I. Da Espiritualidade e da Arte
I.5.3. Secularização e kenosis
Este regresso a uma religiosidade pós-metafísica vattimiana só será entendível à luz da análise da secularização em curso na realidade actual. Por secularização entende-se todo o processo que liberta a sociedade laica das suas origens sagradas, ou seja, a
236 Cf. João Manuel DUQUE, Dizer Deus na Pós-modernidade, (…), p. 193. Deus, supostamente, tinha sido negado por Nietzsche, mas a partir da reinterpretação nietzscheana feita por Heidegger, na qual se esclarece que não é Deus que morre mas sim uma concepção metafísica Dele, já não se pode negar filosoficamente Deus; dá-se então a revitalização do religioso também pela sua legitimação filosófica, cf. Kleiton Cerqueira de ALMEIDA, op. cit., p. 69. Segundo Vattimo, os filósofos, por tradição e recentemente, eram ateus porque pensavam poder haver, a limite, um verdadeiro conhecimento da realidade (exterior à metafísica religiosa), mas na pós-modernidade já nem todos são ateus, porque a pretensão ao conhecimento verdadeiro da realidade se manifestou impossível, cf. O Mundo Pós-Moderno Regressa ao
Religioso?, in http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=57535 de 15-09-2010. E ainda sobre este assunto:
“Modernity has long and famously treated religion with skepticism. (…) some now anticipate that theology can succeed where philosophy and critical theory failed.”, Paul TEASDALE, “Does Theology Hold the Answer for Revolutionary Politics?”, in FRIEZE, op. cit., p. 33.
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Gianni VATTIMO, Acreditar em Acreditar, (…), pp. 17-18. Vattimo demonstra o esgotamento das filosofias que haviam excluído o pensamento religioso (historicista hegeliano-marxista e positivista evolucionista-científica). Para este pensador parece óbvia, no momento actual, a re-leitura da mensagem bíblica como suporte para a concretização de uma fé autónoma da razão.
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substituição do divino pelo humano238. A origem desta percepção secular remonta ao pensamento teológico do pastor luterano Dietrich Bonhoeffer (1906-1945). Este autor reflecte sobre a ‘condição adulta do cristianismo’ e chega a afirmar que a secularização do Ocidente representa, entre muitas outras coisas, uma libertação das heranças míticas do passado cultural cristão, isto é, o novo género de vida contemporânea, dos grandes centros urbanos caracterizados pela mobilidade, velocidade, anonimato e superficialidade das relações humanas estabelecidas, levam a humanidade a caminhar para uma era não religiosa; a religião e o homem religioso em breve terminariam e, com isso, a realidade alcançaria a secularização239. Bonhoeffer cria, portanto, uma espécie de teologia da morte de Deus, na qual separa explicitamente o conceito de fé do conceito de religião, em que fé seria a relação do crente com o Deus vivo, enquanto a religião suportaria a marca do sagrado (e aqui sagrado com o sentido negativo da transcendência ultrapassada). A este propósito diz Julien Ries: “The theology of the death of God seeks to show that secularization, (…) represents a chance for the development of a truly purified faith.”240
. Gianni Vattimo também se debruça em profundidade sobre o processo de secularização. Segundo ele: “(…) secularização significa exactamente (…) a relação de proveniência de um núcleo sagrado do qual nos afastámos e que, todavia, permanece activo mesmo na sua versão «decaída», distorcida, reduzida a termos puramente mundanos, (…).”241. A secularização, segundo Vattimo, deverá ser sempre associada à dessacralização do ‘sagrado natural’ da religião, e por ‘sagrado natural’ entenda-se o mecanismo violento em que Deus é um absoluto e a metafísica um dogma, não permitindo o diálogo e a proximidade entre Deus e o crente, requerendo apenas adoração e ‘obediência cega’242. Secularização, para Vattimo, é ainda a transformação dos poderes absolutistas de direito divino para as democracias representativas, e também a visão de um mundo cada vez mais materialista, consumista, babélico, onde se cruzam e convivem vários sistemas de valores e onde a informação é massificada, ou seja, é sempre um debilitamento das
238
Cf. Gianni VATTIMO, Acreditar em Acreditar, (…), pp. 32-33. Há que ter em consideração que a história do Ocidente, depois da Antiguidade Clássica, sempre foi delineada pela história da religião cristã até ao século XIX, daí ainda o seu peso bem visível na realidade contemporânea.
239
Cf. Paola DALLA TORRE, Claudio SINISCALCHI, op. cit., p. 57.
240 Julien RIES, “The Question of the Sacred”, in Demetrio PAPARONI, Eretica, The Transcendental and the Profane in
Contemporary Art, Milão, Skira Editore, 2007, p. 122.
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Gianni VATTIMO, Acreditar em Acreditar, (…), p. 9. 242
Cf. idem, pp. 32-33. Traços naturais que terão a sua expressão máxima em Cristo (nesta perspectiva, Cristo é visto como a vítima perfeita da tradição violenta das religiões sacrificiais).
