I. Da Espiritualidade e da Arte
I.4.7. Espiritualidades alternativas
Outra atitude coexistente, mais optimista, sensível e hedonista, e afastada do absurdo e do sublime, foi a pensada e praticada por autores que alargaram os respectivos campos de percepção para fora do paradigma ocidental, olhando para o Oriente filosófico e teológico, e assimilando práticas do Hinduísmo, do Budismo e do Zen. Em 1952, o ‘manifesto’ fundador desta nova realidade foi a obra 4’33”: Para Qualquer Instrumento ou
Combinação de Instrumentos do compositor John Cage (1912-1992), uma vez mais um
exemplo de espiritualidade associada à música. Este compositor norte-americano sente-se atraído pela poesia clássica chinesa e japonesa, tentando, através da sua obra, exprimir estados emocionais e afectivos que são anteriores à invenção da palavra, em particular o confronto existente entre a tentação do vazio e a sua real impossibilidade. A Silent Piece (nome pela qual também é conhecida a composição 4’33”) foi inspirada nas All-White
Paintings de Robert Rauschenberg (1925-2008), mas acima de tudo na tentativa de
desmaterialização formal das práticas Zen, podendo ler-se, sobre o assunto, o seguinte: “(…) a form of meditation where the practitioner is seated opposite a white wall and contemplates it while remaining motionless. The goal is to enter a spiritual realm beyond time and space, represented by absolute emptiness.”204
. Esta definição - zazen - é bem sintomática do porquê da sua adopção por Cage. Leia-se: “Dans l’art spirituel, le vide est tout à la fois inspiration, thème et méthode. L’artiste, l’oeuvre, l’acte de créer et l’acte de voir se fondent dans l’Un Tout.”205
. 4’33” constitui-se, portanto, como a afirmação de uma possível reconciliação entre o sujeito e o mundo.
203
Cf. Jean de LOISY, “Face À Ce Qui Se Dérobe”, in Mark ALIZART, (dir. de), op. cit., p. 24. 204
Jungu YOON, op. cit., pp. 78-79.
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As suas repercussões são muitas, principalmente em relação ao movimento
Fluxus206 e às práticas artísticas decorrentes, inspiradas no Xamanismo 207 e no Tantra, em que a exploração dos efeitos psicotrópicos e o interesse pelo misticismo oriental se associam à procura do êxtase; estas realidades alicerçam também a investigação de toda uma geração de poetas - a Beat Generation -, particularmente Allen Ginsberg (1926-1997) que escreve em 1955 o poema Howl, no qual utiliza o Budismo e a atitude mantra (prática de meditação oriental que define que tudo é divino), como base para a sua exploração e definição de sagrado208.
O livro Portas da Percepção (1954) de Aldous Huxley (1894-1963) constitui mais um episódio decorrente deste processo, tendo como mote principal as investigações literárias a partir dos efeitos alucinatórios experimentados pelo uso de drogas químicas (nomeadamente L.S.D.), e as ilações que o seu autor retira da ponte estabelecida com o fenómeno visual. Aliás, o fascínio de Huxley pelas capacidades da visão (como expressão de revelações místicas e verdades metafísicas) e a combinação dos efeitos lumínicos e cromáticos que o autor sente sob o efeito das drogas, levam-no a conceber rituais (pseudo- religiosos) que estão na génese da corrente artística psicadélica209. Os artistas dos Light
Shows do psicadelismo, do princípio dos anos 60 do século passado, utilizam máquinas
complexas compostas por estroboscópios, projectores de líquidos coloridos e parafernália simuladora de estados de alucinação, sempre com a finalidade de produzir uma experiência
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Movimento artístico iniciado por Georges Maciunas (1931-1978) em 1961. O termo fluxus, de origem latina, significa fluxo, movimento e escoamento. As realizações Fluxus implicam a utilização de objectos, sons, movimentos, luzes, etc., num apelo à justaposição sinestésica dos sentidos (visão, olfacto, audição, tacto), e apelo às possíveis conexões estabelecidas do indivíduo com um universo mitológico, mágico e espiritual, cf. Florence MÈREDIEU, Histoire
Matérielle et Immatérielle de l’Art Moderne et Contemporain, Paris, Larousse, 2004, pp. 545-548.
207
É o caso de Joseph Beuys, artista que se vê imbuído de uma missão espiritual salvífica, no sentido de reconciliar a sociedade do pós-holocausto com as suas verdadeiras origens culturais ancestrais. Beuys, artista-xamã, é um mediador entre o mundo dos espíritos e o dos homens, e detém o poder de curar espiritualmente a humanidade, cf. Yves CUSSET, “L’Absurde et le Sublime”, in Mark ALIZART, (dir. de), op. cit., p. 271 e Maria STRAVINAKI, “Artiste-Chaman”, in
idem, p. 332.
