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REFLEXÕES FINAIS

No documento de museus no Brasil (páginas 47-52)

Não há como deixar de tratar o incêndio do Museu Nacional/UFRJ como uma tragédia de proporções gigantescas que vai reverberar por muitas décadas. “Ficou feio” para o país. Como foi possível a nação bra-sileira deixar que a sua principal instituição científica e cultural, tão intimamente ligada com a sua própria história, não tivesse as mínimas condições de proteção? Não se trata de um incêndio de mais uma institui-ção científica e cultural, algo que por si só, já seria lamentável. Estamos falando do Museu Nacional, um dos berços da nossa nação!

Apenas para colocar a noção da importância dessa instituição em uma perspectiva maior: o Museu Nacional é mais antigo do que o American Museum of Natural History (Nova Iorque) e o British Museum

78 KELLNER, A. W. A. A reconstrução do Museu Nacional: bom para o Rio, bom para o Brasil. Ciência e Cultura, v. 71, n. 3, 2019, pp. 4-5.

(Londres), fundados em 1869 e 1881, respectivamente. Talvez a extensão da comoção nacional e internacio-nal79 vá servir para alertar o poder público.

Existem outros museus em estado até mesmo pior do que o vigente no Museu Nacional antes da tra-gédia. Foram investidos bilhões em estádios para olimpíadas e campeonatos de futebol, mas quase nada sobrou para o patrimônio histórico e cultural do país, refletindo um inexplicável abandono por parte do poder público. O que está faltando para uma ação mais efetiva visando aporte substancial de recursos para a proteção da memória do país? Não eram segredo as absurdas carências da instituição e o risco que ela cor-ria, fato repetidas vezes divulgado na mídia.80

Mesmo assim, bem no fundo, ninguém imaginava viver essa situação. Não há como estar preparado, nunca se está. Essa ferida é daquelas que demoram muito para cicatrizar, e a marca vai ficar para sempre.

Uma marca que o país terá que carregar por toda a sua história.

Sem esquecer do passado, o Brasil tem que dar uma resposta no sentido de mitigar os efeitos dessa tragédia! E apenas existe uma: a reconstrução e a recuperação do Museu Nacional o quanto antes. Não será o mesmo museu, mas uma instituição diferente. Existe um imenso clamor da comunidade internacional, inclusive com a disposição em contribuir na questão da recomposição do acervo. Porém, o Brasil tem que merecer essas doações.

79 ZAMUDIO, K. R. et al. Lack of science support fails Brazil. Science, v. 361, n. 6.409, 2018, pp. 1.322-1.323.

80 GRANDELLE, R. “Só temos verba para medidas paliativas”, diz diretor do Museu Nacional. O Globo, Sociedade, 2018. Diponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/

so-temos-verba-para-medidas-paliativas-diz-diretor-do-museu-nacional-22412829. Acesso em: 22 jul. 2019.

Fotos: A. Kellner.

Figuras 2 e 3 - Fachada do Museu Nacional, com restos de madeira queimada entre duas sapatas de concreto, base de uma cober-tura que está sendo instalada. Na caixa vermelha, uma planta. Detalhe da fachada destacada na foto 3, mostrando um planta que está crescendo no local

A única forma é fazer com que o palácio ofereça as melhores condições de segurança para pessoas (visitantes e técnicos) e coleções. Entre as boas novas está o fato de que a equipe do Museu Nacional, ape-sar de bastante ferida pelo ocorrido, não apenas possui a capacidade técnica necessária para a reconstru-ção da instituireconstru-ção, mas também tem a total consciência de sua responsabilidade nesse processo. Os exce-lentes resultados da equipe de resgate são um exemplo disso.

