possam suprir tais necessidades
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básicas de sobrevivência, seja em função de uma menos vigilância policial (Fenelon, Martins & Domingues, 1992; Hecht 1998; Milito & Silva, 1995, apud Santana, 2007). Uma necessidade que detectei em Luanda é que muitas crianças de rua também permanecem ao lado de postos de venda de gasolina. Ali, encontraram duas coisas essenciais: em primeiro lugar, gasolina para fungar, o que é algo muito importante e, em segundo, um sítio para pedir esmola.
As actividades das crianças que vivem em situação de rua podem ser divididas em dois grupos: lícitas ou ilícitas. As actividades lícitas podem ser: esmolar, perambular, trabalhar, brincar e dormir (Rosemberg, 1996, apud Santana, 2007) e as ilícitas podem ser: utilizar drogas, realizar furtos, roubos e a prostituição (Rizzini & Rizzini, 1996,
apud Santana 2007)). Além disso, ainda podemos dividir o tempo em períodos muito
activos e períodos de inactividade (Lucchini, 2003, apud Santana 2007). Isso significa que as crianças têm oportunidade para dividir o próprio tempo em actividades que realizam na rua. Há tempo livre, em que a própria criança pode decidir o que é que vai fazer durante tal tempo.
Uma outra actividade que as crianças fazem sempre e é uma actividade muito importante que devia ter um lugar proeminente no sistema escolar é brincar. Como afirma Sarmento (2002, p. 1) “nas condições da mais dura adversidade, através do jogo e da ficção de uma existência onde até o horror aparece transmudado em projecção imaginária de uma realidade alternativa”. Isso foi de novo constatado por Santana (2007) no seu estudo com crianças em situação de rua. As crianças brincam mesmo quando vivem em condições adversas que as afastam da infância socialmente esperada…. Os meninos jogam bola na maior parte do dia, inclusive nos momentos de maior calor e sol na quadra de esportes. (p. 132). Para estas crianças, é ainda mais importante brincar porque, com a brincadeira, elas podem digerir o real e experimentar o mundo real num ambiente seguro, aqui refiro de novo o processo de alteração. Como afirma Santana (2007) as crianças constantemente rompem as barreiras entre a fantasia e a realidade, a ficção e os dados.
No seu quotidiano, o contexto tem um papel com grande impacto. Luanda, onde as crianças vivem, é a capital e implica que elas estão inseridas na área urbana. A área urbana tem certas características que influenciam as actividades que as crianças realizam de noite e de dia. Luanda é uma cidade dual o que significa que podemos dividi-la em duas facetas: zonas exclusivas e zonas de exclusão, zonas limpas e zonas sujas, zonas com musseques e zonas com casas luxuosas, ruas novas e estratificadas e
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ruas podres (Castells, 1989, apud Sarmento, sem data). Esta dualidade da cidade pode ter a função de gerar uma confrontação com a realidade pois, através do reconhecimento da dualidade da cidade pode-se saber o seu próprio lugar na sociedade. Em segundo lugar, esta dualidade tem influência sobre onde as crianças se encontram e o que podem fazer num determinado lugar. Por exemplo, uma criança não entra num bairro exclusivo porque sente que não é bem-vinda a esse lugar. Pelo contrário, nos bairros de exclusão, elas podem brincar à vontade e ai também podem fazer novas amizades. No mesmo sentido, não vão para as praias novas onde está tudo limpo e perfeito, mas vão às praias onde há menos perfeição.
Luanda também se configura como uma cidade global e isto implica que aí se encontra o fascínio da cidade (Sassen, 2001, apud Sarmento, sem data), com as marcas, os néons, os convites ao consumo, os apelos dos múltiplos sinais dos centros do poder económico; “a cidade global promove uma transfiguração imaginária do espaço urbano, num lugar comunicacional emergencial, polifónico e fantasista” (Sarmento, sem data). A cidade torna-se um espaço de risco e de sedução, um mundo não real onde as crianças recebem contactos com vários aspectos da cidade como droga, publicidade, dinheiro que podem resultar em problemas. Problemas como viciado em drogas e roubar são riscos da cidade global.
Através da cidade global as crianças também podem identificar-se como um produto cultural da cidade, através da transfiguração da cidade em um lugar na imaginação infantil; as crianças criam uma identidade própria que se relata nesta cidade global e se transforma como um produto cultural da cidade.