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Solange Ferraz de Lima

No documento de museus no Brasil (páginas 96-104)

Há mais de cem anos, em 1917, o historiador Afonso de Escrag-nole Taunay assumia a direção do Museu Paulista, com a missão de pre-pará-lo para as comemorações do centenário da Independência, em 1922. O museu já era, à essa época, uma instituição referencial na pes-quisa científica nos campos da Zoologia e História Natural. Sua missão era tornar o museu também uma referência para o conhecimento da His-tória do Brasil e, especialmente, fazer cumprir o artigo 3 do decreto de criação do Museu, de 1894 (Decreto no 249, de 26 de julho de 1894):

o museu deveria, além das coleções de ciências naturais, manter uma seção de História Nacional e colecionar documentos referentes ao perí-odo de Independência política.161

Entre 1917 e 1922, Taunay concretizou o essencial referente ao que hoje conhecemos como o eixo monumental, que reune pinturas e esculturas representando cenas e personagens protagonistas do movi-mento de independência e da formação da nação, com destaque para as bandeiras, e os bandeirantes. Embora documentos textuais e mapas também estivessem presentes nas duas primeiras salas que montou em 1917, a história nacional, representada expograficamente, tinha como suporte privilegiado a iconografia com predomínio de retratos de vultos da história destinados a serem cultuados e rememorados.

161 BREFE, Ana Claudia. História Nacional em São Paulo: o Museu Paulista em 1922. Anais do Museu Paulista, v. 10-11, 2002-2003, pp. 79-103.

As pinturas e as esculturas encomendadas atendiam ao propósito de narrar a formação da nação por meio do apelo estético. A narrativa cumpria também papel pedagógico importante: ensinava-se por meio dos modelos exemplares representados nas pinturas de temas históricos. Assim, funções celebrati-vas, de culto e pedagógicas concorreram para a formação de um dos mais potentes imaginários em torno da independência do Brasil.

Correspondências trocadas entre Taunay e autoridades do governo, intelectuais e artistas nos dão a medida dos seus esforços. Outras correspondências e relatórios do período dão a conhecer, também, as difi-culdades: necessidades de pequenos reparos no edifício, que naquela altura já completava quase vinte anos, as necessidades de verbas para os projetos expográficos e encomendas, a corrida contra o tempo.

A conjunção de esforços e recursos garantiu que em 1922 o Museu fosse aberto com parte significa-tiva da exposição histórica já montada. A instituição tornou-se, desde então, a tradicional sede das come-morações da Independência do Brasil. Nos cem anos que se seguiram não perdeu essa prerrogativa de lugar de memória da formação da nação brasileira. As pinturas e esculturas de seu acervo tornaram-se matrizes visuais do ensino de história no universo escolar e daí para outros circuitos.

Ao mesmo tempo em que Taunay concretizava seu projeto expográfico, garantiu não só a continui-dade das ações de coleta e formação das coleções de ciências naturais como instituiu prática semelhante na Seção de História, formando coleções de documentos para a pesquisa histórica que dessem lastro para suas criações expositivas e alimentassem outras pesquisas no campo historiográfico. Como aponta Ana Claudia Brefe, Taunay formou um arquivo e ampliou a biblioteca, já idealizando em 1917 uma Brasiliana, alimentada por permutas com a Biblioteca Nacional e outras instituições.162 Ele mesmo foi um dos muitos beneficiados pela formação dessas coleções. Sua obra sobre o bandeirantismo é resultado de uma coleta sistemática de documentos – originais e facsimilares – obtidas graças aos contatos que estabeleceu com instituições brasi-leiras e portuguesas.

Se as pesquisas de Taunay ajudaram no apelo popular que o Museu Paulista gozou ao longo de sua vida centenária, a política de acervo que imprimiu garantiu um caráter epistemológico à História ali produ-zida – pautada pela investigação científica do modo de produção de conhecimento daquele momento e valorizando, sobretudo, fontes textuais, cartográficas e fotográficas para serem mobilizadas por pesquisado-res (e por ele mesmo) na produção de sua história visual.

Ao longo da gestão de Taunay (que durou até 1945) as salas do Edifício-Monumento foram sendo paulatinamente preenchidas com pinturas que tinham sempre como lastro documentação levantada e

162 Ibid. (p. 85).

arquivada por ele. É o caso, já estudado por mim e Vânia Carneiro de Carvalho, das representações pictóricas da São Paulo oitocentista, baseadas em fotografias de Militão Augusto de Azevedo (1993), ou da maquete de São Paulo, ou ainda da série de pinturas sobre as monções e a vida tropeira nos sertões paulistas – objeto de um estudo da professora Maria Aparecida Borrego.

