6. DISCUSSÃO
6.3. CATEGORIA 3 DROGAS: PROCURANDO CONTEXTOS DE
partir das histórias construídas junto às participantes que o uso de droga surge como uma busca pela própria identidade. Há um movimento familiar que não possibilita continência afetiva, mães sobrecarregadas e sem vínculos fortes com as filhas e pais ou morrem precocemente ou são afetivos, mas não se constituem como figuras de autoridade, necessária para a estruturação da personalidade da adolescente. Estas sem sentir pertencimento ao seu contexto primário recorrem ao social em busca de vinculação e referências identitárias. A droga como algo comum às histórias paternas acaba se inserindo rapidamente em suas vidas como contexto de pertencimento, junto aos grupos de pares.
6.3.1. Subcategoria – História do uso de drogas
SUBCATEGORIA ANALISADORES
História do uso de drogas
Início do uso de drogas;
Motivos relatados quanto ao início do uso de drogas;
Casamento e filhos como forma de para de usar drogas;
Droga e o sentimento de liberdade; Tentativas de abstinência;
Conhecendo o crack.
Nesta categoria se encontra a subcategoria História do uso de drogas onde será apresentado o que as participantes relatam sobre o início e histórico do uso de drogas. Todas as participantes da pesquisa fizeram uso de drogas durante muitos anos e durante a gestação. No caso de Claudia e Cristiane esse uso é iniciado ainda criança, Camila começa a fazer uso apenas após a morte da mãe, já em sua fase adulta. Nos três casos o uso se inicia principalmente com a maconha, cocaína e álcool, mas elas terminam utilizando o crack.
Aí comecei logo com a cocaína, cheirar com doze anos. [...] Então... Eu achei... Ah! Eu fiquei com raiva mesmo! Eu falei, ah! tá bom! Então tá! Fiquei com raiva! Já que você tá falando que eu tô usando, e vou usar mesmo! Pra você ter motivo pra falar [...] e aí... Comecei. Não me dei com a maconha. Continuei a cheirar cocaína, com doze anos. Nunca parei. Sempre cheirando muito. Cheirava muita cocaína. Bebia muito. (Claudia)
O M. nasceu. Logo que ele nasceu, eu comecei a usar de novo. Ia pra “boca” com ele. Ficava três ou quatro dias, com ele lá. Eu conhecia o pessoal e ficava na casa do pessoal. [...] O M. já ficou comigo em boca, ele com dois aninhos de idade, sabe eu enfiava um monte de droga dentro da calça plástica, num era nem fralda... Calça plástica. (Claudia)
Ah! A primeira coisa que eu fiz, eu bebi... Festinha assim perto de casa. Comecei a beber e depois fui conhecendo outras coisas lá no Plano, cola, maconha, essas coisas assim, droga né? Ai pronto, eu fiquei dos quatorze aos dezenove. Ai depois que eu conheci o C., eu passei treze anos sem fazer nada. Só sendo dona de casa. E ai não tive valor nenhum. (Cristiane)
Cristiane passou toda sua adolescência em situação de rua, engravidou de seu primeiro filho o que a fez unir-se ao companheiro, passou aproximadamente 13 (treze) anos em abstinência. Após anos de traições e violências sofridas por parte do companheiro, este resolveu se separar, o que fez com que Cristiane tivesse um surto depressivo, abandonasse o lar e seus filhos e voltasse às ruas e ao uso de drogas, mais especificamente o crack. (Diário de campo, 01/11/2013)
Eu tinha consciência de que eu tava fazendo errado, mas não conseguia. Não conseguia. Comecei até tomar medicamento que passaram no São Vicente, mas não consegui também ir além do tratamento. [...] Então, sabe... Foi muito sofrimento. Esse caminho do crack ai oh... Esse caminho do crack, ele não tem volta! (Cristiane) (Questionada quando foi que iniciou o uso de drogas) Ah! doutora, isso foi depois que ela faleceu. Eu tô com trinta [...] tinha uma família que morava lá. Só que esse pessoal que morava lá, os filhos da mulher tava fumando maconha lá dentro da casa. Quando a mulher ia trabalhar, os meninos ficavam o dia todo fumando maconha. Ai nisso, eu não precisava nem ir atrás, o meninos ficava fumando lá, eu ficava e fumava logo. (Camila)
A gestante tinha dificuldade em assumir o seu passado como usuária de droga, apresentou este período como uma fuga do sofrimento da perda da mãe, onde responsabilizou as amigas que a levavam para festas e bares, e acabaram desviando do que ela chama do caminho certo. (Diário de campo, 22/10/2013)
No que tange o uso de drogas pelas participantes é notório como estas o fazem como uma forma de fuga do contexto familiar conflituoso como constatado nos casos de Claudia e Cristiane; ou como fuga do sofrimento que estão vivenciando como pode ser observado na história de Camila em relação à morte de sua mãe e em Claudia e Cristiane ao longo de suas vidas. Para Cardinal (1991) existe uma ligação direta do sintoma com a dinâmica do seu
sistema familiar, sendo que o consumo de drogas surge como padrão de fuga de tensões. Para o autor a entrada de pares que coadunam e estimulam o consumo de drogas também é fator de risco para a dependência química.
