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CAPÍTULO II — O AGIR MORAL NO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

2. Conteúdos e objetivos

2.1. Conhecimentos a adquirir e capacidades a desenvolver

A noção de competência foi introduzida na ação educativa após a publicação do Decreto-Lei n.º 6/2001200, de 18 de Janeiro, que estabeleceu os princípios orientadores da organização e da gestão curricular do ensino básico. Este diploma legal, retificado a 28 de fevereiro seguinte201, abriu caminho à publicação do «Currículo nacional do ensino básico: competências essenciais»202, que foi adotado como referência central para o desenvolvimento do currículo do ensino básico, a partir do ano letivo 2001/2002. Duas são as suas finalidades fundamentais: organizar o ensino a partir da conjugação de

competências gerais, transversais e específicas e estruturar um conjunto de experiências de

aprendizagem a proporcionar aos alunos, para desenvolverem essas competências. O Governo de então, mais não fez do que seguir a tendência europeia, com fundamento no quadro europeu de competências essenciais que, em vários países, se tornou um elemento determinante na reforma das políticas educativas203.

Na sequência da alteração legislativa, quatro anos volvidos, a Conferência Episcopal Portuguesa emanou o documento «Educação Moral e Religiosa Católica: um valioso contributo para a formação da personalidade», com o fim de estabelecer as bases para a reorganização do ensino moral e religioso católico. O número 6 deste documento assinala a necessidade de rever e enriquecer os Programas e materiais didáticos de apoio à disciplina, de acordo com as alterações introduzias no sistema de ensino português204. No ano seguinte a Comissão Episcopal da Educação Cristã faz publicar o Programa de Educação Moral e

Religiosa Católica - Ensinos básico e secundário205, perfeitamente adaptado às novas exigências do sistema educativo, interpretadas pelo próprio texto como profundas e significativas no âmbito do processo de ensino e aprendizagem, pelos seguintes motivos:

200

Cf. Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro, in Diário da República, I Série-A, 15 (2001) 258-265. Este Decreto-Lei sofreu uma alteração, em outubro de 2002, sem afetar, no entanto, a questão que estamos a tratar: cf. Decreto-Lei n.º 209/2002, de 17 de outubro, in Diário da República, I Série-A, 240 (2001) 6807- 6810.

201

Cf. Declaração de Retificação n.º 4-A/2001, de 28 de fevereiro, in Diário da República, I Série-A, 50 (2001) 1122-(4)-1122-(7).

202

CF. ABRANTES, Paulo (coord.) Currículo Nacional do Ensino Básico. Competências Essenciais, Lisboa: Ministério da Educação, Departamento da Educação Básica, 2001.

203

BATISTA, Susana, O papel da avaliação na redistribuição de competências entre atores educativos -

Contributos de reflexão a partir do caso português, in AA.VV., III Colóquio Luso-Brasileiro de Sociologia da Educação – “Problemas contemporâneos da educação no Brasil e em Portugal: desafios à pesquisa”,

Rio de Janeiro: [s. n.], 2012, 9.

204

Cf. CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Educação Moral e Religiosa Católica. Um Valioso

Contributo para a Formação da Personalidade, Lisboa: Secretariado Geral da Conferência Episcopal

Portuguesa, 2006, 6.

205

Cf. COMISSÃO EPISCOPAL DA EDUCAÇÃO CRISTÃ, Programa de Educação Moral e Religiosa

«Desde logo, a relevância dada à noção de competência (conceito- chave que remete para uma mudança não apenas terminológica mas da maneira como o ensino e a aprendizagem se organizam), [que] veio colocar novos desafios ao modo como são concebidos os programas, como as escolas se organizam, como se avaliam os processos e as estruturas e à forma como os professores são chamados a orientar o sucesso educativo dos seus alunos»206.