Resistir a adversidade e se reinventar. Como a pequena planta, que cresce agora em um local de onde, até pouco tempo atrás, subiam as labaredas (Figuras 2 e 3). Ao mesmo tempo em que se preo-cupa com recomposição de acervo e com a obtenção das estruturas físicas que a nova realidade impõe, o Museu Nacional terá que repensar a sua relação com a sociedade brasileira. Essa iniciativa já estava em curso e era um dos enfoques da nova gestão que assumiu a instituição em fevereiro de 2018. Essa refle-xão, à qual a data do bicentenário convidava, passou a ser agora imperativa. Como já foi apresentado anteriormente:81

Um museu que não dialoga com a sociedade está condenado à extinção...

...uma sociedade que não investe em seus museus já está, pelo menos em parte, culturalmente extinta.

AGRADECIMENTOS

Gostaria de iniciar os meus agradecimentos destacando a atenção e o carinho que Marcelo Mattos Araújo, antigo presidente do Ibram, teve para com o Museu Nacional/UFRJ antes e depois de 2 de setem-bro de 2018. Por diversas vezes, Marcelo incentivou e procurou intermediar contatos entre a direção desta instituição bicentenária com o governo federal. Depois da tragédia, foi ele quem sugeriu que o Museu organizasse uma exposição na Casa da Moeda (primeira sede da instituição), o que acaba de ocorrer com a inauguração de uma mostra sobre a pesquisa realizada na Antártica (Quando nem tudo era gelo). Tam-bém agradeço à equipe do Ibram pela organização do seminário 200 anos de museus no Brasil: Desafios e Perspectivas, momento muito agradável, em que profissionais de diferentes instituições museais do país puderam trocar ricas experiências. Agradeço aos colegas Luiz Fernando Dias Duarte, Ronaldo Fernandes, Marina Bento Soares e Petra Knebel por sugestões e revisão do texto. Também agradeço à Lilian Medeiros Baldez e à Ana Lourdes de Aguiar Costa, que pacientemente esperaram pela conclusão deste texto para o presente volume. Ambas foram muito generosas e compreensivas neste momento delicado pelo qual passa a instituição, resultando em alguns prazos vencidos para a entrega do artigo.

81 KELLNER, A. W. A. Museus e a Divulgação Científica no Campo da Paleontologia. Anuário do Instituto de Geociências - UFRJ, v. 28-1, 2005, pp. 116-30.

Depois do episódio, diversas pessoas, algumas empresas, órgãos governamentais, embaixadas e consulados de outros países entraram em contato prestando suporte moral e material para a instituição, um número (felizmente!) muito grande para ser citado de forma individual aqui: a todos, muito obrigado em nome da instituição!

Por último, agradeço aos colegas e servidores do Museu Nacional/UFRJ, que têm se esmerado para dar continuidade às atividades da instituição.

O MUSEU NACIONAL VIVE!

REFERÊNCIAS

DANTAS, R. M. M. C. Museu Nacional: 200 anos de história. 2019 (este volume).

GRANDELLE, R. “Só temos verba para medidas paliativas”, diz diretor do Museu Nacional. O Globo, Sociedade, 2018. Disponível em:

https://oglobo.globo.com/sociedade/so-temos-verba-para-medidas-paliativas-diz-diretor-do-museu-nacional-22412829. Acesso em: 22 jul. 2019.

KELLNER, A. W. A. . A reconstrução do Museu Nacional: bom para o Rio, bom para o Brasil. Ciência e Cultura, v. 71, n. 3, 2019, pp. 4-5.

. Exposições de paleontologia. III Encontro Sergipano de Paleontologia (ESPALEO), Aracaju, 2004, pp. 17-23.

. Museus e a Divulgação Científica no Campoda Paleontologia. Anuário do Instituto de Geociências - UFRJ, v. 28-1, 2005, pp. 116-30.

LACERDA, J. B. Fastos do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1905.

ZAMUDIO, K. R. et al. Lack of science support fails Brazil. Science, v. 361, n. 6.409, 2018, pp. 1.322-1.323.

“Fez-se uma galeria com

excelentes pinturas”:

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a formação da coleção pública

de pintura estrangeira no Brasil,

do acervo do Museu Nacional à

Academia Imperial de Belas Artes

– Museu Nacional de Belas Artes

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No documento de museus no Brasil (páginas 47-52)