Aliada à sua ação de coleta de documentos para a escrita da história, o Museu Paulista nunca dei-xou de receber “dádivas”, como o diretor denominava as doações feitas por famílias e personalidades de expressão política e econômica. Nesse caso também, eram as boas relações de Taunay e seu trânsito na sociedade paulistana que criavam o vínculo de confiança que sempre ancorou os processos de transferên-cia de bens da vida privada para instituições públicas. A prática initransferên-ciada e legitimada na sua gestão teve continuidade nas seguintes e é assim que o Museu Paulista, até hoje, mantem seu acervo em permanente crescimento. Esse relato evidencia como, no Museu Paulista, a narrativa sobre o passado, na forma de um

“teatro da memória” para citar um texto clássico de Ulpiano B. de Meneses, cumprindo funções celebra-tivas e evocacelebra-tivas, sempre conviveu com a prática historiográfica assentada em coleções formadas siste-maticamente. Como já apontado por Cecília Helena de Salles Oliveira e Ana Claudia Brefe, Taunay estava sintonizado com o seu tempo, e via o Museu Paulista como um centro de pesquisa já que, antes da Uni-versidade se transformar no lugar de excelência da produção de conhecimento, eram os museus e insti-tutos que cumpriam esse papel. Não é por acaso que o decreto de criação da Universidade de São Paulo, de 1934, dá ao Museu Paulista, entendido como um Museu de Arqueologia, História e Etnografia, a con-dição de Instituto Complementar, juntamente com outros institutos renomados centros de pesquisa como o Instituto Butantã e o Instituto Agronômico de Campinas. Em 1939 as colecões de ciências naturais são transferidas para formar o Museu de Zoologia que compartilharia da mesma condição de Instituto Com-plementar.

A integração definitiva à Universidade de São Paulo, em 1963, consolidou o compromisso com a pesquisa e a educação. Em 1990, sob a direção de Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, o Museu Pau-lista torna-se um Museu de exclusivamente de História, especializado no campo da cultura material com foco na sociedade brasileira, com recorte cronologico em que predominam os acervos oitocentistas e do século XX, até 1960. As linhas de pesquisa instituídas no Plano diretor – Cotidiano e Sociedade, História do Imaginário e Universo do Trabalho – alinhavam-se com as tendências da produção da História naquele momento.

Ao privilegiar o campo da cultura material, estabelecia-se também uma aproximação com a Antro-pologia. Essas linhas de pesquisa consideravam, ainda, a vocação do acervo centenário do museu. As

muitas “dádivas” de famílias e as aquisições por compra legaram ao longo do século XX coleções que permitem estudar e entender o espaço doméstico burguês, das salas de visitas à cozinha, e as formas de construção do sujeito social, indo da indumentária ao retrato em variados suportes.

O passado imaginado e materializado em pinturas de temas históricos e as cidades transformadas pelas paisagens urbanas fotográficas alimentam as reflexões para os projetos na linha da História do Imagi-nário. O Universo do trabalho era a linha de pesquisa de menor representatividade no acervo do museu mas o acervo com objetos usados em práticas comerciais e de ofícios urbanos foram ampliados recentemente.

A trajetória do Museu Paulista é formada por continuidades e rupturas nas formas fazer e difundir o conhecimento histórico. As funções celebrativas e evocativas mantiveram-se ativas: o sete de setembro sem-pre superlotou o museu, de forma sursem-preendente. Os desafios começam justamente quando essa memória nacional de acento paulista, cristalizada no imaginário torna-se ela própria, objeto da história.

A produção acadêmica mais recente promoveu uma revisão histórica. A identidade nacional, con-formada pelo discurso expositivo do Edifício-Monumento, como todo processo identitário, precisou ser his-toricizado para, daí ser possível problematizar seu alcance, foi repensada e reavaliadas reverberações, força ideológica, limites, enfraquecimentos. O olhar crítico do presente não podia correr o risco de ser anacrônico.

Nesse sentido, a gestão do professor Ulpiano abriu novas perspectivas de abordagem do museu no edifício-monumento e de sua história centenária. E desde então, o projeto de Taunay, as continuidades e rupturas das gestões seguintes, e as coleções (existentes e as novas) tornaram-se centrais para as pesquisas dos docentes da casa e outros. O primeiro passo para garantir esse perfil de produção de conhecimento his-tórico foi sistematizar, em bases modernizadas, a documentação dos acervos. Assim, ao longo da década de 1990, um grande projeto de reorganização física e documental, contando com a informatização dos dados, foi colocado em andamento.

