PARTE 2 COMO SE CONFIGURAM OS TRANSTORNOS DO COMPORTAMENTO ALIMENTAR EM SALVADOR?
8.3. Ideais de Beleza e Imagem Corporal entre Estudantes Negras de Salvador
8.3.2. Como os Ideais de Beleza Interferem na Autoimagem dessas Jovens?
Apesar de discretas diferenças nos referenciais pessoais, fica claro que tanto para as jovens negras quanto para as que se definiram como não negras, a magreza é fator importante na avaliação em relação ao belo, tanto para si, quanto para as outras pessoas. Diante disso, ao verificar como estas concebem seus corpos e a satisfação com os mesmos, percebeu-se, nos dois grupos, uma insatisfação com a imagem corporal, por parte da maioria das estudantes. No grupo das jovens que se identificaram como negras foi possível traçar um perfil subdividindo-as em dois conjuntos, um que é o das jovens sem preocupação com o formato e tamanho corporal e o outro que inclui pessoas com essa preocupação. No entanto, ao analisar as informações das entrevistas e dos grupos focais foi possível perceber que o fato de não apresentarem preocupação com a imagem corporal, não evitou a insatisfação com o seu corpo para duas entrevistadas e uma participante do grupo focal. Quando avaliamos as respostas dadas na primeira etapa, quando do preenchimento do questionário, quatro estudantes que haviam ter respondido estarem satisfeitas com suas características físicas, nas narrativas deixavam evidenciar a insatisfação com sua imagem, demonstrando a complexidade envolvida na avaliação e assunção desse aspecto.
Ao analisar as proporções corporais, a comparação do estado antropométrico referido com o aferido não foi igual para Raio de Sol, Taína Janaína e Cora. As três primeiras tenderam a superestimar a sua magreza e a última referiu um excesso de peso não existente (vide quadro 1 abaixo).
Quadro 1. Perfil antropométrico, preocupação com o corpo e satisfação com a imagem corporal entre as estudantes negras.
NEGRAS
Participação E GF GF GF/E GF E E E E GF/E
Nome Estrela Taína Cora Raio de Sol
Janaína Raio de Luz
Galáxia Tainaçá Marisol Sereia
Estado antropométrico (IMC) ET MII/I SB/ET M II/I M I/ET M III ET OB ET OB
Resultado BSQ S/ PC S/ PC S/ PC S/ PC S/ PC S/ PC PM PG PL PM
Satisfação com a imagem corporal
SIM SIM NÃO NÃO SIM NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO
Entre as jovens estudantes identificadas como não negras, houve gradação entre a total ausência de preocupação com o formato e tamanho corporal até uma preocupação grave com o mesmo, no entanto a insatisfação com o corpo esteve presente em algum momento da vida dessas jovens. Para o questionamento quanto à satisfação com as
características físicas, na fase do questionário, apenas Sirena respondeu que não estava satisfeita. Talassa foi uma estudante que participou do grupo focal e para qual não foi
Legenda Significado E GF Entrevista Grupo focal ET MII MI SB OB Eutrófico Magreza grau II Magreza grau I Sobrepeso Obesidade S/PC PM PL PG
Sem preocupação com formato e tamanho do corpo Preocupação moderada
Preocupação leve Preocupação grave
possível avaliar a preocupação com o formato e tamanho corporal, por não completar o BSQ. Rubía e Marina superestimaram a sua magreza. A primeira possuía magreza grau II – MII pelos dados aferidos, mas pelos referidos possuía magreza grau I – MI; Márcia estava eutrófica pelos dados de peso e altura aferidos, mas referiu magreza grau I – MI (Quadro 2).
Quadro 2. Perfil antropométrico, preocupação com o corpo e satisfação com a imagem corporal entre as estudantes não negras.