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estruturas ‘fortes’ (metafísicas) da realidade. Diz Vattimo: “Secularização como facto positivo significa que a dissolução das estruturas sagradas da sociedade cristã, a passagem a uma ética da autonomia, à laicidade do estado, a uma literalidade menos rígida na interpretação dos dogmas e dos preceitos, não deve ser entendida como um decréscimo ou uma despedida do cristianismo, mas como uma realização mais plena da sua verdade que é, recordemo-lo, a kenosis, o rebaixamento de Deus, o desmentir dos «traços naturais» da divindade.”243
.
Kenosis, conceito oriundo da área teológica, corresponde ao esvaziamento de
Deus do Seu poder divino, da Sua força metafísica, ao tornar-se humano244. A kenosis, iniciada com a encarnação de Cristo, não é a negação de Deus, é sobretudo o Seu rebaixamento, a pura exclusão do transcendente e, por consequência, a superação da essência violenta do sagrado natural (elimina-se em definitivo a ligação entre ‘sacro’ e ‘violência’). A kenosis também pode ser entendida como a exclusão de todos os aspectos transcendentes, incompreensíveis, misteriosos e até bizarros de Deus. Ele passa a ser humano e, acima de tudo, compreensível. Curioso que, num plano estético (não religioso), o sublime e o numinoso, nos dias de hoje, venham precisamente substituir aquilo que está em falta na religião: o incompreensível, o misterioso, o inexplicável. A actualidade depara- se, portanto, com um sentido kenótico, secularizante, dessacralizante no sentido positivo do cristianismo. Gianni Vattimo levanta assim a hipótese do ‘pensamento fraco’, uma teoria da fragilidade como traço característico do ser humano ocidental na época do fim da metafísica245. Vattimo, através da leitura de René Girard, principalmente do seu Des
Choses Cachées Depuis la Fondation du Monde (1978)246, consegue criar assim um paralelismo, uma aproximação, entre a doutrina da kenosis (rebaixamento divino) e o ‘pensamento fraco’ (enfraquecimento das estruturas fortes). Do Deus transcendente do passado, surge agora um Deus imanente, e é precisamente esse facto que legitima a
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Ibidem, p. 39. A própria literatura teológica do século XX, principalmente após o Concílio Vaticano II, fala muito do processo de purificação que a secularização encetou na realidade cristã, nomeadamente a aproximação à vida e o afastamento da ‘religiosidade natural’. Diz o autor italiano: “(…) a secularização, isto é, a dissolução de toda a sacralidade naturalista, é a própria essência do cristianismo.”, ibidem, p. 43.
244 Cf. Philippe MARKIEWICZ, “La Pesanteur et la Grâce”, in ARTS Sacrés, (…), p. 48. 245
Cf. Gianni VATTIMO, Acreditar em Acreditar, (…), p. 26. 246
René Girard (n. 1923) é outro autor que Vattimo pensa ser relevante neste regresso ao religioso (é dele a expressão ‘sagrado natural’ que Vattimo utiliza com frequência). Girard insiste na diferença radical entre o que é a religião (propensão humana para a dependência de um ser supremo) e o que é a fé cristã, cf. idem, p. 29.
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experiência religiosa actual, caracterizada por uma explosão imagética e por uma consequente libertação metafórica.
Pensar a pós-modernidade em Vattimo implica, portanto, confrontar diversos conceitos: religião, fim da metafísica, kenosis, secularização, cristianismo, niilismo, ecumenismo, hermenêutica. Este período passa a ser, segundo este pensador, o tempo do advento da 3ª era: a ‘idade do Espírito’ (depois da ‘idade do Pai’ e da ‘Idade do Filho’). Vattimo recupera esta ideia a partir da leitura dos escritos do monge medieval Gioacchino da Fiore247, ao descobrir a possível simbiose entre a ideia de secularização, como sentido positivo da revelação cristã, e a sua ontologia fraca, conseguindo aproximar-se e regressar ao religioso e à tradição cristã. A norma essencial da secularização positiva é a redução da violência em todas as suas formas, sendo, a limite, a potenciação da caridade e do amor. A nova fé nada tem a ver com os dogmas da Igreja; a nova fé tem a ver com a caridade exercida de modo livre e com a compreensão imanente de Deus248. Agora, o crente é dotado de consciência e sentido crítico, sentindo-se livre para debater e questionar a fé. Refere Vattimo: “Esta interpretação mais livre da Bíblia oferece-nos a oportunidade de realizarmos o reino do espírito entendido como suavização e ‘poetização do real’.”249.
