coisas. Eu falo pro pessoal: olha, se lá na sua casa tem um ventilador que ta te sobrando, lá num canto, mande pra cá, por que aqui é quente demais [...] então é assim que a gente faz” (Otacir Gemaque, entrevista em 12 fev. 2013).
4.3 CERÂMICA, MUSEU E TURISMO: ALGUMAS PROPOSTAS
Ao decidir apontar algumas alternativas para que a cerâmica marajoara, arqueológica e atual, cumprissem a função social que, acredito, possuem em relação ao povo do Marajó, optei por não fundamentá-las teoricamente. A motivação disto foi a constatação que seria enfadonho discutir aqui conceitos e metodologias como de planejamento e da chamada educação patrimonial. Isto, por sua vez, surgiu com as pesquisas relativas aos dois temas, pois é comum que os trabalhos acadêmicos tragam e discutam uma avalanche de conceitos para abordar o que foi feito ou o que se pretende propor em poucas linhas. Além disto, penso que minhas sugestões precisam ser fundamentadas em conceitos como de educação e pesquisa, que devem ser adaptadas ao contexto cultural do Marajó. Contudo, procurei apresentar opções para um futuro projeto, que pretendo desenvolver, mas que também pode ser desenvolvido por outros marajoaras – aos quais me disponibilizo a auxiliar. Assim, me baseio na concepção de Barreto (2000) quando diz que:
Cabe ao planejador de turismo a intervenção consciente e profissional para que o patrimônio, as tradições – o legado cultural todo – possam ser transformados séria e conscientemente num produto turístico de qualidade, bom para ser usufruído também pela população local. [...] Basta pensar que o produto está dirigido não apenas a uma plateia de curiosos e forasteiros (estrangeiros ou não), mas também aos próprios cidadãos locais, que seu objetivo é mostrar às gerações jovens qual foi o processo pelo qual sua sociedade passou para chegar ao ponto onde se encontra (BARRETO, 2000 p.75, 76).
A correlação do senso comum entre legitimidade/autenticidade unicamente à continuidade ancestral (Grünewald, 2001), bem como do alinhamento entre os bens culturais marajoaras com uma classificação arqueológica, vem desapropriando a
população do Marajó de seus bens culturais. Em contraposição, o uso desses bens tem privilegiado classes dominantes política, ideológica e economicamente. Este fenômeno não é raro, uma vez que aqui mesmo em nosso continente pode ser visto em relação aos povos descendentes de ancestrais como os Astecas, Mayas e Incas. Em relação a todos estes e, também aos marajoaras71, somos obrigados a aceitar a conclusão mitológica, mas também “científica”, de que “desapareceram de forma inexplicável”. Isto, além de afastar outras possibilidades, como extermínios e evasões motivadas por de guerras, como propôs Barbosa Rodrigues nos trabalhos aqui citados, serve para justificar a inclusão de seus bens inteiramente como “patrimônios da humanidade” podendo ser apropriados sem benefícios às empobrecidas populações remanescentes72. A estas, tem bastado o reconhecer a beleza de seu caprichoso artesanato, absolutamente desvalorizado por não ter o
glamour do nome de algum designer célebre.
O reconhecimento dos bens patrimoniais das sociedades menos privilegiadas aparece como um avanço do pensamento social que, mais que um ato preservacionista, pode vir a ser utilizada em benefício imediato destas sociedades. Fonseca (2003) diz que o reconhecimento dos direitos culturais encerra também o direito à memória como parte dos direitos sociais. Assim, a questão da preservação se entrelaça aos direitos de propriedade (SIMÃO, 2003; FONSECA, 2003; BELAS, 2005). Tendo isto em conta, pode-se entender a patrimolialização como um fator positivo, podendo reservar-se as criticas em relação às suas consequências a um momento no qual os detentores do patrimônio já estejam sendo beneficiados. A função social do direito a propriedade é incluída entre os princípios observados no Artigo 170 da constituição federal que diz que “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social” (Brasil, 1988). É possível entender que o uso do patrimônio cultural deveria ter como função social contribuir com a sustentabilidade daqueles que a ele estão intrinsecamente relacionados, como neste caso, o povo marajoara.
