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CONCEITO DE SUPERENDIVIDAMENTO

No documento BRAZILIAN JOURNAL OF ACADEMIC STUDIES (páginas 55-58)

O PAPEL DA DEFENSORIA PÚBLICA NA TUTELA DOS

2.1. CONCEITO DE SUPERENDIVIDAMENTO

A Constituição Federal previu em seu texto a criação de um instituto que tutelasse as relações de consumo, sendo editada a lei federal que criou o Código de Defesa do Consumidor no qual, a partir de princípios multidisciplinares e outros elementos, possui o objetivo principal de proteger e resguardar os direitos dos consumidores, inclusive aqueles superendividados.

No ordenamento jurídico brasileiro não há definição expressa que caracterize o fenômeno do superendividamento, utilizando-se a doutrina do direito comparado, como o francês e o americano para elaborar alguns pressupostos que caracterizem tal fenômeno.

O superendividamento então é considerado um fenômeno social e econômico decorrente do consumo exagerado do consumidor que gera seu excesso de endividamento, impossibilitando-o de fazer jus a suas obrigações financeiras. Ocorre principalmente pela facilitação de acesso ao crédito oferecido para os consumidores, que na maioria das vezes é feito através de publicidade agressiva, e sedução.

Liomarques B. dos Santos1 conceitua o fenômeno do

superendividamento nos seguintes termos:

Pode-se definir superendividamento como a situação em que a pessoa física tem suas rendas em valor inferior aos devidos aos seus credores, deixando um passivo a descoberto. O

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superendividado se encontra de maneira incapaz de arcar com suas despesas mais básicas em sua subsistência, por tempo duradouro.

É um fenômeno intrinsecamente ligado ao consumismo, diante da facilidade de acesso ao crédito existente no sistema atual, que permite um melhor acesso ao consumo. Em decorrência disso, reflete não somente na vida econômica do consumidor, como também na sua relação social.

Vale analisar o conceito traduzido por Cláudia Lima Marques2

sobre o superendividamento e o consumismo:

O endividamento é um fato inerente à vida em sociedade, ainda mais comum na atual sociedade de consumo. Para consumir produtos e serviços, essenciais ou não, os consumidores estão – quase todos – constantemente se endividando. A nossa economia de mercado seria, pois, por natureza, uma economia do endividamento. Consumo e crédito são duas faces de uma mesma moeda, vinculados que estão no sistema econômico e jurídico de países desenvolvidos e de países emergentes como o Brasil. O superendividamento pode ser definido como a impossibilidade global de o devedor pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé, pagar todas as suas dívidas atuais e futuras de consumo (excluídas as dívidas com o fisco, oriundas de delitos e de alimentos).

Portanto, a situação do superendividado está relacionada aos valores ativos circulante da pessoa física ser inferiores aos valores devidos aos seus credores. Essa situação tem o condão de influenciar nas despesas mais básicas do consumidor.3

Em razão disso, ele pode ocorrer por diversos motivos, como expõe Sandra4:

Pode ele ocorrer por diversas formas: perda de emprego, doenças, brigas entre casais, aplicações malsucedidas, ou, por outro lado, pode advir de descontrole das contas, podendo o consumidor assumir mais dívidas do que pode suportar em nome do atingimento de um conforto maior, ideia, por vezes,

2 MARQUES, Cláudia Lima. Sugestões para uma lei sobre o tratamento do superendividamento de pessoas físicas em contratos de crédito ao consumo: proposições com base em pesquisa empírica de 100 casos no Rio Grande do Sul. In: Direitos do consumidor endividado: superendividamento e crédito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.

3 JURADO, Sandra. Possibilidades judiciais de amparo do consumidor superendividado.2010. p. 51. Monografia Jurídica (Pós-Graduação em Direito) – Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, EMERJ, Rio de Janeiro. 2010.

vendida pelo mercado do consumo exagerado.

O superendividamento possui primordialmente um aspecto psicológico nos consumidores, além de levar os mesmos a insolvência civil. Esse aspecto psicológico que acontece em razão das grandes ofertas para consumos, inúmeras propagandas e formas de financiamento próprios das lojas, se manifesta na necessidade de mover o mercado de consumo, porém, pode levar os consumidores a própria decadência e ao excesso de endividamento.

2.1.1. Classificações do Superendividamento: Ativo e Passivo

O consumidor superendividado é a pessoa física que ao utilizar o crédito para consumir se torna excessivamente inadimplente. Ele pode ser classificado em duas categorias: ativo e passivo.

O consumidor endividado ativo segundo Kirchner5 “é aquele

que contribui ativamente para se colocar em situação de impossibilidade de pagamento”. Ou seja, acumula dívidas para manter um padrão de vida superior aos seus recursos disponíveis, colocando-o nessa situação. O consumidor endividado ativo pode ser dividido ainda em superendividado de má-fé (consciente) ou de boa-fé (inconsciente).

O superendividado de má-fé decorre da contratação de dívidas conscientemente, sabendo que não conseguirá honrá-las, o que corresponde um comportamento de má-fé. Enquanto o superendividado de boa-fé, inconsciente, é aquele que cede as publicidades e ofertas de crédito fácil e ao mesmo tempo não gerencia seu orçamento. Ao ser exposto a publicidade ofensiva e falta de informação, esse consumidor é induzido a adquirir bens supérfluos e desnecessários, apesar de não agir intencionalmente.

André Perin Schmidt Neto6 se posiciona no sentido de que:

O consumidor, na condição de vulnerável, não pode ter negado o seu direito de ser tratado porque se agiu de modo imprevidente, o fez movido pelos impulsos de compra gerados pelo marketing e publicidade promovidos pelos próprios fornecedores/credores. Já o consumidor superendividado passivo é aquele que se endivida por fatores externos como, por exemplo, doença, morte na família, desemprego, redução de salário, divórcio ou separação, etc. Note-se que tais fatos são imprevisíveis e geralmente acarretam uma diminuição significativa dos recursos do indivíduo, conforme expõe

5 KIRCHNER, Felipe. Os novos fatores teóricos de imputação e concretização do tratamento do superendividamento de pessoas físicas. Revista de Direitos do Consumidor. São Paulo: RT, v. 17, n. 65, p. 63-113, jan. – mar. 2008

6 SCHMIDT NETO, André Perin. Superendividamento do consumidor: conceito, pressupostos e classificação. In: MARQUES, Cláudia Lima (Coord.). Revista de Direito do Consumidor. São Paulo: RT, n. 71, jul.-set., 2009, p. 26

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