NÃO NEGRAS
Participação GF GF GF GF E E E E
Nome Sirena Talassa Rubía Marina Céu Rubídea Jaciara Dalva
Estado antopométrico (IMC) ET SB M II/I MI/ET SB OB ET ET
Resultado BSQ S/ PC ? S/ PC S/ PC PL PM PG S/ PC
Satisfação com a imagem corporal NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO SIM
Apesar dos estudos (COSTA e VASCONCELOS, 2010; AVARENGA et al, 2010; MIRANDA et al, 2012) geralmente encontrarem que um estado antropométrico relacionado ao excesso de peso (sobrepeso e obesidade) estão associados com uma mais elevada insatisfação com a imagem corporal, a presença dessa insatisfação em jovens mulheres que estão com magreza ou até mesmo normalidade das proporções peso/altura, como os encontrados nesse estudo, devem ser investigados com mais profundidade, principalmente pela correlação dessa insatisfação com os padrões valorizados na sociedade, pertinentes à aparência. Nossos dados atestam que para essas estudantes a magreza tão propagada pela mídia como ideal corporal para obter sucesso e felicidade é também valorizada, mesmo que definam esta magreza como proporcionalidade. No nosso caso, algumas jovens que possuíam esta proporcionalidade não estavam satisfeitas com seu corpo.
No grupo focal, apesar de haver relatos de sofrer discriminação por ser gorda ou por ser magra demais, e mesmo conhecendo casos de sofrimento devido ao corpo, as estudantes defendem a ideia de que a insatisfação é algo comum a todas as pessoas. No entanto, ao contrário do que aconteceu entre as estudantes negras, neste grupo focal as jovens se colocaram de forma muito evasiva quanto a como se percebem e se sentem em relação aos seus corpos. As conjecturas quanto a essa questão se baseavam nos sentimentos e percepções que possuíam em relação às experiências dos outros, fossem amigos, parentes, colegas de escola. Muito pouco se colocaram em termos de suas próprias vivências. Como pelo BSQ nenhuma delas tinha preocupações com a forma e tamanho corporal, parece, numa primeira análise, que são meninas satisfeitas quanto à sua corporalidade, mas essa não exposição das suas experiências e sentimentos quanto a si mesmas, as concepções que têm por base o outro e os dilemas do outro faz pensar se realmente as respostas oferecidas no teste correspondem a um processo reflexivo, positivo, pessoal ou à dubiedade própria de quem vive um conflito não assumido ou não elaborado.
Dalva é a única entre as estudantes não negras que não possui preocupação com a imagem corporal, é eutrófica, parece ter satisfação com o seu corpo e se sentir feliz do jeito que é.
Excepcionalmente, essa relação positiva foi quebrada no período em que iniciou aulas de canto, quando a professora a induziu a sentir vergonha do seu corpo e a escondê-lo com roupas largas. Artifício que usa até hoje com o objetivo de esconder a barriga, hábito adquirido a partir da influência da professora. Revela que seu corpo magro é uma tendência familiar e isso não a preocupa. A única vez que emagreceu muito e isso a incomodou foi quando terminou seu namoro. Diz, inclusive que, “quando isso acontece, os ossos aparecem e fica muito feio, tenho vontade de cobrir”.
Estrela, do grupo das estudantes negras, também foi avaliada como eutrófica, possui uma autoestima elevada e satisfação com seu corpo. Tem um cuidado com a alimentação justamente pelo fato da mãe possuir comportamentos sugestivos de anorexia. A mãe já foi internada por conta disso, o que fez Estrela se sentir alerta em relação ao problema. Ela acaba se preocupando muito com a mãe e com as pessoas da família que são gordinhas e não cuidam do corpo, portanto todo o seu zelo com a alimentação parece ter haver com a sua família e não com ela mesma.