O programa elaborado pela Comissão Episcopal da Educação Cristã teve a finalidade de estabelecer as competências a desenvolver no âmbito da disciplina; introduzir recursos e estratégias de ensino apropriadas às crianças, adolescentes e jovens, com uma linguagem próxima da utilizada pelas restantes disciplinas; estabelecer pontos de contacto interdisciplinares, entre outros. Nos anos seguintes, a partir deste documento programático, foram elaborados os Manuais e Cadernos dos Alunos dos ensinos básico e secundário.

Volvidos dez anos, o «Currículo nacional do ensino básico: competências essenciais» foi revogado, pelo Despacho n.º 17169/2011, de 23 de dezembro que o critica duramente, culpando-o por ser um documento nocivo ao ensino em Portugal e por sobrepor o desenvolvimento de competências à aquisição de conhecimentos, nos seguintes termos:

«O documento insere uma série de recomendações pedagógicas que se vieram a revelar prejudiciais. Em primeiro lugar, erigindo a categoria de «competências» como orientadora de todo o ensino, menorizou o papel do conhecimento e da transmissão de conhecimentos, que é essencial a todo o ensino. Em segundo lugar, desprezou a importância da aquisição de informação, do desenvolvimento de automatismos e da memorização. Em terceiro lugar, substituiu objetivos claros, precisos e mensuráveis por objetivos aparentemente generosos, mas vagos e difíceis, quando não impossíveis, de aferir. Dessa forma, dificultou a avaliação formativa e sumativa da aprendizagem»207.

O mesmo Despacho opõe-se a que o conceito de competência, introduzido no sistema de ensino em 2001, continue a abranger a totalidade dos propósitos da aprendizagem dos alunos. Em alternativa determina que se use o termo objetivos de aprendizagem, subdivididos em conhecimentos a adquirir e capacidades a desenvolver. O texto é extremamente direto e conciso:

«As competências não devem ser apresentadas como categoria que engloba todos os objetivos de aprendizagem, devendo estes ser claramente decompostos em conhecimentos e capacidades. Os conhecimentos e a sua aquisição têm valor em si,

206

Ibidem, 16.

207

independentemente de serem mobilizados para a aplicação imediata»208.

No ano seguinte, o Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de Julho, veio formalizar a revisão curricular e estabelecer os princípios orientadores da organização e da gestão dos currículos, da avaliação dos conhecimentos e das capacidades a adquirir e a desenvolver pelos alunos dos ensinos básico e secundário, consagrando as noções conhecimentos a

adquirir e capacidades a desenvolver209. A alteração do quadro normativo começou a produzir efeito no ano 2012/2013, em que teve início o segundo ano do nosso mestrado, bem como a Prática de Ensino Supervisionada associada. Durante as sessões do Seminário de Acompanhamento da Prática de Ensino Supervisionada debatemos estes assuntos e chegámos à conclusão de que a alteração legislativa de 2012 não se circunscreve a uma simples transformação lexical do ordenamento jurídico que incumbe à educação. Na verdade, na articulação dos conteúdos a aprender e dos objetivos e metas curriculares a atingir, está uma forma completamente diferente de entender o processo de ensino e aprendizagem, com base em políticas que afetam diretamente o currículo nacional. Efetivamente, se o Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro, o definia como «conjunto de aprendizagens e competências a desenvolver pelos alunos»210, agora, a nova legislação, afirma:

«Entende-se por currículo o conjunto de conteúdos e objetivos que, devidamente articulados, constituem a base da organização do ensino e da avaliação do desempenho dos alunos»211.

O objeto do currículo nacional deixou de ser definido com base em aprendizagens a realizar e competências a desenvolver pelos alunos, para mobilização imediata; e passou a constituir-se como um conjunto de conteúdos que devem ser aprendidos pelos alunos para atingir determinados objetivos e metas curriculares fixadas para cada disciplina.

Por conseguinte, ainda durante o ano de 2012, o Ministério da Educação e Ciência definiu metas curriculares para as várias disciplinas do currículo nacional212, as quais

208

Ibidem.

