3.1 Estados Unidos – class actions
3.1.3 Categorias
Atualmente, a Rule 23 (b) apresenta em suas três subdivisões as quatro espécies de class actions. São elas: ações de classe para compatibilidade de conduta - Rule 23(b)(1)(A); ações de classe da Rule 23(b)(1)(B); ações de classe da Rule 23(b)(2) e ações de classe em razão de questão comum ou indenizatória – Rule 23(b)(3).
As três primeiras categorias são consideradas mandatory class actions, pois tratam de interesses indivisíveis – no direito pátrio, seriam tratadas como direitos difusos ou individuais homogêneos, categorias que não são utilizadas pelo sistema jurídico da common law. Somente
97 ARRUDA ALVIM, José Manoel de. et al. Código do Consumidor Comentado. 2. ed. rev. e ampl., São
Paulo, Revista dos Tribunais, 1995. p. 352.
98 GIDI, Antonio. A class action como instrumento de tutela coletiva de direitos. As ações coletivas em uma
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pelo último tipo de ação é que se podem veicular direitos individuais homogêneos, também segundo a terminologia da doutrina nacional.99
Na Rule 23 (b) (1) estão previstos dois tipos de class actions que permitem lidar com situações que seriam tratadas como litisconsórcio unitário no direito brasileiro.100 Assim, estas class actions são normalmente ajuizadas quando há o risco de que diversas ações individuais provocarem decisões contraditórias. Neste caso, é o “vetor da igualdade”101 que justifica a
propositura e o recebimento da ação como coletiva. Justo por isso, veda-se o exercício do opt- out, que é a solicitação do membro da classe para ser excluído dos efeitos vinculantes do julgamento (binding effect).
O primeiro tipo de ação de classe, as incompatible standards class actions, previstas na Rule 23(b)(1)(A), visam à obtenção de uma decisão judicial que atinja a todos os membros de uma determinada classe, sem exceção, como pode acontecer com determinadas questões tributárias e ambientais. Trata-se de uma norma cuja natureza visa a proteger o demandado, pois evita que lhe sejam imputadas obrigações contraditórias102. Sem embargo, “pode-se imaginar perfeitamente a confusão que seria se fossem propostas ações individuais, quando um juiz julgasse procedente um pedido e outro, improcedente.”103
As prejudice class actions, previstas no Rule 23(b)(1)(B), são ajuizadas para evitar que decisões satisfaçam interesses individuais de alguns membros, com prejuízo para os demais membros da classe. Ocorreria no caso de várias ações de membros individuais sobre o mesmo objeto, que esgotariam os recursos que caberiam em tese a toda a coletividade. Neste caso, ao contrário do que acontece com o primeiro tipo de ações de classe, as prejudice class actions prestam-se à proteção dos membros da classe.104
A Rule 23(b)(2) institui as injunctive relief class actions, que são cabíveis quando a classe é alvo de agir inapropriado ou inadequado por parte de terceiro, autorizando à coletividade o exercício de uma ação que vise medidas judiciais, como declarações e
99 GRINOVER, Ada Pellegrini; WATANABE, Kazuo; MULLENIX, Linda. Os processos coletivos nos países
de civil law e common law. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011. p. 305.
100 BARROSO, Luís Roberto. A proteção coletiva dos direitos no Brasil e alguns aspectos da class action norte
americana. Boletim científico da escola superior do Ministério Público da União, Brasília, nº 16, p. 111-140, jul/set. 2005. p.133.
101 BUENO, Cassio Scarpinella. As class actions norte-americanas e as ações coletivas brasileiras: pontos para
uma reflexão conjunta. Revista de Processo, São Paulo, v. 82, p. 92-151, abr./jun.1996. p. 97.
102 SALLES, Carlos Alberto de. Class actions: algumas premissas para comparação. Revista de Processo, São
Paulo, v. 174 p. 215-228, ago.2009. p. 220.
103 MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução no direito comparado e
nacional. 3. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. p. 82.
