3 METODOLOGIA 3.1 Marco teórico
4.1 Efeitos positivos da terceirização irrestrita
Em 2015, o IBGE realizou pesquisa a respeito dos aspectos trabalhistas no Brasil. Um de seus questionamentos apontou que, na época, 20% dos trabalhadores nacionais eram contratados de forma indireta (por locadora de mão de obra ou intermediador). Dessa porcentagem, 30,4% eram empregados de empresas terceirizadas. Porém, um dado que chama a atenção é o grau de satisfação desses trabalhadores com as condições de trabalho encontradas frente aquilo que foi pactuado: 70,7% declararam-se satisfeitos.
É notório que o modelo de contratação intermediária movimentou o mercado de trabalho brasileiro e estes números figuravam, até a data da pesquisa, a realidade de empregados nas atividades-meio de empresas. Setores como a segurança, limpeza e conservação eram os mais beneficiados.
A decisão recente do STF sobre a constitucionalidade da terceirização irrestrita, ou seja, abrangente às atividades-fim das empresas, fez com que o Brasil entrasse num ramo que já tem muita força nos países mais desenvolvidos, como Estados Unidos e Inglaterra, usuários desse modelo de prestação de serviços em seus ordenamentos jurídicos.
De fato, a decisão, que foi por muito tempo resistida, contribui para uma geração ascendente de possibilidades ao trabalhador. Um dos maiores receios seria uma abertura para a reiteração de contratações na modalidade referida para reduzir custos ao empregador e fraudar a legislação trabalhista. Os arts. 4°-A, 4°-B e 5°-A , recentemente alterados pela lei n° 13.429/2017, trazem uma série de requisitos substanciais para o efetivo funcionamento regular de uma prestadora de serviços.
O art. 9°, caput, da Lei n° 6.019/74 diz ainda que “o contrato celebrado pela empresa de trabalho temporário e a tomadora de serviços será por escrito, ficará à disposição da autoridade fiscalizadora no estabelecimento da tomadora de serviços”, ou seja, a possibilidade de fiscalização de possíveis irregularidades é ainda maior com a inovação legislativa.
Na Arguição de descumprimento de preceito fundamental 324/DF, a Procuradoria-Geral da República manifestou-se a respeito dos possíveis impactos da terceirização irrestrita na sociedade e no ambiente jurídico (fl.10): “Terceirização da atividade-fim continua reputada como ato de fraude à legislação trabalhista, instrumento voltado a afastar aplicação das normas imperativas de proteção ao trabalhador, equiparável à comercialização de mão de obra, razão pela
qual é considerada prática ilícita (CLT, art. 9°). Terceirizar atividades finalísticas esvazia o valor social da livre iniciativa (CR, art. 1°, IV) e reduz empresas a mero instrumento de lucro, ao liquidar diversas funções sociais que a Constituição atribui ao capital produtivo (arts. 5°, XXIII, e 170, III), entre as quais a de promover emprego com proteção social eficaz (art. 7°) na atividade-fim empresarial, para permitir pleno gozo dos direitos fundamentais sociais. ”
É interessante analisar que o desejo, ao elaborar tal inovação não é esvaziar o valor social da livre iniciativa e tampouco tornar as empresas em meras fontes de lucro sobre uma mão-de-obra menos onerosa. Diferentemente do modelo de multiterceirização europeu (que tem uma pessoa jurídica ficta como tomadora de serviços e todos os trabalhadores da organização terceirizados), o que se pretende é a possibilidade de adicionar ao ambiente de trabalho, ainda que se refira a atividade principal, trabalhadores terceirizados de empresas que tenham especialização no serviço em questão.
Ainda sobre as atividades realizadas, Carla Teresa Martins traz a seguinte definição para atividade-fim: “aquela que se encaixa como essencial na finalidade para a qual a empresa foi constituída, coincidindo com seu objetivo social. São, portanto, as atividades principais, nucleares, desenvolvidas pelo prestador de serviços. ” (ROMAR, Carla Teresa Martins, 2014, p. 116)
A título de exemplo, tem-se a possibilidade de uma indústria automobilística contratar funcionários exclusivamente para a montagem de câmbios; uma fabricante de instrumentos musicais contratar trabalhadores terceirizados para o tratamento das madeiras utilizadas. As citadas opções já são utilizadas em outros países, fato que gera empregos nas mesmas condições dos trabalhadores vinculados ao tomador e otimiza a produção.
