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Contextualização

No documento Vox Dei:metáfora(s) da espiritualidade (páginas 185-188)

I. Da Espiritualidade e da Arte

II.3.1. Contextualização

Andrei Tarkovsky, cineasta de origem russa, nascido em 1932 em Zavrozhne, exilado em Itália em 1984 e falecido em 1986 em Paris, constitui-se como o último dos autores a investigar neste capítulo. O objectivo será problematizar, à luz das dimensões simbólica, poética, espiritual e inclusive pictórica no cinema, uma das suas obras fundamentais intitulada A Paixão Segundo Andrei ou, simplesmente, Andrei Rublev (1966), filme sobre o conhecido pintor de ícones, do final da Idade Média quatrocentista do Norte da Europa, Andrei Rublev (c. 1360-1430). A intenção será também a de, através da análise deste filme, tentar perceber a criação artística como um acto de fé, numa época contemporânea cada vez mais dessacralizada, materialista, secular, onde a única salvação parece residir, segundo Tarkovsky, na redescoberta da dimensão espiritual do indivíduo através da realidade artística.

Andrei Rublev é, provavelmente, a única produção cinematográfica no seio do

regime comunista soviético do passado século XX que permitiu o protagonismo de um personagem artístico e histórico, em simultâneo, e que colocou a religião cristã e o misticismo eslavo como elementos constitutivos e estruturantes da identidade russa, características cuja divulgação parece ser contrária à defendida pelo mesmo regime575.

Convirá recuar um pouco no tempo e tentar perceber-se o contexto no qual a produção do filme foi estabelecido e o porquê específico do realizador ter escolhido este pintor como tema para o seu filme. Em 1943, no decurso da 2ª Guerra Mundial, o regime soviético (cuja ideologia era profundamente ateísta) ordena a restauração da Igreja Ortodoxa como instituição nacional, com a intenção de criar uma união favorável entre a população e o Estado durante a guerra em curso. No período pós-guerra, a União Soviética testemunha a legitimação de personagens religiosos como heróis nacionais (Andrei Rublev

574 Andrei TARKOVSKY citado por Nathan DUNNE, “Tarkovsky and Flaubert: The Sacrifice and Saint Anthony”, in Nathan DUNNE, Tarkovsky, Londres, Black Dog Publishing, 2008, p. 300.

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Os seus principais e fervorosos admiradores chamaram-lhe o ‘filme dos filmes’, aludindo ao seu carácter espiritual quase miraculoso, no seio de uma realidade ideológica eminentemente anti-religiosa da U.R.S.S., cf. Robert BIRD,

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é um dos casos a ser recuperado, entre outros, relativos aos primórdios da constituição da nação russa). Simultaneamente, após a morte do ditador soviético José Estaline em 1953, ‘respira-se’ um período de relativa liberdade cultural - conhecido historicamente como

Thaw -, onde as imagens estereotipadas e codificadas do realismo socialista tendem a ser

rejeitadas, reemergindo uma dimensão lírica na arte, na literatura, mas também no cinema. Em 1960, durante a liderança de Nikita Kruschev, por ocasião do 600º aniversário do suposto nascimento de Andrei Rublev, as autoridades fazem uma autêntica campanha nacionalista do autor, traduzida em inúmeras exposições, catálogos e, inclusive, a inauguração de um museu dedicado à sua obra e à dos seus contemporâneos - o Andrei

Rublev’s Museum of Old Russian Art. Todavia, o jovem Tarkovsky, em pleno período final

da sua formação no Instituto do Filme de Moscovo, já conhecia a obra e a importância de Rublev (decerto através do seu pai, o poeta e tradutor Arseni Tarkovsky, que já o mencionara no poema de 1941 My Rus, My Russia, Home, Earth and Mother!)576. Após as celebrações de Rublev em 1960, o actor Vassili Livanov, o realizador Andrei Tarkovsky e o argumentista Andrei Mikhalkov-Konchalovsky reunem-se para conceber um filme sobre a vida e obra do célebre pintor de ícones577. Por compromisso com os estúdios Mosfilm, apresentam uma sinopse, em 1962, a qual foi prontamente aceite. Em Setembro desse mesmo ano, em entrevista concedida a Patrick Bureau para a revista Les Lettres