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injunções. Como o próprio nome sugere, este tipo de demanda não admite pedido de cunho patrimonial, restringindo-se o pedido a obrigações de fazer ou não fazer. Barroso esclarece que a injunctive relief class action é manejada, via de regra, em casos relacionados aos civil rights, para coibir atos discriminatórios praticados contra certas “classes”, tais quais negros, mulheres ou imigrantes 105. Não é necessário, contudo, “que todos os integrantes da classe sejam diretamente afetados ou se sintam ameaçados pela conduta.”106 Por estas características,
tal qual acontece nas ações de classe acima apresentadas, também não há a possibilidade de opt-out.
O último tipo de ação de classe prevista na Rule 23(b)(3) é a class action for damages. Trata-se da mais comum das ações coletivas, sendo frequentemente utilizada para o mercado de capitais, direitos do consumidor e outros litígios eminentemente de massa. No entanto, é fundamental que esteja bem caracterizada a predominance, ou seja, a predominância das questões comuns a todos os membros da classe sobre interesses individuais, sob pena de tornar-se o “processo verdadeiro labirinto, diante do emaranhado de alegações, defesas e provas essencialmente individuais.”107 Outro requisito importantíssimo nestas ações de classe
é a superiority, que é a análise da maior eficácia da ação coletiva sobre outros mecanismos judiciais disponíveis para resolver o conflito metaindividual.108
Essa espécie de class action tem caráter residual e açambarca todas as situações não encaixadas nas hipóteses anteriores, redundando num grau de coesão um pouco menor.
105 BARROSO, Luís Roberto. A proteção coletiva dos direitos no Brasil e alguns aspectos da class action norte
americana. Boletim científico da escola superior do Ministério Público da União, Brasília, nº 16, p. 111-140, jul/set. 2005. p.133.
106 MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução no direito comparado e
nacional. 3. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. p. 85.
107 Ibid. p. 87.
108 Com base na questão da superioridade, Gidi faz uma pesada crítica ao direito processual civil brasileiro,
afirmando que este é um “requisito incompreensível para o jurista brasileiro”, pois na doutrina nacional, a simples presença de requisitos ao cabimento de uma medida individual a torna tão “superior” quanto uma ação coletiva. No entendimento do processualista, o conceito americano demonstra bem que o direito processual civil americano, que não se prende a “dogmas, formalidades e abstrações criados pela sistematização doutrinária característica dos sistemas de civil law” sendo muito mais “complexo, prático, flexível do que o nosso”.
O autor ainda lembra que se o juiz americano se deparar com uma medida apta a solucionar ou agilizar a solução de um problema, ela será colocada em prática se for “constitucional, justa, efetiva, prática e econômica”, mesmo que “Chiovenda, Carnelutti, Calamandrei ou Liebman tenham dito uma frase de efeito que, abstratamente, vá de encontro à ideia”. Para Gidi, os processualistas americanos “não citam, não sabem e não estão interessados em saber quem são esses autores”.
Por fim, em ácida nota de rodapé, o doutrinador pondera que, “apesar disso, ou talvez justamente por isso”, os americanos “têm um dos sistemas mais efetivos e mais respeitados do mundo civilizado. Enquanto isso, nós, brasileiros, andamos para trás, aprisionados em uma teia infindável de conceitos, dogmas, esquematizações e abstrações e louvando os Manuali italianos...”.
Vide GIDI, Antonio. A class action como instrumento de tutela coletiva de direitos. As ações coletivas em uma perspectiva comparada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 172.
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Justamente por isso, foi neste tipo de demanda coletiva que se deu um maior avanço dos entendimentos doutrinário, jurisprudencial e legislativo norte-americanos, o que permitiu um aperfeiçoamento significativo dos institutos pertencentes às ações de classe.
Atualmente, por intermédio destas class actions é que se manejam os famosos mass torts cases, denominação empregada para aquelas demandas nas quais os fatos geradores de responsabilização civil atingem inúmeros indivíduos em eventos ocorridos em locais e datas diversos 109. Por último, vale lembrar que este é o único tipo de ação de classe no qual se admite o exercício do opt-out, isto é, o direito de opção conferido ao membro da classe para não se submeter aos efeitos da sentença prolatada.