Suas colegas, Raio de Sol e Raio de Luz, estavam com magreza, em algum grau, avaliada pelo índice de Massa corporal. Foi possível perceber que as meninas com magreza têm consciência disso, mas não apresentaram no BSQ nenhuma indicação de preocupação com a forma e tamanho corporal, apesar de não se sentirem confortáveis com o corpo. A insatisfação com a imagem corporal advém não somente de uma percepção do próprio corpo, mas também por influência forte da família (principalmente das mães), namorados e amigos, que criticam frequentemente a sua magreza. Esses constantes comentários fazem com que busquem artifícios para se sentirem melhor, seja com maquiagem, dietas ou exercícios físicos com o objetivo de engordar. Raio de Luz apresenta certa ambiguidade em relação à satisfação com seu corpo: ao mesmo tempo em que diz gostar do mesmo, de não querer engordar, inclusive de já ter sido convidada para ser modelo, expressa a todo o tempo uma insatisfação com a magreza e com os comentários externos em relação a esta magreza, principalmente da mãe e do namorado. “(...) às vezes, quando coloco uma roupa, minha mãe fala assim: você está parecendo um lápis. (...) aí, tem que botar uma roupa que não fique tão apertadinha, né? Pra não ficar parecendo um lápis”. Já Raio de Sol acha às vezes que seu físico tem haver com falta de controle. Manifesta o tempo todo insatisfação em relação ao corpo, inclusive, com complexo em relação a partes do corpo, como costas e pernas, segundo ela é corcunda e o corpo é cheio de pelo. Tem vergonha de expor seu corpo, por conta desses complexos, apesar de referir ter mudado muito após ter deixado de frequentar a Igreja Universal do Reino de Deus, com sua família, e passar a fazer parte do movimento negro, movimento social que permitiu a ela refletir sobre suas características e assumir algumas, como o cabelo crespo. “[...] os meus seios, um é maior do que o outro, ai me dá mais revolta, fica meio bagunçado assim, há meu Deus que feio, acho minhas costas, achei meio estranha, porque não sei se eu tenho uma, como é que fala? Uma calcunda (sic) [...] (Raio de Sol,
Entre as jovens negras com preocupação, em algum grau, com o formato e tamanho corporal, todas possuem insatisfação expressa em relação ao corpo. As duas jovens com obesidade, Sereia e Tainaçá, segundo relato, são as únicas das suas famílias que apresentam esse corpo, o que as leva a se comparar com as outras pessoas e serem criticadas. Isso as pressiona a tomar atitudes no sentido do emagrecimento. Dizem que se sentem bonitas e gostam do seu corpo, mas parece que essa influência externa leva a uma insatisfação, que contradiz esse relato. Nos dois casos há uma relação conflituosa com a comida, com horários irregulares de refeições e até mesmo comportamentos bulímicos, como é o caso de Sereia, que já fez uso da indução de vômitos com o intuito de emagrecer. Neste caso, a mídia televisiva foi responsável tanto pelo início quanto pelo final do comportamento, no entanto ainda revela vontade de provocar o vômito, quando se sente muito incomodada com o corpo. Só não faz por ter medo das consequências. “Eu parei de fazer depois que eu vi esta coisa esta reportagem dessa modelo, porque antes eu fazia essa besteira de meter o dedo e botar pra fora, aí depois que eu vi que era uma doença, eu fui tentando parar, parar até que eu parei (Sereia, negra)”. Para Tainaçá a maior influência é a pressão exercida pela mãe, o que já fez com que pensasse em fazer cirurgia para conseguir se adequar. Esta pressão também interfere na sua alimentação.
“Dieta da sopa, dieta da lua... desde os dezesseis, dezessete anos. Desde quando eu comecei a me cuidar mais. Eu comecei a ver que não era mais questão de estética. Era questão de saúde. Ai eu comecei a ter consciência que era saúde também. Porque minha mãe sempre falou, sempre encheu o saco pra eu emagrecer (Tainaçá, negra)”.
As que foram avaliadas como eutróficas (Galaxia e Marisol), apesar de possuírem um peso adequado para a idade, percebido inclusive visualmente, possuem também relação conflituosa com o corpo e a comida. Têm medo de engordar e se acham gordas. Há um comer compulsivo e ao mesmo tempo uma preocupação em controlar a alimentação para evitar engordar. A família exerce influência significativa nessa relação com o corpo e a comida, pois há uma ligação mais distante, que se manifesta mais frequentemente através de críticas aos comportamentos, ou pela percepção de gordura nos corpos dos familiares. São extremamente críticas consigo mesmas, em relação ao seu jeito de ser, vestir, etc. Há uma comparação grande com outras mulheres, o que, no caso de Galáxia, por exemplo, pode ter origem no preconceito em relação às pessoas que vêm das cidades do interior, principalmente da roça, visto que esta tem dificuldade de se relacionar e fazer amigos. A falta de uma conexão mais cúmplice e companheira com a mãe também pode ser um fator relevante para este quadro, além do fato de ser negra e achar que se veste mal também contribuir para sua autodepreciação. No caso desta garota, um fator agravante é ser a única entre os filhos que não sabe quem é o pai, o que, aliado ao relacionamento distante com a mãe, pode explicar a sua personalidade, que ela mesma define como difícil. Já apresentou comportamentos bulímicos na adolescência e, hoje, come compulsivamente, o que a faz pular algumas refeições para compensar, além de ter manifestado pensamentos suicidas.