São muitas as possibilidades para que seja remetido aos referenciados culturais os recursos do uso de seu patrimônio. Dentre outros, a criação de
71
Aqui me refiro ao marajoara arqueológico.
72
É importante esclarecer que, ao citar os povos indígenas descendentes, não quis dizer que a população marajoara atual possui a mesma homogeneidade étnica, mas sim que tem direito aos bens culturais produzidos por suas culturas ancestrais.
mecanismos como a criação de um fundo “visando a repartição de benefícios nos casos de conhecimentos de origem difusa” (BELAS, 2003, p. 42) que, segundo a autora, já vem sendo pensado pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético. Com boa vontade, certamente não haverá dificuldade em pensar outras medidas para a geração de recursos ao fomento de elementos básicos como a educação. Esta é considerada como um elemento fundamental para a sustentabilidade e o desenvolvimento humano. Sendo assim, resta sonharmos que chegue a todas as comunidades marajoaras acompanhada das reflexões construídas no pensamento educacional brasileiro, como a necessidade de contextualizá-la e adequá-la à realidade local.
Considerando as possibilidades atuais para fazer o patrimônio marajoara cumprir sua função social, temos a produção cerâmica, que tem sido usada como forma de profissionalização e geração de renda, em Cachoeira e em outros municípios. Este processo pode ser aproveitado como forma de educação através da pesquisa, como propõem os trabalhos de Paulo Freire, Demo (1997) e Sofiste (2007). Acredito que pesquisar a cerâmica, bem como aliar a aprendizagem do saber-fazer cerâmica à pesquisa é uma proposta de grande valor social, uma vez que, mais que a apreensão de técnicas para o consumo cultural73 é também uma possibilidade de descoberta e, aos mais jovens, a (re) internalização deste patrimônio como seu. Para isto, o envolvimento de nossos professores, de todas as áreas, é imprescindível já que nossa cerâmica possui elementos suficientes para ser explorada a partir de todas as áreas do conhecimento. Para exemplificar, temos sua importância histórica, abordada neste trabalho, mas que deve ser continuada com a finalidade de enriquecimento sobre nosso território. Sobre a formação do nosso idioma, pode ser explorada a partir dos nomes. “Igaçaba” é um dos que necessita de pesquisas aprofundadas, uma vez que hora significa uma coisa ora outra, compondo um emaranhado de significados. Em matemática/física podemos aproveitar o jogo entre a simetria e a falsa simetria dos traçados cerâmicos para compreendermos como o como e o porquê deles. Que elementos químicos compõem a pintura da cerâmica marajoara? De que é feito seu engobo? E o barro? Qual a química do
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Consumo cultural, aqui, é entendido na perspectiva de CANCLINI (2006 p. 89): “El conjunto de processos de apropriación y uso de productos en los que el valor simbólico prevalece sobre lós valores de uso y de câmbio, o donde al menos estos últimos se configuran subordinados a la dimensión simbólica”.
barro? Elemento que os marajoaras manipulam na convivência com e sobre ele deste sempre. Em ciências, podemos descobrir nossa fauna e flora representadas nos desenhos. Em antropologia nossos mitos. Quais mitos estão representados em nossa cerâmica? Qual a relação entre os anagramas com o nome de nossos entes queridos em homenagem a eles e a lenda do açaí? Coincidência ou mito explicativo? Por que no Marajó o enterro tem um quê de festança? Certamente nenhum INRC seria capaz de registrar essas nuances. Podemos, ainda, aproveitar o privilégio de, ainda hoje, darmos importância aos nossos os nossos idosos para reinterpretarmos nossa sociedade a partir de nosso próprio olhar e só então compararmos com as opiniões e teorias externas. Por que a grande maioria das famílias marajoaras, ainda hoje, tem o elemento materno em ressaltada importância? A arte é um belo capítulo à parte! Para incitar ainda mais a curiosidade da pesquisa digo que se há uma linguagem iconográfica a ser lida na cerâmica marajoara, o povo do Marajó merece interpretá-la. Estudar nossa cerâmica é um ato de cidadania e resistência à apreensão da verdade a partir da visão alheia, pois “o poder simbólico das representações dominantes é de alguma forma aceito e legitimado pelos grupos dominados, que naturalizam estas representações, sem as questionar, não percebendo também a relação de forças a qual estão sujeitos” (CATÃO, 2004, p. 84).