Indivíduos em famílias muitas vezes experimentam uma tensão dialética de pertencimento e separação vivenciando a força da lealdade familiar e o impulso para a autonomia. A mesma lealdade familiar que podem impedir o uso de álcool pode também promover o sacrifício do bem-estar pessoal em prol da manutenção do sistema (HOOPER et al., 2012). Para Roldan e Galera (2005) a mulher aprende a ser mãe a partir de suas próprias experiências pessoais e familiares. As autoras sugerem que o consumo de drogas é uma expressão da busca de alivio para sentimentos relativos a falta de afeto e adequação como, por exemplo, de não se sentirem realizadas como mulheres e como mães.
6.3.2. Subcategoria – Tratamento do uso de drogas e gravidez
SUBCATEGORIA ANALISADORES
Tratamento do uso de drogas e gravidez
Busca por tratamento motivado por terceiros; Gravidez levando ao tratamento hospital; Desintoxicação para o parto.
Na subcategoria Tratamento do uso de drogas e gravidez as participantes da pesquisa relatam como foi sua trajetória dentro dos serviços de saúde, sendo que apenas Claudia obteve algum tipo de ajuda e tratamento para o uso de drogas fora do período de gestação. Ambas Cristiane e Camila só obtiveram ajuda para desintoxicação durante sua internação no hospital, dias antes de seus partos.
Meu pai morreu quando eu tava com três meses, que tava lá dentro (da clínica de reabilitação). Aí sai pro enterro. Fui fiquei uma semana na fazenda do meu tio. Aí pesou minha consciência, porque eu tinha entrado mais porque meu pai tinha apelado muito para mim entrar. Só que meu pai bebia muito também, então eu achava assim, poxa né? Ficava me mandando internar [...] quando meu pai morreu, foi um choque pra mim. E aí eu parei mesmo. Aí eu fiquei doze anos, limpa. (Claudia)
Ai quando eu comecei ir pro posto, uma semana depois eu ganhei a menina. Me levaram pro alto risco! Eu tava tendo contração de vinte em vinte minutos. E dilatando mais e mais. Quando eu vi, minha cesárea foi tranquila. (Camila)
Cristiane procurou o hospital por intermédio dos irmãos que ficaram sabendo que esta está grávida e usando crack, fizeram uma intervenção. Procurou o hospital próximo onde sua
mãe residia e acabou sendo encaminhada para o hospital de referência onde fez todo processo de desintoxicação e o acompanhamento do parto, ficou aproximadamente 45 dias no hospital. (Diário de campo, 01/11/2013).
Esse movimento de busca por auxílio seja ele por meio de intervenção familiar ou por conta própria é o contrário ao que foi encontrado por Hochgraf, Zilberman e Brasiliano (1999). Para essas autoras, a questão do uso de drogas era subdiagnosticada pelas equipes de saúde, porque em muitos casos as mulheres dependentes químicas buscavam os serviços de saúdes com outras queixas que não a de dependência química. Kumpfer e Fowler (2007) afirmam que ainda hoje a problemática do subdiagnóstico persiste mesmo em países de primeiro mundo como, os Estados Unidos, onde o feto tem seus direitos garantidos por lei. Esta lei torna o abuso de substâncias durante a gravidez, um crime contra o feto e isto não evita o uso de drogas na gravidez. Apenas contribui para que as mulheres usuárias de drogas, quando grávidas não procurem por ajuda e nem por cuidados preventivos, como o pré-natal, com medo do que lhes possa ocorrer caso seja descoberto o uso de drogas na gestação. As autoras problematizam que é necessário compreender que são mulheres com problemas de vício em drogas que ficam grávidas, e não mulheres grávidas que decidem usar drogas.