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Faziam parte da Beat Generation, além de Ginsberg, Jack Kerouac (1922-1969) e William Burroughs (1914-1997), entre outros. Apologistas do não conformismo, da desobediência civil e da livre expressão incondicional no período do pós-guerra e Guerra Fria, estes autores utilizam formas radicais de atingir a dimensão espiritual, através do consumo de álcool, de investigações psicotrópicas (descobrem o uso de drogas como caminho de exploração do sagrado) e pela apologia de música alternativa, preferencialmente jazz, rock e música orientalizante, cf. Alice MARQUAILLE, Alessandra SANDROLINI, “Doors of Perception”, in ibidem, p. 337 e Gérard-George LEMAIRE, “Beat Generation”, in
ibidem, p. 356.
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colectiva de hipnose e conexão pseudo-transcendental. Nos happenings óptico-psicadélicos a intenção é a libertação de energias espirituais, combinando os Light Shows ao efeito do consumo de L.S.D., e ultrapassando-se a mera representação simbólica para produzir verdadeiras experiências mágicas, onde o tempo e o espaço são suspensos e as formas sólidas e a matéria se desintegram. O expoente máximo desta corrente foi Timothy Leary (1920-1996), que desenvolveu espectáculos para a sua League for Spiritual Discovery 210. As ‘missas de uma nova religião’ consistiam na utilização de dispositivos visuais (diaporamas pintados e re-pintados, filmes de baixo orçamento ou home-made movies, luzes estroboscópicas), sonoros (música hindu, rock, récita da textos místicos orientais) e performativos (danças, happenings, teatro), todo um conjunto extenso de meios para estimular sinestesicamente ao limite os sentidos, e conduzir os espectadores a um novo estado de meditação. Leia-se em conformidade: “La surcharge sensorielle provoquée par ces «énergies directes, la lumière, les ondes sonores amplifiées» correspond à la société avancée sur le plan technologique et à l’ère nouvelle des mass media; elle satisfait un besoin profond d’expériences primordiales, intenses (…).”211
. Este regresso ao irracional primordial, instintivo e extático, recorda o sentimento dionisíaco nietzscheano.
Toda a exaltação da espiritualidade no período da Guerra Fria culminará, como se pressente no final dos anos 60, na convocação do corpo como médium de exploração artístico, num primeiro momento com o accionismo vienense, e depois com a difusão mundial do fenómeno da Body Art 212. Não interessa, contudo, aprofundar a temática do corpo nesta investigação, por vários motivos, principalmente porque se refere a autores que
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Nomeado ‘messias bioquímico’ e ‘guru da meditação’, Timothy Leary cria no início da década de 60 uma nova religião - League for Spiritual Discovery (acrónimo de L.S.D.) - onde a droga aparece como substituto sacramental. O uso do L.S.D. permite ao sujeito entrar num estado de hipersensibilidade semelhante às experiências religiosas místicas, e permite-lhe unir-se simbolicamente com o Absoluto, não havendo qualquer distinção (sob o efeito da droga) entre o individual e o universal, cf. Cristoph GRUNEMBERG, “Timothy Leary”, in ibidem, p. 368.
211 Cristoph GRUNEMBERG, “Psychédélisme”, in ibidem, p. 366. 212
Estes movimentos constituíram-se como programas de libertação e exaltação espiritual da vida, através da violência do corpo. Enquanto que no accionismo vienense a destruição progressiva da matéria (corpo) implica uma transformação espiritual relacionada com processos do inconsciente, na Body Art intensifica-se a existência do ser através da exposição máxima do corpo. A ‘carne’ é vista pelos autores destes movimentos como o último refúgio sagrado de uma realidade dessacralizada e vazia. O accionismo vienense e a Body Art aproximam-se das temáticas religiosas, mais propriamente das cristológicas, onde o Filho de Deus é visto como o verdadeiro artista e a Sua Paixão vista como ‘obra-de-arte total’. Neste contexto, as referências bíblicas são recorrentes e constantes: os fenómenos da transubstanciação, do sacrifício, das oferendas, dos excessos fundamentais, etc., estão sempre presentes no discurso artístico. Consulte-se o capítulo “Corpo e Sua Representação”, in Rui SERRA, op. cit., pp. 55-95, (texto policopiado) e também Carlos VIDAL, O Corpo e a
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continuam o ‘ciclo negativo adorniano’, por ser um fenómeno artístico que se debruça de modo directo ou indirecto sobre temáticas do sofrimento humano mas, acima de tudo, porque se constitui como uma via de investigação tendencialmente figurativa, e o cerne da questão nesta tese reside precisamente na espiritualidade associada ao pensamento abstracto e tendencialmente abstractizante.