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CAPÍTULO II — O AGIR MORAL NO EXERCÍCIO DA CIDADANIA

2. Ética, liberdade e responsabilidade

2.3. Escolhas: o que posso e o que devo

Diariamente somos confrontados com a necessidade de tomar decisões. Mesmo as crianças são quotidianamente confrontadas com situações em que têm de optar e decidir.

123

Ibidem, 29.

124

Cf. THEMUDO, Marina, “Solipsismo. Viagens de Wittgenstein à volta de uma questão”, in Revista

Filosófica de Coimbra, 1 (1992) 86.

125

Cf. LÉVINAS, Emmanuel, Totalidade e infinito, Lisboa: Edições 70, 1980, 30.

126

«O acolhimento do outro pelo mesmo, de outrem por mim, produz-se concretamente como impugnação do mesmo pelo outro, isto é, como a ética que cumpre a essência crítica do saber»: LÉVINAS, Emmanuel,

Totalidade e infinito, Lisboa: Edições 70, 1980, 30.

127

Cf. COMISSÃO EPISCOPAL DA EDUCAÇÃO CRISTÃ, Caminhos de encontro, Educação Moral e

Não podem em simultâneo, por exemplo, estar no bar e no recreio; jogar futebol e basquetebol; correr e jogar à macaca. Estamos a pensar, obviamente, nas crianças de faixa etária equivalente aos alunos da turma do nosso estágio, do 5º ano do ensino básico, os quais mostraram saber que a opção por uma realidade implica necessariamente preterir outras.

Aurelio Fernández considera que Epicleto foi provavelmente o primeiro filósofo a enunciar o grande princípio da moral, ou regra de ouro: «Há que fazer o bem e evitar o mal»128. A liberdade verdadeira cumpre-se apenas na medida em que o ser humano realiza o bem. A liberdade consiste na capacidade que temos de poder fazer o mal, mas decidimos, por um lado, não o fazer e, por outro lado, escolhemos fazer o bem129.

O humanismo levinasiano é tematizado sob as categorias de bem e bondade. Dizer que o outro é bondade significa ultrapassar o puramente visível, por referência ao transcendente, ao ser, dado que para o autor, a bondade ultrapassa qualquer forma de presença130.

O cristão usufrui da liberdade, como qualquer ser humano, no entanto, para ele, a verdadeira liberdade refere-se à capacidade de afirmar e amar o bem, que é o objeto da sua vontade livre. A afirmação paulina «Posso fazer tudo, mas nem tudo me convém» (1Cor 6,12), compreende uma certa limitação, ou autolimitação da liberdade, expressa por Emmanuel Lévinas131. Efetivamente, ao definir o que não convém, definimos um limite à nossa possibilidade de escolha. Este conteúdo foi transmitido aos discentes com recurso à canção de Sara Tavares Escolhas, proposta através de um vídeo, composto por imagens ilustrativas dos vários versos, com apoio no texto da página 119 do Manual do Aluno, que reproduz integralmente a letra da referida canção. Nela a autora diz:

«Sei que posso fazer tudo, mas nem tudo me convém. Tenho liberdade p’ra viver a minha vida, mal ou bem. Sei que posso fazer tudo, mas nem tudo me convém. O que escolho fazer hoje, vou vivê-lo amanhã»132.

Este recurso pareceu-nos extremamente adequado, porque a autora, no exercício da liberdade, no ato de fazer escolhas, apela ao sentido de responsabilidade. Ao mesmo tempo, evoca as consequências que as escolhas de cada um podem ter para si e para os outros.

128

Cf. FERNÁNDEZ, Aurelio, Compendio de Teología Moral, Madrid: Ediciones Palabra, 1999, 195.

129

Cf. Ibidem, 1999, 98.

130

ARNÁIZ, Graciano, Emmanuel Lévinas: Humanismo y ética, Madrid: Editorial Cincel, 1988, 157-158.

131

Cf. LÉVINAS, Emmanuel, Totalidade e infinito, Lisboa: Edições 70, 1980, 30.

132

COMISSÃO EPISCOPAL DA EDUCAÇÃO CRISTÃ, Caminhos de encontro, Educação Moral e

A liberdade ética cristã enquadra-se na perspetiva de uma experiência comunitária, que implica uma responsabilidade social. As escolhas livres não devem ser egoístas, mas solidárias. Em nosso entender, o texto neotestamentário que melhor traduz a ética cristã é o juízo final, profetizado nas palavras do próprio Filho de Deus, no capítulo 25 do evangelho de Mateus:

«31Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há de sentar-se no seu trono de glória. 32Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. 34O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. 35

Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, 36estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’ 37

Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? 38Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? 39E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar- te?’ 40E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’ 41Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! 42Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, 43era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ 44Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ 45Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’ 46Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna» (Mt 25,31-46).

Na ótica deste texto, todo o ser humano dotado de liberdade é responsável pelos seus atos, dos quais deverá prestar contas perante o «Filho do Homem», em julgamento, após a morte física. Jesus, citado por Mateus, deixa claro que todas as escolhas implicam consequências, que devem ser suportadas pelo sujeito em forma de retribuição: glória ou castigo. A responsabilidade é, pois, um traço da humanidade, uma característica intrínseca à natureza humana.

Mas a responsabilidade que emerge do texto não se circunscreve à retribuição que recai sobre o sujeito que age ou não em benefício do próximo. O agir moral torna o sujeito também responsável pelo próximo, com o qual Jesus se identifica de forma pessoal. Na pessoa de todos e de cada um dos que sofrem e dos excluídos socialmente, é Ele o faminto, o sedento, o peregrino, o nu, o doente e o prisioneiro. Neste sentido, o próximo, em

particular, e a comunidade, em geral, tornam-se o verdadeiro objeto moral, não podendo jamais serem indiferentes para o sujeito.

Seguindo o pensamento proposto por Mateus, a omissão penaliza o sujeito na retribuição final, por não prestar a assistência esperada; e o objeto é igualmente penalizado, no hoje da história, porque mantém a sua situação de sofrimento e exclusão. Ao contrário, na ação em benefício do próximo, o sujeito é recompensado com a glória escatológica e o objeto é beneficiado por ter melhorado a sua ordem. Portanto, o agir moral como opção livre pelo bem, humaniza o sujeito e o objeto da ação. Torna o sujeito sensível ao outro e responsável por ele. Apela à comunhão com cada realidade, e faz acreditar que é possível abandonar tudo aquilo que discrimina e desumaniza a vida.