Entretanto, nos três casos descritos nessa pesquisa as participantes buscaram o serviço verbalizando o problema com o uso de drogas e solicitaram ajuda. Acredita-se que tal situação está relacionada com a maior abertura social no Brasil para se falar do problema da dependência química de forma geral e também na gestação e pelo oferecimento de um serviço especializado pela rede de saúde, mesmo que apenas quando a usuária do serviço esteja gestante. Portanto a gravidez pode ser a grande oportunidade dessas mulheres para serem atendidas e tratadas. No entanto, a despeito das políticas atuais de atenção a mulher, bem como aos usuários de álcool e outras drogas, para Silva et al. (2013) a gravidez no caso de mulheres usuárias de drogas geralmente é descoberta tardiamente, o que aumenta os sentimentos de insegurança da gestante dependente química, e faz com que a mesma tenha dificuldade em se adaptar física e psicologicamente a realidade da gestação e influencia diretamente na falta de acompanhamento pré-natal.
6.3.3. Subcategoria – Uso de drogas nas gerações
SUBCATEGORIA ANALISADORES
Uso de drogas nas gerações
Pai alcoolista;
Avôs e tios homens bebem;
As mulheres da família não usam drogas; Família só usa álcool socialmente.
Na subcategoria Uso de drogas nas gerações as participantes relatam um padrão de consumo abusivo de álcool pelo genitor e um consumo descrito como “social” pelos familiares principalmente de sexo masculino. A partir dos relatos é possível afirmar que as mulheres das famílias de origem das gestantes não faziam uso de nenhum tipo de droga. No entanto, a relação das gestantes com suas mães, como já descrita anteriormente, não era próxima o que pode ter dificultado o processo de identificação com a figura materna. Na impossibilidade de identificação com as mães, que não fazem um processo de maternagem com suas filhas, essas acabam se identificando com a linhagem paterna repetindo seu padrão de consumo de drogas.
Comecei a fumar porque meu pai fumava! Ele me dava cigarro e falava: “Vai acender lá pra mim no fogão, mas não encosta a boca!”. Eu encostava a boca. Comecei a fumar. [...] Meu pai bebia muito! Meu pai morreu tomando cerveja quente, porque ele tinha bronquite asmática e não podia ficar tomando gelado, essas coisas... Ele tomava cerveja quente. Então ele era alcoólatra mesmo. (Claudia) Na família do meu pai, minha avó bebia, meu avô bebia, meus tios. Só minhas tias que não. Mas os três tios por parte de pai, tudo, tudo. Pinga mesmo! Cachaça mesmo assim. Só que no interior essas coisas eram até normal. Né? Naquele interiorzão não tinha nem energia elétrica. Mas só da família do meu pai. [...] Só álcool. Só álcool mesmo. Da minha avó, parte da minha mãe, num teve, não tinha nada disso. (Claudia)
Meu pai trabalhava no negócio da guarda presidencial, só que bebia muito! Ele tinha problemas com bebidas. Ai uma vez na folga dele, parece que ele bebeu demais, ai encontraram ele morto aqui perto da rodoviária... Perto da rodoferroviária... Foi bebida. (Camila)
Com droga só foi eu. Com álcool, assim, meus irmãos... Meu irmão que mora ali na Santa Maria bebe assim socialmente, uma cerveja final de semana. Assim... eu sou a ovelha negra da família. (Cristiane)
Os relatos das participantes exemplificam o que foi descrito por Stempliuk e Bursztein (1999) sobre o fato de que a tradição familiar do uso de álcool e cigarro também está associada ao comportamento aditivo dos filhos. O sintoma da dependência química está diretamente ligado a um processo de transmissão geracional estando relacionado a fatores
como o uso de drogas pelos pais e parentes, sendo este padrão relacional disfuncional transmitido à próxima geração, influenciando diretamente como o jovem irá se relacionar com a droga licita ou ilícita. Hooper et al. (2012) em seu estudo perceberam que adolescentes parentalizados apresentavam um uso de álcool significativamente maior, quando o consumo de álcool dos pais era maior.
Trindade e Bucher-Maluschke (2008) compreendem que em famílias alcoolistas tendem a ter lutos não resolvidos, associados à incapacidade em elaborar e superar perdas que interferem na dinâmica do sistema familiar, por meio do bloqueio da comunicação direta e a cristalização de uma identidade alcoólica. As autoras compreendem que essa identidade alcoólica se constrói por meio de ideais, mitos e valores herdados em torno da conduta relacionada ao consumo de álcool e suas consequências, é transmitida a próxima geração.
O alcoolismo relacionado ao genitor ocasiona fortes repercussões no sistema familiar, sendo visto como um “sintoma de desequilíbrio transgeracional” (p. 176) e está associado ao adoecimento de outro(s) membro(s) da família, principalmente dos filhos, que devem carregar o legado familiar. “A tristeza se cristaliza e cede lugar à doença” (TRINDADE; BUCHER- MALUSCHKE, 2008, p. 177).
6.4. CATEGORIA 4 - MATERNIDADE À “DERIVA”: SE MINHA MÃE NÃO FOI FILHA