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CODIGO DO PROCESSO CIVIL E COMMERCIAL DO ESTADO DO CEARÁ

Conforme relata Szymanowski (2011, p. -155-156), com a transição da monarquia para república e a ascensão da Constituição de 1891, refletiram na estrutura legislativa da federação os ideais republicanos, resultando em um maior grau de autonomia legislativa para os Estados. Dessa autonomia, conforme abordado no tópico acerca da Constituição de 1891, surgiram os Códigos de Processo Estaduais.

O Código de Processo Civil e Commercial do Estado do Ceará foi instituído com a Lei de nº 1.952 de 30 de dezembro de 1921, tendo sido alterado pela Lei de nº 2. 420 de 16 de outubro de 1926.

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O Código tratou acerca dos alienados em seu “Capítulo V” (“Da Curatela”), “Seção 1ª”, denominada “Da Curatela dos loucos”. No artigo inicial, utiliza-se da expressão do Código Civil “loucos de todo gênero”:

Art. 1.094- Aos loucos, de todo gênero o juiz nomeará curador, se o requerer o pae, mãe, tutor, cônjuge ou algum parente próximo do louco, ou o Ministério Público, nos casos do artigo 448 do Codigo Civil (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219)

Estabelece explicitamente ser necessário o exame médico para que seja decretada a interdição, indicando que seja o exame feito por dois médicos, ainda que não necessariamente alienistas, mesmo que preferível:

Art. 1.095- Para ser decretada a interdicção, é necessaria a prova do estado mental do interdictando, mediante exame medico.

Paragrapho unico- O exame será feito por dois medicos, de preferencia alienistas, nomeados e compromissados pelo juiz.

A seguir, trata-se da necessidade de participação do Ministério Público:

Art. 1.096- Se o promovente da interdicção não fôr o Ministerio Publico será este citado para assistir ao respectivo processo como defensor do supposto incapaz; se elle, porem, fôr o promovente, o juiz nomeará outro defensor. (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219)

Determina que, antes da perícia médica, o juiz deve examinar o interditando, fazendo as perguntas a que achar necessário, devendo ser o interrogatório reduzido a termo:

Art. 1.097-Antes da pericia medica, o juiz examinará pessoalmente o interdictando, fazendo-lhe as perguntas que julgar convenientes, a respeito de sua vida, negocios e administração de bens.

Paragrapho unico- O interrogatorio do interdictando sera reduzido a termo, assignado pelo juiz com o orgão do Ministerio Publico. (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219)

Os requisitos a serem respondidos pelos dois médicos, em perícia, eram apontados pelo juiz, prevendo a legislação a nomeação de um terceiro médico em caso de divergência:

Art. 1.098- Em seguida ao interrogatorio, o juiz proporá os quesitos para o exame que os medicos farão em breve prazo, comunicando-lhe o resultado em documento por ambos assignado.

Paragrapho único- Se divergirem, o juiz nomeará outro facultativo para desempatador, devendo este communicar-lhe do mesmo modo o laudo. (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219)

Desse modo, quando as respostas da perícia indicarem contundentemente a loucura o juiz nomeará a interdição, exceto se houver justo motivo para não se utilizar a prova. Estabelece-se, ainda, recurso a ser utilizado:

Art. 1099- Se das respostas dos peritos resultar prova de loucura do interdictando e não houver justo motivo para se despresar essa prova, o juiz decretará a interdicção; no caso contrário, a denegará,

Paragrapho único- Da sentença, em qualquer dos casos, é admissível aggravo de petição, mas o recurso não suspenderá os effeitos da interdicção, se decretada. (Cod. Civil, art. 452). (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219)

No caso de dúvidas acerca do exame, é possível abrir espaço para produzir outras provas, mudando-se o rito para o sumário e sendo o recurso cabível a apelação:

Art. 1.100- Se as conclusões do exame medico forem duvidosas, a respeito do estado mental do paciente, o juiz, caso requeira o promovente da interdicção, ordenará que prosiga o respectivo processo, abrindo-se uma dilação para serem produzidas subsidiariamente outras provas.

Paragrapho unico- O processo tomará, nesse caso, o curso summario dando-se appellação, recebível em um só effeito, da sentença final. (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219)

Logo na sentença de interdição é necessário que se indique o curador, sendo este escolhido em acordo com a lei civil. O curador recebe os bens do interdito, mediante inventário, sendo mandatório que realize hipoteca legal para assegurar o valor. Ressalta-se que deve ser obedecido o Código Civil de 1916, principalmente no que refere a direitos e obrigações do curador. Sobre esses assuntos versam os seguintes artigos:

Art.1.101- Decretada a interdicção, o juiz, na mesma sentença, nomeará curador ao incapaz.

Paragrapho unico- A nomeação recahirá na pessôa que tenha para o cargo as condições exigidas na lei civil.

Art. 1.102- O curador prestará o compromisso de bem servir e receberá os bens do curatelado mediante inventario, sendo obrigado, antes de assumir a curatela á especialização de hypotheca legal.

§1º- No exercicio do cargo, haver-se-á o curador como tutor, cabendo-lhe os mesmos direitos e as mesmas obrigações, observados os limites da curatela, assignados pelo juiz, e os termos da lei civil (Cod. Civil, arts. 451 e 453).