O primeiro resultado foi a organização, com apoio da Fapesp, do arquivo institucional – o Fundo Museu Paulista e o fundo Museu Republicano Convenção de Itu – abarcando toda a documentação sobre como a instituição evoluiu entre 1894 e 1963 – momento de integração à USP. Organizado, esse arquivo ali-mentou e vem alimentando desde então muitas dissertações, teses e pós-doutorados.

Em outra vertente, o público visitante passou a ser, ele também, objeto de investigação. Na sua livre--docência, a professora Cecília Helena de Salles Oliveira mobilizou as entrevistas realizadas no sete de setem-bro ao longo de três anos 1993 a 1995, para entender a recepção, ou, o imaginário em ação.

A educadora Denise Peixoto tem se dedicado, em sua pesquisa de doutorado, a recuperar as práticas educativas no Museu Paulista desde o início do século XX e assim entender a recepção do objetos e exposições

para o público escolar. Além de receber escolas, o Museu emprestava seus acervos para aulas nas escolas, promovia exposições intinerantes de cunho pedagógico.

Essas pesquisas, aliadas às experiências cotidianas de curadores e dos educadores nas últimas duas décadas tem convergido para uma reflexão mais ampla por parte das equipes do Museu Paulista no que se refere a quais perspectivas de ação adotar na transmissão do conhecimento histórico que vem sendo produ-zido mais recentemente. É preciso levar em conta o que observa Dominique Poulot, em artigo publicado na coletânea organizada pelo Museu Histórico Nacional em 2003 – História Representada, quando afirma que existe uma distância muito grande, ou mesmo uma contradição, entre o que é produzido nos museus de história e no campo historiográfico. Vivenciamos essa situação como um desafio. A aposta na formação de professores, em oficinas abertas, visitas monitoradas, recursos de multimídia serão suficientes?

Hoje vivemos momento semelhante àquele vivido por Taunay há cem anos. Mas os desafios são dis-tintos em vários sentidos. O acervo que nas primeiras décadas do século XX não ultrapassava mais do que algumas centenas de itens, hoje alcança aproximadamente 450 mil itens. O edifício-monumento, com mais de 120 anos, sofreu as marcas do tempo – apresentando problemas nas coberturas e nas fachadas. Devido às infiltrações de água nos forros de muitas salas, especialmente o Salão Nobre, tomamos a decisão de suspender a visitação pública em 2013. Foi uma medida de segurança. Foram feitos escoramentos emer-genciais para garantir a segurança do ambiente e a universidade acelerou o processo de desenvolvimento do projeto de restauro e modernização, que já se encontrava em curso. E nesse momento começaram os desafios.

O primeiro deles foi saber comunicar, especialmente para a universidade, que os acervos não serviam só para exposições, mas também como matéria-prima para a pesquisa e o ensino. Dessa premissa, que pre-cisava ser compartilhada com os dirigentes da universidade, dependia a estratégia de sobrevivência da ins-tituição no período em que o edifício-monumento estivesse sob restauro e modernização. Esse consenso foi finalmente alcançado e, entre 2013 e 2015, foram alugados, adaptados e mobiliados seis imóveis para abrigar acervos, laboratórios e as equipes. Com um projeto de pesquisa da Fapesp, foi adquirido mobiliário especial para reservas técnicas, garantindo melhor acondicionamento e segurança das coleções.

Paralelamente, teve início o planejamento para a transferência dos acervos a partir de experiências nacionais e internacionais. Métodos de controle, localização e logística de saída dos itens foram desen-volvidos, testados e feitos para os 200 metros lineares de documentação textual (300 mil papéis), setenta mil imagens, setenta mil livros e periódicos e mais de trinta e cinco mil objetos. Essas ações se somaram a outras, de caráter público.

O nosso desafio seguinte: deixar claro que o edifício-monumento estava fechado, mas não a institui-ção! Era importante dar visibilidade para as ações do museu. Além de divulgar as atividades de pesquisa e ensino, foram realizadas parcerias para exposições na Pinacoteca do Estado, Sesc Ipiranga, Cidade Universi-tária e Palácio do Governo e oito mostras do acervo em painéis na Esplanada do Parque da Independência, em frente ao edifício-monumento.

