• Nenhum resultado encontrado

Sublime americano

No documento Vox Dei:metáfora(s) da espiritualidade (páginas 58-60)

I. Da Espiritualidade e da Arte

I.4.6. Sublime americano

Também em 1948, e ainda no âmbito desta espiritualidade negativa, aparece no outro lado do Atlântico, mais propriamente nos Estados Unidos da América, uma via de exploração igualmente desencantada, mas porventura menos profana e menos crítica: a de um ‘novo’ sublime. Barnett Newman escreve o texto The Sublime Is Now, que se tornará o grande paradigma da via de exploração da subjectividade, do eu (self) tragicamente sozinho perante o universo. Newman cria uma espécie de ‘religião da imanência’; mas não é o regresso da arte ao sagrado, é antes a invenção de uma nova forma de subjectividade na arte - uma subjectividade que vive da fragilidade do indivíduo, de uma energia espiritual radicada na sua dimensão diminuta196. Para Newman o sublime é o que se esconde na imanência e no imediato, no acontecimento que a obra é em si como artefacto (e não como referência a algo transcendental). O autor procura o sublime no ‘eu terrível e constante’ (terror of self), em presença do puro acontecimento que é o quadro - o ‘quadro é agora’197. Como na dita arte primitiva (algo que Newman acha que os surrealistas ignoram de propósito ou, pelo menos, negligenciam), os objectos resultantes do expressionismo abstracto americano resultam do terror intuído de diferentes forças míticas e mitológicas. Newman acredita que o homem original (primitivo) grita tanto de medo e terror quanto de ódio e de espanto pelo seu estado trágico (de auto-percepção do seu desespero perante o vazio universal) e, nesse sentido, esse grito é mais uma necessidade poética do que uma

195

Cf. Rebecca McElfresh SPEHLER, Patrick SLATTERY, Voices of Imagination: The Artist as Prophet in the Process

of Social Change, in http://people.cehd.tamu.edu/~pslattery/documents/imagination.pdf de 05-12-2010, p. 6. O teatro

destes autores consiste na afirmação do sem-sentido da vida e na demonstração da impotência dos dispositivos existenciais - teológicos, lógicos, fenomenológicos, estéticos, etc.. A única saída para estes autores é a catarse pelo riso, para exorcizar a ausência de profundidade (o personagem por excelência do teatro do absurdo é o palhaço, a figura representativa do ‘homem sem qualidade’).

196

Cf. Barnett NEWMAN, “The Sublime Is Now”, in Charles HARRISON, Paul WOOD, (org. de), op. cit., pp. 580-582. 197 O ‘aqui e agora’ de Newman assemelha-se em tudo à jetztzeit de Walter Benjamin. Benjamin opõe o conceito jetztzeit (literalmente o ‘tempo-do-agora’) à contingência absoluta do progresso moderno (historicista); o jetztzeit é a concepção de um presente que se destaca do continuum histórico (catastrófico segundo Benjamin) e se constitui como espaço de experiência, cf. António Sousa RIBEIRO, Walter Benjamin, Pensador da Modernidade, in https://estudogeral.sib.uc.pt/.../Walter%20Benjamin,%20Pensador%20da%20Modernidade.pdf 13-10-2010, pp. 10-11.

59

necessidade de comunicação198, facto que Newman pretende transpor para a sua obra e, por inerência, para a corrente expressionista abstracta americana199. O autor no The Sublime Is

Now ambiciona aceder a um Absoluto espiritual (associa a espiritualidade à noção de

sublime); para isso vai ser influenciado tanto pelo misticismo cabalístico200, quanto pelo misticismo cristão (nomeadamente pela obra de São João da Cruz e a sua ‘via negativa’)201

. Barnett Newman, com o seu texto de 1948, responde também a Clement Greenberg, que duvidava do conteúdo místico das suas obras, dizendo-lhe que os artistas da sua geração haviam criado um universo autenticamente abstracto, que só podia ser abordado sob um ponto de vista metafísico202. Newman procurava, pois, a elevação (sublime) para exprimir a sua relação privilegiada com o Absoluto.

