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3 A JURISDIÇÃO NO ÂMBITO JURÍDICO-ADMINISTRATIVO E O ATIVISMO

3.1 ORIGEM, EVOLUÇÃO E COMPETÊNCIA DOS TRIBUNAIS DE CONTAS

3.1.2 Competências Constitucionais dos Tribunais de Contas

A Constituição promulgada em 1934 (BRASIL, 1934), atribuiu ao Tribunal as seguintes funções: a) promover o acompanhamento do orçamento, cadastro prévio dos gastos e contratos; b) julgar as contas dos responsáveis pelos bens do erário; c) apresentar um parecer técnico sobre as contas do Presidente da República para, posteriormente, as encaminharem para a Câmara dos Deputados.

A Constituição de 1937 (BRASIL, 1937) manteve as competências acima descritas, excluindo a atribuição referente ao parecer prévio das contas do Presidente da República.

Na Constituição de 1946 (BRASIL, 1946) foi acrescida a competência para decidir acerca da legalidade das concessões de aposentadorias, reformas e pensões.

A Constituição Federal de 1967 (BRASIL, 1967), por sua vez, foi modificada pela Emenda Constitucional nº 1, de 1969 (BRASIL, 1969), e retirou a competência do Tribunal para examinar e julgar previamente as ações e os contratos submetidos aos gastos e ao julgamento da legalidade de concessões de aposentadorias, reformas e pensões. Por outro lado, manteve a competência da Constituição anterior em demonstrar as falhas e irregularidades que, uma vez não elididas, ocasionariam prejuízos ao Estado e se tornaria motivo de representação ao Congresso Nacional, além de manter a avaliação da legalidade. A mesma Constituição atribuiu ao Tribunal a competência para o exercício da função de auditoria financeira e orçamentária de todas as contas dos três poderes do Estado42, o que resultou em órgão de controle externo.

Enfim, com a promulgação da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 2010a), ao Tribunal de Contas foram conferidas atribuições próprias, além de sua própria jurisdição, onde obteve competência para auxiliar o Congresso Nacional, através do exercício do controle contábil, financeiro, orçamentário, operacional e patrimonial em todo o território nacional. São, por conseguinte, órgãos administrativos, de natureza colegiada, que auxiliam o Poder Legislativo no controle externo da Pública Administração, tendo eles tripla esfera de atuação: O Tribunal de Contas da União (TCU)43 cuida das contas federais e seus membros são

42 Também foi atribuído ao Tribunal de Contas, calcular e fixar, com base em pesquisas do Instituto Brasileiro e

Geografia e Estatística – IBGE (2015), os fatores de participação na distribuição de recursos tributários do Estado, bem como os Fundos de Participação dos Estados (FPE), do Distrito Federal e dos Municípios (FPM), controlando e fiscalizando sua entrega aos beneficiários e controlando junto aos órgãos responsáveis da União.

43 Art. 73. O Tribunal de Contas da União, integrado por nove Ministros, tem sede no Distrito Federal, quadro

próprio de pessoal e jurisdição em todo o território nacional, exercendo, no que couber, as atribuições previstas no art. 96. § 1º Os Ministros do Tribunal de Contas da União serão nomeados dentre brasileiros que satisfaçam os seguintes requisitos: I - mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade; II - idoneidade moral e

intitulados Ministros; os Tribunais de Contas dos Estados (TCEs), um para cada Estado da federação, cuidam das contas estaduais e municipais e seus membros são intitulados Conselheiros; Os Tribunais de Contas dos Municípios (Pará, Bahia, Goiás) cuidam das contas dos municípios do seu Estado e seus membros também são denominados conselheiros. Observe-se que o Distrito Federal possui um Tribunal de Contas próprio (TC-DF), bem como os Municípios de São Paulo e Rio de Janeiro têm Tribunais de Contas exclusivos e seus membros também são conselheiros. Esclareça-se, por fim, que não há entre eles a menor subordinação hierárquica. Diferentemente do Judiciário, o TCU não possui poder de decisão vinculante para os demais Tribunais de Contas.

Entende-se que a competência dos Tribunais de Contas da União, Estados e Municípios devem observar o ordenamento constitucional brasileiro44 e legislação infraconstitucional pertinente. A divisão das competências é agrupada em: a) fiscalizadora; b) judicante; c) sancionadora; d) consultiva; e) informativa; f) corretiva; g) normativa e; h) ouvidoria (LIMA, 2011, p. 111)

A primeira competência, a fiscalizadora, é compreendida como a efetivação de fiscalizações e auditorias em órgãos e entes integrantes da administração direta e indireta, para apreciar a legalidade e adequação dos recursos públicos, o endividamento público, a execução da Lei de Responsabilidade Fiscal e demais ações45. Outra competência, a judicante46, é a função administrativa do Tribunal de Contas de decidir acerca das contas dos administradores dos recursos públicos, no aspecto de sua regularidade, validade, efetividade das finalidades públicas, instituídas pela Carta Magna, por leis e regulamentos, e, também, de apreciar,

reputação ilibada; III - notórios conhecimentos jurídicos, contábeis, econômicos e financeiros ou de administração pública; IV - mais de dez anos de exercício de função ou de efetiva atividade profissional que exija os conhecimentos mencionados no inciso anterior.