“Às vezes, às vezes, assim, eu reduzo bastante o chocolate, que dá bastante gordura, às vezes! Aí exagero no pepino, no tomate, no alface, um bocado... e minha mãe tá precisando fazer uma dieta ultimamente, aí eu peguei a ponga, assim, mas é... é bem a pulso (Marisol, negra)”.
“Tem uma pessoa que quando estou com ela eu nunca deixo de comer [...] Inclusive ela para pra comer junto comigo quando estou ansiosa, porque a questão dela é comer, comer, comer e não deixar de comer (Galáxia, negra)”. As respostas advindas do grupo focal sustentam e reafirmam essa influência da família, principalmente, na imagem corporal construída pelas jovens, interferindo consequentemente nos hábitos alimentares. Nesse grupo, apenas Taína relatou claramente estar satisfeita com seu corpo e as outras justificavam sua vontade de modificar algo no corpo pela influência externa e pela falta de autoestima.
A influência de outras pessoas na relação das jovens com seu corpo esteve presente em todas as entrevistadas não negras e entre as meninas que participaram do grupo focal também. Essas pessoas influenciaram-nas na percepção do próprio corpo e nos comportamentos relacionados ao comer, ao uso de vestimentas para escondê-lo, bem como em relação à atividade física. Uma delas, Jaciara, passou a copiar as estratégias da mãe para emagrecer, usando medicamentos, dietas milagrosas, todo tipo de atividade física e até mesmo chás. A única coisa que não fez foi a cirurgia bariátrica à qual a mãe se submeteu. Mas continuou a se comparar com ela e com os outros integrantes da família, achando que ser gorda era uma tendência familiar, apesar de ser absolutamente eutrófica.
“Minha mãe também vivia fazendo regime aí eu acompanhava um pouco ela. Ela já fez Vigilante do Peso, aí eu também fiz [...] Fez redução de estômago. Isso porque ela engordou muito, ela não gostava, vivia fazendo regime. Eu até tomava os remédios dela pra emagrecer (risos) (Jaciara, branca)”.
Frois e suas colegas (2011) defendem a ideia de que certa incongruência entre as imagens reais e as imagens sociais dos corpos, ou seja, as imagens divulgadas e valorizadas pelos diversos meios de comunicação social, sempre existiu e fez parte da construção da corporeidade e identidade corporal dos indivíduos, nas diversas fases da vida. O que elas consideram problemático na sociedade atual é esta crença veiculada e vendida para alimentar o capitalismo pós-moderno de que é possível alcançar essa imagem corporal fantasiosa e perfeita, levando as pessoas a assumirem hábitos e comportamentos que caracterizam o que elas chamam de adolescentização, ou seja, a manutenção de um conflito característico da adolescência durante a formação da identidade corporal. Continua-se a valorizar as efemeridades, os imediatismos e a busca pelo rejuvenescimento, que dificultam a formação de uma identidade corporal adulta, segura e relativamente estável, apesar de sujeita a contínuas mudanças em consequência da relação com o mundo. Para essas autoras, essa dificuldade de sair dessa fase própria da adolescência configura jovens
desestruturados e que têm como um dos fatores influenciadores o estabelecimento de vínculos parentais com pessoas que também estão vivendo esse processo de adolescentização ou de valorização do efêmero e do imediatismo. Essa parece ser uma explicação plausível para a influência tão grande de familiares, principalmente das mães, na insatisfação corporal sentida por suas filhas. A imagem social vendida como de sucesso, poder, felicidade e status é a da magreza, da beleza entendida como perfeição corporal e é esta imagem que as estudantes ou os seus familiares pretendem que seja alcançada.
No entanto, houve também influência positiva nesta relação, como no caso de Céu que começou a se enxergar de forma diferente e melhorar a sua autoestima quando passou a se ver através do olhar dos companheiros de boxe. No caso de Rubídea, foram os pais que, sendo gordinhos, a estimularam a aceitar mais seu corpo, diminuindo um pouco o seu grau de insatisfação. No caso de Jaciara, os amigos e o namorado eram as pessoas que estavam constantemente tentando elevar a sua autoestima e fazê-la perceber como era bonita. O mesmo aconteceu com Tainaçá (grupo de estudantes negras), que mudou o jeito de se vestir e de se ver (achava que era baleia e chata) devido ao apoio das amigas.