The Sublime Is Now é uma tentativa de ser reencontrado, na experiência artística,

o testemunho do inexprimível, ou melhor, o informe é procurado no ‘agora’, no instante que se torna imanência e eternidade (em simultâneo). Num mundo destruído, onde o

198

Sobre o assunto leiam-se as palavras de Newman: “The purpose of man’s first speech was an address to the unknowable.”, Barnett NEWMAN, “The First Man Was an Artist”, in Charles HARRISON, Paul WOOD, (org. de), op.

cit., p. 576. Martin Heidegger (1889-1976) foi um dos primeiros filósofos a propor esta referência ao espanto originário;

diz João Manuel Duque a propósito: “(…) a experiência do sublime situa-se ao nível daquela primordial experiência humana que costuma ser descrita como experiência do espanto e da vertigem, que pode provocar ou medo ou o temor (…).”, João Manuel DUQUE, Dizer Deus na Pós-modernidade, (…), p. 149, e acrescenta: “Essa revelação originária, a que corresponde a atitude de espanto ou admiração, tem sido denominada por muitos filósofos do nosso século [leia-se por exemplo Heidegger] como dimensão do «sagrado» ou do «santo», enquanto mistério indisponível que tudo precede e tudo fundamenta, sem ele próprio possuír um fundamento ou uma justificação demonstrável”, idem, p. 185.

199

Segundo Newman, se numa primeira fase a abstracção europeia transcende os objectos (ou seja, transcende a representação do visível) para constituir um mundo espiritual (mas ainda objectual), passados 30 anos depois do seu início, acredita que a abstracção europeia se está a academizar e a tornar decorativa, e o futuro da abstracção passa pelos Estados Unidos, onde os autores expressionistas tentam ultrapassar a realidade abstracta, para viverem a ‘experiência transcendente’ (do Absoluto não objectual) na imanência do mundo real, cf. John GOLDING, op. cit., pp. 153 e 194. 200

Cf. idem, p. 194. Por exemplo, o conceito ‘Tsim-Tsum’ da cabala hebraica, que significa o vácuo primordial necessário ao verdadeiro acto criativo, vai de tal modo influenciá-lo, que Newman chega a conceber uma série escultórica (executada postumamente) intitulada Zim Zum, cf. Armin ZWEITE, Barnett Newman. Paintings, Sculptures, Works on

Paper, Ostfildern-Ruit, Hatje Cantz Publishers, 1999, p. 316.

201

Via negativa segundo a qual o crente acede a Deus nomeando tudo o resto, e despojando-se desse tudo chega ao nada, ao escuro, ao vazio (única concepção possível de Deus). Esta noção irá ser desenvolvida no capítulo referente à capela Rothko. Pode-se também perceber as repercussões do pensamento místico em outros autores exteriores ao expressionismo abstracto, como por exemplo em Ad Reinhardt (1913-1967) com a sua série Black Paintings (da década de 60), e a correspondência profíqua que estabeleceu com o monge trapista Thomas Merton (1915-1968), cf. Fanny DRUGEON, “Abstraction et Spiritualité”, in ARTS Sacrés, (…), p. 42.

202

Cf. Jack FLAM, “Barnett Newman”, in Mark ALIZART, (dir. de), op. cit., p. 334. Segundo Donald Kuspit as obras de Newman não deveriam ser vistas materialmente (visão greenberguiana) mas como ‘provocações espirituais’, cf. Donald KUSPIT, Reconsidering the Spiritual in Art, (…), p. 6.

60

trauma da guerra e o terror da era nuclear (e do possível fim da humanidade) se apoderam do sujeito, uma ‘falha trágica’ é gerada pelo sublime. A ideia do autor é começar tudo do ‘zero’, como se a pintura nunca tivesse existido; não é uma nova linguagem, mas sim uma nova atitude, uma nova função (mediúnica) para a arte. Os quadros de Barnett Newman e dos seus ‘companheiros espirituais’ já não representam o sublime (como no Romantismo), tornam-se sublimes (trata-se da experiência em si, e a obra torna-se definitivamente um santuário)203.

No documento Vox Dei:metáfora(s) da espiritualidade (páginas 58-60)