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Estrutura da tese

1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO

2.5 Conversas formais e informais

As filigranas do discurso é que são o real. Então eu tenho que ter uma grande fé na possibilidade da palavra. (Coutinho, 2009, p. 130) As entrevistas e conversas exploratórias foram desenvolvidas através da convivência nos espaços trabalhados neste projeto. Sendo o encontro com o outro parte funda- mental para responder às inquietações desta investigação, a maneira de as conseguir e a forma como foram adaptadas a cada interlocutor/entrevistado/personagem são parte integrante não só da construção, mas dos resultados do trabalho.

Optar por retratar as mudanças pelas quais passam os moradores destas ilhas e bair- ros, pela perspectiva dos mesmos, significa valorizar o que estas pessoas têm a dizer. Este discurso verbal e não verbal é, nesta investigação, o retrato do que estão a passar, a ansiedade, o desânimo, a luta, a crença numa vida melhor.

Para cumprir o objetivo de entender as particularidades destes locais e pessoas, este trabalho aposta no reconhecimento e na aceitação destes discursos de forma a não duvidar dos mesmos. As informações sobre os processos judiciais, a venda das casas, as obras de requalificação, assim como a descoberta dos detalhes e das funcionalida- des das casas novas, são obtidas exclusivamente através dos moradores. Sendo assim, temos um discurso composto por expectativas e, por vezes, incertezas, quando os próprios moradores anseiam e aguardam as decisões que serão tomadas sobre o local onde vivem. Estamos em pé de igualdade com estas pessoas. Sabemos o que elas sa- bem, da maneira como sabem.

Para adequar estas entrevistas, ou conversas, ao entrevistado, foram utilizadas di- ferentes abordagens. O local escolhido variava conforme o grau de intimidade e o tema tratado. Na Tapada, por exemplo, quando havia algum desdobramento impor- tante no caso da venda do bairro, estas questões eram tratadas diretamente com as duas figuras centrais da Associação de Moradores, na maior parte das vezes com a câmera e o gravador de áudio. Eram os porta-vozes do bairro para estas questões, de forma a evitar possíveis maus entendidos ou qualquer posicionamento que pudesse prejudicar, ou interferir na causa – a luta para permanecer no bairro. No caso destes assuntos mais densos, as conversas eram feitas dentro das casas destes representantes, num ambiente mais controlado. Isto é, reduzindo a possibilidade de imprevistos e interrupções alheias ao assunto, apenas com pessoas convidadas, com mais liberdade

e segurança para se discutir sobre os temas em questão, sendo possível, por exemplo, interrompermos a gravação a qualquer momento. Por outro lado, quando as notícias eram de conquistas e alívio, o clima poderia ser outro, suscetível a interferências ex- ternas mais espontâneas, possibilitando que outros personagens, moradores, entras- sem livremente na cena, e não só os que faziam parte da Associação.

No Dona Leonor, as entrevistas foram mais direcionadas, guiadas por um roteiro de perguntas (sempre adaptado ao momento em que estas eram realizadas, por isso, muitas vezes não era seguido de forma rigorosa), e utilizava-se apenas o gravador de áudio. Como o tempo de convivência no bairro era menor, assim como o grau de pro- ximidade com as pessoas, se comparados ao caso da Tapada, estas foram as medidas consideradas mais eficazes. As fotografias eram feitas sempre depois das conversas, de forma a permitir que as pessoas tivessem mais tempo para se sentirem confortá- veis com a minha presença e a da câmera. Assim, para além de estendermos o diálogo de forma mais descontraída, as pessoas também procuravam mostrar cenários de interesse que haviam sido discutidos na entrevista.

Na Bela Vista, as entrevistas eram feitas de forma diferente. No dia em que os mora- dores foram levados para as novas casas, por exemplo (em outubro de 2016), o ritmo foi mais dinâmico e imprevisível. Os temas eram conduzidos quase exclusivamente pelas pessoas e os eventos que atravessavam a câmera naquele momento de expec- tativa e curiosidade. As histórias da casa antiga eram interrompidas para tentarmos descobrir, por exemplo, como funcionava o fogão novo. Ou, quando outro morador entrava na casa em que estávamos para anunciar que descobriu o que eram os postes altos que os pedreiros haviam instalado. Foi um momento em que a câmera, e a do- cumentarista, testemunharam uma travessia para estas pessoas, o desconhecimento sobre o novo, que ocupava o lugar do velho. Para os moradores idosos, que viviam naquele espaço, a sua Ilha, há décadas, conhecendo todos os seus detalhes e transfor- mações ao longo dos anos, foi uma etapa de grande impacto.

Como o trabalho de campo e, portanto, as entrevistas e as gravações, foram realizadas apenas por uma pessoa, adotaram-se algumas medidas específicas. Em momentos de mais ação, como no dia da mudança da Bela Vista, a câmera estava sempre nas mãos, com o microfone integrado, pronta para gravar não apenas os diálogos diretos, mas também o movimento das pessoas e as constantes interferências. Entretanto, nas entrevistas que abordavam os desdobramentos do caso da Tapada, a câmera per- manecia num tripé, sem mudança de enquadramento, e ao lado do entrevistador, nunca à frente. Dessa forma, era possível estabelecer uma relação mais próxima com o entrevistado, respeitar o seu discurso estando atenta ao que ele dizia e como dizia, para conduzir a conversa de acordo com o momento em que ela decorria. “Eu uso essa técnica de que a câmera existe, mas fica no lugar dela; a pessoa fica confortável, pode se mexer, atender o telefone.” (Coutinho, 2009, p. 130)

É importante ressaltar que, em todos os espaços trabalhados, estas técnicas não fo- ram as únicas a serem aplicadas. Nos três, houve momentos em que a estrutura pla- nejada foi integralmente adaptada ao contexto no momento em que decorriam as entrevistas. Como nos casos em que se julgou necessário abdicar por completo de um roteiro de perguntas elaborado previamente. A ausência de qualquer material de recolha – câmera, microfone, ou bloco de notas – também foi necessária no diálogo com algumas pessoas. As entrevistas e conversas contribuíram com diferentes formas e graus de interesse neste trabalho, revelando-se sempre necessárias para o desenvol- vimento do projeto e a compreensão mais alargada e sensível do tema.

Voltamos, portanto, às miudezas, já mencionadas neste capítulo, mas agora noutra vertente. Através da presença participativa, imersiva, no trabalho de campo, o inves- tigador precisa criar as suas miudezas, coerentes e necessárias de acordo com a sua relação com objeto. Sutilezas que implicam em metodologias próprias, customizadas de acordo com esta vivência.