A museologia faz dos museus suas casas do pensar e do imaginar. Hoje, mais afastada, no recluso universo acadêmico que a confere a legitimação das ciências fragmentadas, a Museologia ainda recorre aos museus para se reintegrar às sociedades, em suas coleções de experiências infinitas que produzem pensa-mento por meio do delírio das coisas, já que museu não é coisa só de gente grande.
Com efeito, a desigualdade na produção e circulação do conhecimento, a ausência de recursos e a produção histórica de silenciamentos, longe de configurarem um atraso epistêmico, levam à invenção de novos usos da imaginação e do pensamento nas periferias pós-coloniais, produzindo – ao menos nos últimos 200 anos ou desde a colonização – diferentes e potentes museologias. Tal lógica da desigualdade inerente à produção de saberes ligados aos museus e a partir deles tem levado a uma acentuada divisão social do tra-balho, por vezes reiterada pelos órgãos supranacionais como o ICOM e a Unesco. Nos contextos subalternos, a imaginação é, portanto, a via para se escapar da dominação estrutural por meio da Utopia, como a saída necessária para a reconfiguração política do campo da cultura e do patrimônio.
As coisas-delírio que os museus apresentam, com poesia e utopia, provêm da imaginação popular de quem não faz necessariamente os museus, mas de quem se faz nos museus, ao se re-imaginarem nos museus ou por meio deles. Desse modo, o pensamento museológico é pensamento em trânsito, produzido no movimento de idas e voltas dos museus às pessoas, das pessoas aos museus... Ao fazerem delirar, os museus do presente escrevem novas narrativas imaginadas que permitem “escutar a cor dos passarinhos” e experimentar a utopia de um futuro melhor.
Eu sou porque nós somos.
Somos todos juntos. Pensamos todos juntos, e podemos pensar um futuro ainda mais promissor para os museus e a Museologia em nosso país. Basta imaginar. Não como no devaneio aéreo, mas na consciência livre de quem tem esperança na transformação por meio da prática cultural engajada e socialmente compro-metida. ...Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Lygia Martins Costa, Nair de Moraes Carvalho, Waldisa Rússio, Ulpiano Bezerra de Meneses, Tereza Scheiner, Mário Chagas, Heloisa Costa, Yára Mattos, Maria Cristina Oliveira Bruno, Maria de Lourdes Parreiras Horta, Ivan Coelho de Sá, Maria Margaret Lopes, Anaildo Bernardo Baraçal, Cícero de Almeida, Marília Xavier Cury, Marcelo Araújo, e tantas outras e outros que pensam e imaginam a Museologia no Brasil:
Eu sou porque nós somos.
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