Já é bastante discutida como a imagem corporal também é reflexo das experiências relacionais. A imagem corporal se constrói também a partir da percepção de como os outros nos veem. É na relação com o outro que formamos nossa imagem, não importa apenas o que os outros nos dizem sobre nós mesmos, mas também como eles lidam com o seu próprio corpo, ou seja, a imagem corporal do outro se projeta em nós e vice-versa (TAVARES, 2003; BARROS, 2005; FROIS et al, 2011). Segundo Tavares (2003) há uma troca contínua entre a nossa imagem corporal e a dos outros, para além da percepção física, sensorial, mas que envolve sentimentos, emoções e atitudes. É uma experiência subjetiva, multifacetada, social, que depende do outro para acontecer (BARROS, 2005) e está fortemente presente nos relatos de todas as jovens quanto à satisfação ou insatisfação sentida em relação à sua imagem, que vai além da aparência dos seus corpos, mas revela as inseguranças, fragilidades, medos e desejos advindos dessas relações.
Outro fator presente em todos os casos, no grupo das não negras, foi a utilização de roupas folgadas e largas para esconder ou disfarçar o corpo, ou as imperfeições que acreditam ter no corpo. A comparação com outras pessoas, principalmente as mulheres, também é um ponto forte de insatisfação corporal. Rubídea era a única que estava realmente com obesidade, agravada por conta de tratamento médico, e, portanto, fugia aos padrões corporais sociais de magreza. As outras estavam eutróficas e Céu com um leve sobrepeso.
“Porque eu... eu sempre achava que tava gorda. Eu tenho meio que a coxa grossa (riso) aí eu acho horrível (riso). Isso porque minha mãe também é assim. Minha mãe é bem bunduda com um coxão assim, aí ela também tem a mesma coisa de odiar, se achar feia e querer usar roupas largas essas coisas aí eu aprendi tudo com ela (Jaciara, branca)”.
“Por tá mais cheinha não podia mostrar a barriga. Não que eu mostre, porque eu ainda não mostro. Não visto só folgada... porque teve uma época que eu tava vestindo só blusão, tudo folgada (Céu, branca)”.
O comportamento alimentar alterado está presente em todas, com exceção de Dalva, que se sente satisfeita com seu corpo. Há a presença de uma alimentação controlada, com o intuito de emagrecer, mas também há o relato por todas de gostarem muito de comer, principalmente bobagens. Para Céu, o comer compulsivo se relaciona a momentos específicos da vida, de estresse ou desagrado com alguma situação, o que a leva a engordar. A sensação de vergonha e perda de controle está na percepção que têm do corpo, Rubídea e Jaciara, a primeira com moderada e a segunda com grave preocupação com a imagem corporal. A eutrofia de Jaciara reforça a inadequação do grau de preocupação que esta possui em relação a sua imagem corporal, bem como sua insatisfação. Para Rubídea essa perda de controle em relação à alimentação e ao corpo leva ao sentimento de culpa, o que já ensejou desejos de morte.
Considerando que, caracteristicamente, em jovens que possuem transtornos do comportamento alimentar ou comportamentos alimentares desordenados há uma tendência a se esquivarem em falar ou expressar os sentimentos relacionados a tais comportamentos. Que a atitude de esconder a verdadeira maneira que se sentem em relação ao corpo e a comida são baseados no medo que possuem da não compreensão por parte dos familiares, amigos, conhecidos sobre a sua percepção, e perspectivas que dão base às suas vidas. Podemos acreditar que as jovens que aceitaram participar dos grupos focais e das entrevistas, e que realmente assumiram esse compromisso (muitas jovens concordaram em participar, mas no momento agendado para as atividades não compareceram), possuíam a necessidade concreta de compartilhar com alguém conflitos, posicionamentos, emoções, vivências com o corpo, que talvez não se sentissem confortáveis em fazer com a família ou pessoas próximas. O fato da equipe de pesquisadores serem estranhos, não fazerem parte dos cenários os quais elas circulam rotineiramente, pode ter sido uma fator facilitador para exporem suas questões quanto à imagem corporal que possuem e/ou almejam.