Feitas as considerações a respeito da importância da cerâmica marajoara para o povo do Marajó, é possível incluir a produção da cerâmica para o turismo, tendo como certo que o envolvimento da população disponibiliza, ao turista, informações que vão além daquelas dispostas nos roteiros e em manuais técnicos, como coloca Morais (2005). Contudo, é preciso deixar fluir também a criatividade dos nossos artistas vendo como válidas as suas inspirações na cerâmica arqueológica, tanto quanto a reprodução desta.
O Museu do Marajó figura como um elemento fundamental na proposta de obtenção da função social do patrimônio marajoara, pois encerra mais de trinta anos de pesquisa e registro. Vale destacar, neste ponto, o esforço da direção do MdM em desenvolver ações junto à população local, ainda que com dificuldades. A “vitória do Gallo”, grupo de dança folclórica e os projetos de música são alguns dos exemplos. Fazendo uma analogia à pirâmide das necessidades de (Maslow apud COOPER at
al), penso que, embora se tratando de uma instituição, é grande a dificuldade em
Entretanto, para que não haja concentração no problema em si, é preciso pensar medidas que, além de possibilidades de superação das tais necessidades, sejam capazes de fazer com que o MdM finalmente chegue a ser o polo de desenvolvimento social, sonhado por Gallo.
Para começar com a comunidade local, é preciso dar prosseguimento às pesquisas sobre plantas e ervas medicinais, conforme pensadas por Gallo (1996). Neste processo, é possível envolver a população a partir dos estudantes com pesquisas feitas em seu âmbito familiar, sobretudo, através da aquisição de receitas com os mais velhos. Penso que esta proposta encerra muito além de uma mera conversa, a interação e o respeito familiar através do (re) conhecimento e (re) apropriação da sabedoria dos mais velhos. Além de receitas e plantas, podem também ser incluídos elementos, como lendas, contos, músicas, histórias, poemas etc. É possível incitar os alunos às pesquisas bibliográficas e à elaboração própria através da necessidade de conceituar esses elementos. Estes devem ser catalogados para seleção e possível inclusão posterior no acervo do MdM e é válido considerar alguma forma de registro das informações colhidas. Uma proposta para conseguir o envolvimento dos estudantes é elaborar exposições temáticas (mitos, ervas, lendas etc.) ao ar livre com estes trabalhos, chamando a comunidade à participação. O terreno do MdM pode ser aproveitado para isto. É possível também criar premiações para os trabalhos mais caprichados e/ou completos.
É importante incrementar a biblioteca do MdM através da cobrança e inclusão de todas as pesquisas a respeito de assuntos como a Amazônia, o Marajó, Cachoeira e, sobretudo, das pesquisas feitas no MdM. A assinatura de um termo pelos pesquisadores que desenvolvem trabalhos no MdM poderia garantir esta remessa. Esta ação pode trazer à comunidade a consciência sobre as questões políticas que envolvem seu meio, bem como sobre sua visibilidade (ou ocultamento) nacional e internacional. Uma lembrança indispensável ao incremento desta biblioteca é o acervo Dalcídio Jurandir, nosso mais célebre escritor, que vem sendo designado “o romancista da Amazônia” e que sua obra retrata nossos costumes e o contexto político de nossa região.
Em relação ao acervo, além da atualização e incremento das pesquisas de “computadores”74 como o “A cidade do agora-já-tem” e até mesmo do “A cidade do
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já-teve”, que já começavam a ser feitas quando visitei o MdM, proponho a criação do “computador” “Tá, cheiroso!”, um espaço onde a população possa discordar de assuntos diversos, sobretudo os pertinentes à comunidade. Podem ser criados também outros “computadores”. Algumas ideias são o “Pior!” ou “De rocha”, para apoiar os mesmos temas/projetos, o computador “Potoca”, para cobrar dos políticos as promessas não cumpridas. Estas engenhocas podem ser “alimentadas” periodicamente pela própria população e permanecer no salão da recepção, para ter maior visibilidade.