209

No primeiro capítulo, das disposições gerais, no n.º 1 do artigo 1.º, sobre o objeto e âmbito do documento legal, encontramos o propósito deste Decreto-Lei: «O presente diploma estabelece os princípios orientadores da organização e da gestão dos currículos dos ensinos básico e secundário, da avaliação dos conhecimentos a adquirir e das capacidades a desenvolver pelos alunos e do processo de desenvolvimento do currículo dos ensinos básico e secundário»: Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho, in Diário da República, I Série, 129 (2012) 3477.

210

Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro, in Diário da República, I Série-A, 15 (2001) 259.

211

Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho, in Diário da República, I Série, 129 (2012) 3477.

212

Foram publicadas e estão disponíveis na página de Internet do Ministério da Educação e Ciência, em http://www.dge.mec.pt/index.php?s=noticias&noticia=396, as metas para as disciplinas de Português (1.º, 2.º e 3º ciclos do ensino básico); Matemática (1.º, 2.º e 3º ciclos do ensino básico); Tecnologias de

estabelecem as aprendizagens essenciais a realizar pelos alunos, em cada um dos anos de escolaridade ou ciclos do ensino básico. Estas constituem-se como um referencial para os professores, a fim de encontrarem os meios necessários para que os alunos desenvolvam as capacidades e adquiram os conhecimentos previamente estabelecidos, conforme orientações do Despacho n.º 5306/2012:

«A definição destas metas curriculares organiza e facilita o ensino, pois fornece uma visão o mais objetiva possível daquilo que se pretende alcançar, permite que os professores se concentrem no que é essencial e ajuda a delinear as melhores estratégias de ensino»213.

A disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica não foi contemplada neste plano do Ministério, dado que a sua orientação não depende do Estado, mas da Conferência Episcopal Portuguesa. Esta confiou à Comissão Episcopal da Educação Cristã a revisão do Programa da disciplina, de acordo com o Decreto-Lei n.º 139/2012, mas ainda não se encontra concluída.

Portanto, ao fazermos a planificação das nossas lecionações, tivemos em mãos, como base de trabalho, o Programa de Educação Moral e Religiosa Católica - Ensinos

básico e secundário, publicado em 2007. Contudo, dado que na Escola Básica Dr.

Francisco Sanches as planificações para o ano letivo 2012/2013 se processaram segundo a política educativa mais recente, a nossa planificação procede de uma adaptação do Programa referido, segundo os conceitos introduzidos e legitimados pelos novos textos legislativos. O processo foi trabalhado nas sessões do Seminário de Acompanhamento da Prática de Ensino Supervisionada, seguindo as indicações da sua orientadora científica.

Assim, na planificação das lecionações adotámos os conteúdos propostos no Programa da disciplina de 2007. Não fizemos referência às competências ou operacionalização das mesmas. Estas surgem como objetivos, divididos em conhecimentos

a adquirir e capacidades a desenvolver. Cabe-nos referir, ainda, que as nossas opções se

inserem nitidamente no espírito do legislador quando afirma que: «o currículo nacional deve definir os conhecimentos e as capacidades essenciais que todos os alunos devem adquirir e permitir aos professores decidir como ensinar de forma mais eficaz, gerindo o currículo e organizando da melhor forma a sua atividade letiva»214.

Informação e Comunicação (7.º e 8.º anos de escolaridade); Educação Visual (2.º e 3º ciclos do ensino básico); Educação Tecnológica (2.º ciclos do ensino básico); Ciências Naturais (5.º, 6.º, 7.º e 8.º anos de escolaridade); Físico-Química (3º ciclos do ensino básico); História e Geografia de Portugal (2.º ciclos do ensino básico); e Geografia (7.º e 8.º anos de escolaridade).

213

Despacho n.º 5306/2012, 2 de abril, in Diário da República, II Série, 77 (2012) 13952.

214