§2º- O curador será removido nos mesmos casos em que o deva ser o tutor e pelo mesmo processo. (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219) O Código de Processo também trata da possibilidade de extinção da interdição mediante a cura do interdito, determinando, para tal, que o processo ocorra no mesmo juízo da interdição e que seja ouvido o Ministério Público:

Art. 1.103- A interdicção poderá ser levantada, provando-se, mediante exame médico, ter o interdicto recuperado o uso regular de suas faculdades mentaes. Paragrapho único- O levantamento poderá ser requerido pelo interdicto, seu curador, ou qualquer das pessoas competentes para promover a interdicção.

Art. 1104- O processo de levantamento correrá no mesmo juizo, onde foi processada a interdicção, devendo, se possivel, funccionar no exame do interdicto os mesmos medicos que o examinaram anteriormente.

Art. 1105- Provado que o interdicto recuperou o uso da razão, o juiz, depois de ouvir o Ministerio Publico, declarará suspensa a interdicção.

Art. 1106- O juiz fará remeter ao oficial do Registro Civil a copia da sentença que decretar a interdicção e bem assim a do seu levantamento, para devida inscripção (Cod. Civil, art. 12). (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-219)

Acerca da prestação de contas a ser realizada pelos tutores e curadores versa o Código cearense:

Art. 1.117- Os tutores e curadores prestarão as suas contas, na conformidade da lei civil, observadas, no respectivo processo, as normas dos artigos 593 a 598.

Art. 1.118- Não se promptificando os tutores ou curadores a prestar contas, a isso os compellirá o juiz, ex-officio, ou a requerimento de algum interessado, ou do Ministério Público que intervirá sempre no processo, em nome dos menores ou curatelados.

Paragrapho unico- Será tambem ouvida a mãe daquelles, na hypothese do art. 393 do Codigo Civil.

Art. 1.119- O processo correrá em autos appensos aos do inventario ou do recebimento dos bens.

Art. 1.120- Do julgamento das contas do tutor ou curador caberá aggravo de petição. (Código de Processo Civil e Commercial, 1921, p. 217-220)

Portanto, o Código deu ênfase à necessidade de prestação de contas, indicando a possibilidade de se compelir, de ofício, que os curadores que não se prontificaram para tal prestem contas. É, inclusive, determinado recurso de agravo para questionar o julgamento das mesmas.

Desse modo, verifica-se que o Código de Processo Civil cearense em muito repetiu do Código Civil de 1916, utilizando-se da expressão “loucos de todo gênero” e constantemente citando dispositivos do referido Código. Determinou, contudo, detalhes relevantes para o processo de interdição aplicado no Ceará e para a proteção dos interditos, indicando medidas específicas, como a necessidade de dois médicos (ainda que não necessariamente alienistas, mesmo que preferivelmente devam sê-lo) para a realização da perícia, o interrogatório a ser feito pelo juiz, além da reiteração da participação do Ministério Público e da necessidade de prestação de contas.

No próximo capítulo são abordados casos concretos da cidade de Fortaleza e, com base nestes, será possível analisar quais legislações foram aplicadas, qual o procedimento adotado e que preceitos foram realmente obedecidos nesse contexto.

4 O TRATAMENTO REAL DO LOUCO: CASOS CONCRETOS DE FORTALEZA DA PRIMEIRA REPÚBLICA

Com embasamento no contexto histórico e na vasta legislação do período, apresentados nos capítulos anteriores, neste, são analisados casos concretos relativos ao tratamento de alienados no período da Primeira República em Fortaleza. Os casos são de décadas diferentes e, por isso, é possível perceber alterações nas condutas adotadas, assim como na legislação citada. Além disso, todos os casos, exceto o de Lídia de Azevedo, são processos judiciais.

O caso Lídia de Azevedo foi abordado por Oliveira (2011, p. 168-171) em pesquisa às Atas das Sessões da Santa Casa de Misericórdia, tratando-se de uma questão administrativa interna do Asilo São Vicente de Paula. Este caso foi selecionado para análise por ter sido relativo a uma internação que levantou polêmica o suficiente para ser mencionado nas Atas de Sessões em maior detalhe.

Os processos judiciais, por sua vez, advieram de nossa pesquisa no Arquivo Público de Fortaleza. Os cinco processos (Luiz Lopes da Cunha, Luiza Pereira da Cunha Bezerra, Theodora Maria das Mercês, Maria José Bezerra, Carmem da Silva Lopes) foram os únicos encontrados sobre o tema da loucura no período, na esfera cível. São todos do Cartório de “Orphãos” e sob a designação Exame de Sanidade/ “Interdicção”. Assim, por constituírem todos os processos encontrados da categoria delimitada, foram escolhidos para análise.

Os quatro primeiros casos judiciais apresentados demonstram o tratamento processual do assunto com o passar das décadas na Primeira República, visto serem de anos diferentes ao longo do período. O último processo analisado, porém, o de Carmem da Silva Lopes, é de cinco anos após o fim da Primeira República e é apresentado para fins de comparação com os demais.

Analisam-se, assim, as nuances de cada situação apresentada, abordando pontos considerados significativos para verificar como e em que medida é conferida proteção jurídica ao louco, ou ao suposto louco.