Quanto ao turismo, é preciso inserir oficialmente o MdM nos roteiros vendidos pelos municípios “indutores”, cobrando pela venda do atrativo – que já é feita pelos meios de hospedagem da região, bem como por alguns roteiros externos. Neste sentido, é preciso um trabalho de conscientização tanto por parte dos agentes do turismo marajoara quanto do turista sobre as dificuldades e a necessidade de manutenção do acervo e do prédio da instituição. Uma boa medida é aumentar o ingresso para os visitantes e manter o preço/gratuidade para a população local, como é feito na maioria dos atrativos turísticos brasileiros. A venda de lanches para os visitantes (que, até minha ultima visita ainda não tinha sido implementada), pode ser uma possibilidade de arrecadação de fundos para sua manutenção.
É possível também a criação de uma feira com o artesanato feito no município. Entretanto, é preciso propor a formação de associações nas vilas e fazendas. Como diferencial, tanto para a comunidade quanto para o turista, é possível agregar-lhe práticas como o chamado comércio justo, onde, entre outros, o comprador tem a possibilidade de conferir a alocação do lucro da venda – cuja maior parte fica com o produtor. Um bom exemplo são os ditos “Negócios Sociais” – modelos de negócios desenvolvidos a partir de soluções de mercado75 com o objetivo de contribuir com a superação de diversos problemas sociais e ambientais (NAIGEBORIN, 2012).76
Penso que a viabilidade das propostas acima podem vir através do apoio de comerciantes, como já é feito para a manutenção do MdM. Mas, para a inclusão da comunidade no turismo do Polo Marajó, assim como Tavares (2009 p. 250), acredito
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Segundo Naigeborin (on-line), significa dizer que os Negócios Sociais possuem as mesmas regras comerciais de qualquer outro negócio e, portanto, devem ser planejados para, após um período de tempo, gerar recursos suficientes crescer. Assim, podem receber doações no início de suas atividades, mas não podem ficar dependentes disso para manter sua viabilidade econômica.
na “necessidade de uma participação efetiva das universidades em projetos coletivos interinstitucionais, que possibilitem a inserção dessas comunidades, viabilizando não só o acesso, mas também sua participação nas tomadas de decisão”.
Embora algumas destas propostas sejam ainda superficiais e/ou estejam no campo da utopia, como a reintegração de posse da cerâmica, entendo que muitas delas podem ser pensadas para a Universidade Federal do Marajó – projeto também utópico, porém mais próximo de materialização. Quem sabe através da UnM não conseguiremos fazer do Museu do Marajó um instituto de pesquisa, nos moldes que sonhou Giovanni Gallo?
Quanto a pretensão de estatizar o MdM, como vem sendo pensado por alguns marajoaras, paraenses e paraenses-marajoaras, penso que este recurso não atende às necessidades do Museu do Marajó, já que ele é do Marajó e deve permanecer sob a guarda da comunidade que o cultiva.
4.4 SOBRE O TURISMO E O TURISMO NO MARAJÓ
É usual o discurso de que planejar o turismo em lugares onde existem muitas disparidades socioeconômicas, como no Marajó, significa ter urgência em criar mecanismos capazes de beneficiar o maior número de pessoas possível. Observando a reciprocidade que deve haver no encontro entre anfitriões e hóspedes, este pensamento também inclui o turista. Para que haja reciprocidade, é necessário que a hospitalidade como base das relações em turismo – e em todas as outras relações – seja considerada. Para Baptista (2002, p. 157), “a hospitalidade é um modo privilegiado de encontro interpessoal marcado pela atitude de acolhimento em relação ao outro”. Portanto, é preciso meditar também que “antes de mais nada, o outro representa sempre um desafio, seja pela estranheza que provoca, seja pelo fato de não ser alguém do nosso mundo, um desafio de compreensão e de deciframento” (BOFF, 2006, p27). É importante, ainda, termos consciência de que somos o “outro” para o “outro” e, assim, pensarmos sobre que tipo de outro estamos sendo. É preciso, então, considerar que a relação de troca em turismo é mediada por dinheiro – o que reduz a reciprocidade entre visitados e visitantes, como coloca (Lashley, 2004). Assim, é necessário pensar medidas de potencial resolução deste