Espaço para renovadas experiências religiosas e crenças de todas as espécies - a isto chama Vattimo ‘libertação da metáfora’ -, a idade que está a chegar põe em evidência o estético250. Surge então, deste modo, o fenómeno New Age, que consiste num crescente número de crentes que, tendo perdido o interesse pela Igreja Católica, viajam para cultos emocionalmente e espiritualmente mais satisfatórios. A New Age é um sintoma do fim do milénio e da realidade secularizada, e surge inicialmente como movimento hippie, na Califórnia (E.U.A.) da década de 70 do século passado. O nome designa uma nova era global, baseada na crença optimista da evolução da humanidade em harmonia com a natureza. A New Age pressupõe o nascimento de uma sociedade global pacífica, unida
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Gioacchino da Fiore (c. 1130-1202) estabelece, pela leitura que faz da Bíblia, três idades da fé: a 1ª idade (Antigo Testamento) corresponde ao governo de Deus-Pai, em que o indivíduo é escravo e é obrigado à obediência (violência metafísica); a 2ª idade (Novo Testamento) corresponde à revelação e à kenosis (Deus-Filho), em que o indivíduo é servo voluntário; a 3ª idade (do Espírito) em que o indivíduo se apresenta como amigo de Deus (é o tempo da caridade). O regresso à religião na actualidade prepara, segundo Vattimo, esta 3ª idade, cf. Kleiton Cerqueira de ALMEIDA, op. cit., pp. 71-73. Veja-se ainda Gianni VATTIMO, Acreditar em Acreditar, (…), pp. 88-89.
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Cf. idem, pp 89-90. Vattimo reivindica o direito da interpretação bíblica sem o peso dos dogmas, das doutrinas (tudo violências); a Bíblia deve ser interpretada livremente a partir do rebaixamento de Deus ao humano, segundo ele.
249
Gianni VATTIMO, Depois da Cristandade. Por um Cristianismo Não Religioso, Rio de Janeiro, Record, 2004, p. 70. 250 Cf. Kleiton Cerqueira de ALMEIDA, op. cit., p. 69.
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espiritual, económica e politicamente251. Combina elementos clássicos do esoterismo e misticismo, critica os sistemas modernos tecnocráticos (tais como as multinacionais, os grandes monopólios, os mercados bolsistas e a especulação), e cria relações de proximidade com grupos pacifistas, ecologistas, integracionistas, etc.. Em termos puramente religiosos, a New Age coloca a experiência espiritual individual acima dos sistemas religiosos tradicionais252. Esta nova espiritualidade consiste na reunião de imensas formas de fé, um fluxo de fés místicas denominadas New Religions Movements: Neo- paganismo, Animismo, Alquimia Espiritual, Escola Arcana, Aliança do Círculo Pagão, Odinismo, Tradição da Sabedoria Antiga, Igreja Universal e Triunfante, Fundação Urantia, Cientologia, Igreja do Juízo Final, Movimento da Potência Humana, Meditação Transcendental, Cabala, Neo-platonismo e Neo-pitagorismo, Magia Medieval, Cristianismo Céltico, Satanismo, Xamanismo, Igreja do Sétimo Dia, Igreja Universal do Reino de Deus, proliferação do Hinduísmo, do Budismo e das práticas Zen, etc.253.
Esta sensibilidade espiritual e religiosa, implementada durante a denominada
Jesus Revolution (época reminiscente ainda das dúvidas e contradições da Beat Generation
e da influência dos cultos orientalizantes), ganha uma grande visibilidade, à escala planetária, nos anos 80 do século XX. É um período caracterizado pela reinterpretação do texto bíblico, da sua transformação a nível de conteúdo e de forma, no sentido da sua total subjectivação. “(…) il divino non è fuori di te, ma dentro di te: tu sei il divino.”254, afirmam os membros da New Age, criando uma concepção de religião à medida do eu, e criando um sentimento do divino sem qualquer componente cognitiva ou racional (prefere- se uma ideia sentida de Deus do que a Sua explicação através da fé e da razão).
A tendência é para uma compartimentação e explosão de mini-religiões na década de 90, chegando-se à paradoxal individualização da fé e da espiritualidade. Pode ler-se, a propósito da caracterização do indivíduo nesse período: “They are seen as taking active responsibility for their own personal and spiritual growth rather than outsourcing it to a
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Num mundo globalizado, multicultural e sofisticado, a demanda por valores humanistas aumenta. Observa-se uma maior necessidade de procura de religiosidade também por este motivo, pela necessidade da interacção humana e coabitação global entre grupos sociais diversos e até antagónicos, mas sempre em segurança e correndo o menor número possível de riscos. A Carta dos Direitos Humanos e as Nações Unidas, por exemplo, designam esses mesmos valores morais.
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Cf. Patrick HUSER, “On -Isms and -Ists”, in Lukas NIEDERBERGER, Lars MÜLLER, (ed. de), op. cit., pp. 336-337. 253
Cf. James ELKINS, op. cit., p. 51.
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church/mosque/temple (…).”255. Com o advento da era digital e do mundo virtual, neste fim de milénio, a autonomia (e liberdade) do crente é potenciada ainda mais. O ciberespaço aparece como ‘espaço transcendental’ alternativo às religiões tradicionais; espelha o mito da criação, porque sendo visto como mundo paralelo (não físico, não concreto), acaba por simbolizar o intangível e o mundo metafísico perdido256. Fazer parte da tendência New Age confere ao indivíduo uma sensação de pertença a um todo universal, como o descrito na teoria holística257.