O que a decisão não modifica e a lei garante é que não pode haver subordinação direta e pessoalidade entre tomador e empregado da fornecedora de mão-de-obra. As possibilidades de fiscalização, como já citadas, são inúmeras e eficientes. Destaca-se para análise os seguintes julgados:
“TERCEIRIZAÇÃO LÍCITA. SUBORDINAÇÃO JURÍDICA À EMPRESA PRESTADORA DE MÃO DE- OBRA. VÍNCULO DIRETO COM O TOMADOR DOS SERVIÇOS. IMPOSSIBILIDADE. Provada a subordinação jurídica à empresa fornecedora de mão-de-obra e não ao tomador, inexiste fraude na contratação, descabendo o reconhecimento do vínculo empregatício com esse último. Apelo obreiro improvido.” (TRT-1 - RO: 00002796220135010006 RJ, Relator: Rosana Salim Villela Travesedo, Data de Julgamento: 08/04/2015, Décima Turma, Data de Publicação: 28/04/2015).
“TERCEIRIZAÇÃO LÍCITA. SERVIÇOS RELACIONADOS À ATIVIDADE-MEIO DO BANCO. AUSÊNCIA DE SUBORDINAÇÃO DIRETA DA OBREIRA AO TOMADOR DOS SERVIÇOS. Verificado que a trabalhadora executava atividades meramente burocráticas concernentes à atualização cadastral, prestação de informações, baixa de gravames de veículos e cancelamento de cartões em virtude de perda, roubo ou extravio, sem envolver venda de produtos, concessão
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|OS LIMITES DA TERCEIRIZAÇÃO NO ATUAL CONTEXTO SOCIALde empréstimos, cobranças ou negociações de dívidas dos clientes dos bancos, bem como que não estava diretamente subordinada aos prepostos do tomador dos serviços, reputa-se lícita a terceirização da mão-de-obra.” (Processo: RO - 0000738-92.2014.5.06.0005, Redator: Ana Catarina Cisneiros Barbosa de Araujo, Data de julgamento: 15/11/2017, Quarta Turma, Data da assinatura: 20/11/2017)
Fica clara a percepção de que, a abertura à nova modalidade de terceirização traz como um de seus requisitos primordiais a observância da boa-fé objetiva nas contratações, princípio basilar também no Código Civil (art. 187 CC/02) e contido no Enunciado n° 4 da I Jornada de Direito do Trabalho. Porém, é de se destacar que a Justiça do trabalho tem capacidade ímpar para a análise de possíveis ameaças ou lesões aos direitos trabalhistas, como observa-se nos julgados apresentados.
Outro receio superado com o decisum do STF era o da possível supressão de contribuição previdenciária para os prestadores de serviço, ato que afrontaria o art. 7°, XXVIII da CFRB/88. Recente alteração da lei n° 8.212/91 pôs fim ao temor. Leia-se: “Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: I - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa.”
É importante ressaltar que as normas jurídicas precisam atender e se adequar às realidades sociais do país, caso contrário correm o risco de serem válidas, porém ineficazes.
Sobre o tema, diz Miguel Reale em sua obra “Lições preliminares de Direito”: “A eficácia se refere, pois, à aplicação ou execução da norma jurídica, ou por outras palavras, é a regra jurídica enquanto momento da conduta humana. A sociedade deve viver o Direito e como tal reconhecê-lo. Reconhecido o Direito, é ele incorporado à maneira de ser e de agir da coletividade.
Tal reconhecimento, feito ao nível dos fatos, pode ser o resultado de uma adesão racional deliberada dos obrigados, ou manifestar-se através do que Maurice Hauriou sagazmente denomina “assentimento costumeiro”, que não raro resulta de atos de adesão aos modelos normativos em virtude de mera intuição de sua conveniência ou oportunidade. ” (REALE, Miguel, 2002, p. 91).
Depreende-se que, as normas precisam vislumbrar a realidade para uma real efetividade. A ampliação da terceirização já era querida e levada a discussão há bastante tempo no país, conforme mostra a pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) em 2004 a respeito do PL 4330/04.
se com o tema e propôs estudos e orientações em âmbito mundial. Observou-se que terceirização de mão de obra vem tomando força em vários países, atendendo, assim, à evolução do mercado laboral em novas modalidades, com a finalidade também de crescimento econômico frente a modernização tecnológica.
A Organização recomendou, em 2017, que fosse observada, além da flexibilidade, a segurança aos direitos do trabalhador, a chamada “flexicurity”, pois são inevitáveis, infelizmente, as possibilidades de fraude à legislação. Atento a isso, o Supremo Tribunal Federal, decide também pensando na modernização da legislação com vistas a adaptar o país às transformações iminentes, sem deixar de assegurar que o trabalhador será respeitado social e legalmente, valorizado por suas atividades e abre possibilidades para novas formas de atuação.
4.2 EFEITOS NEGATIVOS DA TERCEIRIZAÇÃO IRRESTRITA