Em 2017, firmamos convênio com o Google Cultural Institute para disponibilizar as nossas coleções e promover exposições virtuais. No mesmo ano, estabelecemos parceria com o NeuroMat, ainda com apoio da Fapesp, para a disponibilização do acervo em domínio público no Wiki GLAM Museu Paulista.163 Foram realizadas, também, duas edições da programação cultural “Museu do Ipiranga em Festa”, que ocupa o Par-que da Independência durante o feriado de 7 de setembro.

Em outra frente, o processo de restauração e modernização do edifício-monumento continuou em andamento. Um concurso realizado pela Fundação da Universidade de São Paulo (FUSP) foi o caminho para a seleção da melhor proposta (estudo preliminar) para o desenvolvimento de um projeto arquitetônico executivo que deverá ser finalizado em abril de 2019, o que tornará possível o início das obras até o final do próximo ano.

Além do restauro e adequação completa do edifício histórico às normativas atuais de infraestrutura, acessibilidade, segurança e sustentabilidade, o edifício renovado contará com ampliação de quase 4.000m2. A nova área proporcionará a melhoria dos acessos e fluxos, acolhimento do público, além de facilidades anterior-mente inexistentes no edifício: uma área de exposições temporárias de 1.000m2, um auditório, salas especiais para o trabalho educativo e, ainda, um café e uma loja.

O novo museu é também nosso novo desafio.

Não é exagero dizer que vivemos um momento preocupante no âmbito da gestão da cultura, carente de políticas perenes e estruturantes e com verbas cada vez mais reduzidas. O caso do Museu Paulista não é exce-ção. O edifício-monumento do Ipiranga deverá estar pronto até 2022 para as celebrações do Bicentenário da Independência. O caminho trilhado até agora viabiliza esta meta, mas o Museu precisa do apoio da sociedade e das esferas públicas municipal, estadual e federal.

Há muito trabalho pela frente e temos que obter os recursos para o financiamento do projeto, estimado em mais de R$100 milhões. O Museu já começou a receber patrocínios diretos e por meio da Lei Rouanet, mas é necessário intensificar os apoios públicos e privados e, para isso, estamos em processo de captação de recur-sos pensando não só nas obras de restauro e modernização mas também na sustentabilidade da instituição após 2022.

163 https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipédia:GLAM/Museu_Paulista. Acesso em: 20 jul. 2019.

E o horizonte nos apresenta outro grande desafio: que museu queremos para 2022?

Como garantir, de fato, a aproximação do público com o conhecimento histórico que vem sendo pro-duzido a partir dos acervos coletados e documentados?

Como garantir, na política de aquisição de acervos, formas de documentar não só os objetos que irão dar forma a coleções, mas as motivações desse processo de transferência do privado para o espaço público?

Esses são temas em debate na instituição, e que deverão estar presentes na atualização de nosso Plano Museológico.

Para o bicentenário da Independência, em 2022, queremos reabrir o edifício-monumento inteira-mente renovado e dedicado exclusivainteira-mente às exposições e aos espaços de visitação e contemplação não só da bela arquitetura palaciana mas também do parque em que se localiza. Queremos um museu para todos, plenamente acessível, moderno e atualizado tecnologicamente para promover a reflexão e o conhecimento histórico da diversa e múltipla sociedade brasileira em seus contrastes e particularidades. Nossos acervos, que não pararam de crescer, estarem sob a guarda da universidade nos garante abordagens inovadoras que darão continuidade à formação crítica e cidadã de novas gerações.

Queremos um museu que continue a figurar no coração de todo brasileiro e que nos represente inter-nacionalmente. Como há 100 anos, para atingir essa meta, será necessário estabelecer parcerias, mobilizar esforços para a captação dos recursos e manter ativo o canal de comunicação com a sociedade.

REFERÊNCIAS

BREFE, Ana Claudia. História Nacional em São Paulo: o Museu Paulista em 1922. Anais do Museu Paulista, 2002-2003, v. 10-11, pp.

79-103.

MENESES, Ulpiano B. T. Do teatro da memória ao laboratório da história: a exposição museológica e o conhecimento histórico (fim).

Anais do Museu Paulista, jun.-dez. 1995, v. 3, pp. 83-4.

OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. Museu Paulista da USP: percursos e desafios. Estudos Avançados, v. 25, n. 73, 2011, pp. 229-40.

POULOT, Dominique. Another history of museums: from the discourse to museum-piece. Anais do Museu Paulista. São Paulo, v. 21, n.

1, jan.-jun. 2013, pp. 27-47.

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