Françaises, Tarkovsky, no final da conversa e de forma espontânea, fala ao entrevistador

de um projecto que almeja concretizar sobre a vida de um pintor de ícones russo do século XV578; refere não haver muitos documentos sobre a sua existência, e que apenas se conhecem algumas obras, sendo a Trindade do Antigo Testamento (Fig. 85) a única cuja autoria estaria confirmada (visível actualmente na galeria Tretyakov de Moscovo). Esta obra, enaltecida pelos historiadores como uma das expressões possíveis da visão silenciosa espiritual do povo russo, constitui-se como um paradigma icónico da espiritualidade do Norte da Europa medieval, baseada nos ideais de fraternidade, amor e serena santidade. Tarkovsky menciona nessa entrevista que foi ao ver o quadro e ao imaginar a terrível vida

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Cf. idem, p. 18. 577

A ideia parece ter sido sugerida por Livanov que, num primeiro momento, seria o protagonista, mas Tarkovsky excluiu-o aquando da rodagem, devido ao actor estar ocupado com outros projectos. No que diz respeito a Konchalovsky, o argumentista já havia trabalhado com Tarkovsky no guião da sua primeira longa-metragem A Infância de Ivan (1962). 578

Cf. Patrick BUREAU, “Andrei Tarkovsky: I Am For a Poetic Cinema”, (Les Lettres Françaises, nº 943, 13 a 19 de Setembro de 1962), in John GIANVITO, (ed. de), Andrei Tarkovsky Interviews, Jackson (Massachusetts), University Press of Mississipi, 2006, p. 3.

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naquele tempo, na época de Dmitry Donskoy e dos seus descendentes, que teve a ideia para o conteúdo do filme.

Fig. 85 Andrei Rublev, Trindade do Antigo Testamento, c. 1425-1427

A contextualização histórica do filme corresponde à dos primórdios da Rússia enquanto nação independente, nos séculos XIV e XV. Essa realidade deriva, em termos muito sucintos, da realidade estabelecida por grupos de tribos eslavas orientais (constituídas a partir do século VII), que se uniram num estado denominado Rus (com sede em Kiev), após a introdução do cristianismo em 988 d.C.. A crença cristã, a partir dessa data, enraíza os textos religiosos e as celebrações litúrgicas no universo eslavo. Este património cultural sob a égide da Igreja e do poder papal unificador é, paradoxalmente, reforçado quando as invasões mongólico-tártaras exploram divisões entre os vários príncipes eslavos das diversas cidades-estado da Rus, a partir dos séculos X e XI. No século XIII, por sua vez, o território Rus está quase na totalidade subjugado à hegemonia da ocupação tártaro-mongol579. A vida de Rublev coincide com o princípio do fim desse domínio estrangeiro, no período da fortificação das cidades-estado do Norte, nomeadamente Novgorod, Vladimir e Moscovo. Também coincide com a ascensão de Moscovo a pólo mais importante do estado Rus quando, em 1380, o Príncipe Dmitry Donskoy lidera a primeira vitória dos russos sobre os tártaros, na denominada batalha de Kulikovo580. A reunião das terras russas sob a égide de Moscovo e do seu Príncipe determina o surgimento de um patrono espiritual - São Sérgio de Radonezh -, fundador do

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Cf. Robert BIRD, op. cit., pp. 14-15.

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mosteiro da Trindade, onde se testemunha, no final do século XIV, o primeiro grande florescimento da pintura de ícones581, sendo precisamente nesse mosteiro que Andrei Rublev recebe formação e trabalha582.

No documento Vox Dei:metáfora(s) da espiritualidade (páginas 185-188)