§ 2º Os Ministros do Tribunal de Contas da União serão escolhidos: I - um terço pelo Presidente da República, com aprovação do Senado Federal, sendo dois alternadamente dentre auditores e membros do Ministério Público junto ao Tribunal, indicados em lista tríplice pelo Tribunal, segundo os critérios de antiguidade e merecimento; II - dois terços pelo Congresso Nacional. § 3° Os Ministros do Tribunal de Contas da União terão as mesmas garantias, prerrogativas, impedimentos, vencimentos e vantagens dos Ministros do Superior Tribunal de Justiça, aplicando-se-lhes, quanto à aposentadoria e pensão, as normas constantes do art. 40. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998) § 4º O auditor, quando em substituição a Ministro, terá as mesmas garantias e impedimentos do titular e, quando no exercício das demais atribuições da judicatura, as de juiz de Tribunal Regional Federal. [...] Art. 75. As normas estabelecidas nesta seção aplicam-se, no que couber, à organização, composição e fiscalização dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, bem como dos Tribunais e Conselhos de Contas dos Municípios. Parágrafo único. As Constituições estaduais disporão sobre os Tribunais de Contas respectivos, que serão integrados por sete Conselheiros (grifo nosso).

44 Art. 71 da CF/88 e seguintes.

45 A competência fiscalizadora do Tribunal de Contas da União se amplia aos três poderes.

46 Art. 71. [...] I - apreciar as contas prestadas anualmente pelo Presidente da República, mediante parecer prévio

verificar, emitir pareceres, tudo nos limites da sua competência. A competência sancionadora47, por sua vez, é necessária para o alcance da finalidade fiscalizatória, reprimindo a ocorrência de ilegalidades e impulsionando o ressarcimento ao erário. Já a competência consultiva abrange a emissão de pareceres prévios dos gastos do Presidente da República, dos Governadores e dos Prefeitos, para posterior utilização quando do julgamento dessas contas anuais por parte do Poder Legislativo. A competência informativa é realizada através do envio de informações ao Poder Legislativo acerca das fiscalizações executadas, do envio dos alertas especificados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, e da atualização de dados relevantes. Já a competência corretiva, nos moldes do art. 71, IX e X da CF/8848, e pelo princípio da simetria, dispõe sobre a correção de rumos da Administração Pública, através, dentre outros, do Termo de Ajustamento de Gestão, decorrente da teoria dos poderes implícitos dos atos fiscalizatórios, que se alinha a essência desta Tese e será mais delineado nos capítulos que se seguem a este.

A competência normativa se vincula ao poder regulamentar conferido pelas Leis Orgânicas de cada TC, que autoriza decisões, orientações, atos normativos dentro de seu âmbito de competência, bem como demais atos referentes à sua administração. A última, a competência referente à ouvidoria está prevista no art. 74 § 2º, da Constituição Federal, e se revela como uma forte ferramenta de auxílio aos TCs, pois às vezes só o cidadão terá condições de apontar fatos equivocados praticados por gestores diversos, e os órgãos de controle só passam a ter conhecimento através de representações ou denúncias.

Para o desempenho dessas atividades, o Tribunal de Contas da União é composto por nove Ministros, no qual seis são indicados pelo Congresso Nacional e três pelo Presidente da República. Entre os três últimos, um é escolhido livremente, o outro deve ser escolhido entre os integrantes do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União e o terceiro Ministro dentre seus Auditores do Tribunal.

47 Art. 71. [...] II - julgar as contas dos administradores e demais responsáveis por dinheiros, bens e valores públicos

da administração direta e indireta, incluídas as fundações e sociedades instituídas e mantidas pelo Poder Público federal, e as contas daqueles que derem causa a perda, extravio ou outra irregularidade de que resulte prejuízo ao erário público;

48Art. 71 da CF/88, IX - assinar prazo para que o órgão ou entidade adote as providências necessárias ao exato

cumprimento da lei, se verificada ilegalidade; X - sustar, se não atendido, a execução do ato impugnado, comunicando a decisão à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. No que tange a sustação de contratos, a Corte de Contas direcionará seu parecer ao Poder Legislativo para que apresente sua manifestação em até 90 dias. Caso não proceda desta forma, poderá o TC decidir pela sustação do contrato.