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Estrutura da tese

1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO

2.7 Experimentar em conjunto

Num trabalho em que a maior parte dos processos são coordenados e realizados pela mesma pessoa, a autocrítica e a autorreflexão são uma constante fundamental. Entretanto, o olhar demasiado imersivo na investigação trouxe, por vezes, o risco da dissolução do seu propósito e dúvidas na avaliação da sua comunicação. Por estas razões, foram desenvolvidos momentos de criação coletiva e de exposição pública do trabalho em curso.

A natureza da comunicação faz com que um enunciado em curso de elaboração só possa ser imperfeitamente formulado por escrito, permanecendo, em parte e muitas vezes no essencial, escondido no espírito do seu próprio autor. Mas este não está consciente disso, porque, ao ler o seu manuscrito, completa-lhe automaticamente o sentido. (Hall, 1986, p. 9)

O reconhecimento da importância da redução da equipe de ação de acordo com o tema abordado, não invalida outros tipos de exercícios coletivos. Estes foram capazes de beneficiar a investigação direta, ou indiretamente, sem interferir nos aspectos que primam pelo trabalho individual, como descrito no subcapítulo anterior.

A participação como membro do coletivo Citadocs: documentários sobre para e por

cidadãos (CITADOCS, 2015), responsável por workshops abertos sobre vídeo do-

cumental, especialmente entre 2014 e 2018, contribuiu neste âmbito, ao trabalhar questões relacionadas ao documentário coletivo, tanto com os outros integrantes do grupo, quanto com os participantes dos diferentes workshops14. A escolha dos

temas para as oficinas; a análise do tipo de reação que este provocava nos que tra- balhavam como documentaristas, e naqueles que foram retratados; as ponderações a cerca dos resultados produzidos; e as questões éticas que este conjunto de ações levantaram, são exemplos de contributos que só puderam ser revelados através do trabalho conjunto e da observação do mesmo (estas questões serão abordadas, com mais detalhes, no capítulo III).

Numa outra fase da investigação, a partilha do trabalho em desenvolvimento auxiliou o amadurecimento de outras frentes. Como por exemplo, através de comunicações em conferências, como nos Encontros de Doutoramento em Design (Porto e Aveiro), entre 2016 e 2019, e na Conferência Internacional sobre Cinema, Arte, Tecnologia e Comunicação em Avanca, em 2015; de mostras destinadas a posters, na Faculdade de

Belas Artes da Universidade do Porto e nos encontros Ciência Viva (Lisboa); fóruns de discussão no âmbito do Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura (ID+); e de exibições de vídeos e filmes, tais como na Mostra de Cinema de Tiradentes (Brasil), em 2016, no Festival de Cinema de Avanca (Portugal), também em 2016, e no evento REACH, First International Conference Resilient Cultural Heritage and

Communities in Europe (Hungria), em 2017.

Esta investigação procura testar formas de se retratar populações vulneráveis sem

consumi-las, isto é, sem tratá-las como um objeto turístico ou folclórico, por exem-

plo. Por este motivo, entendeu-se necessário avaliar a opinião de diferentes públicos mediante as formas sobre as quais este trabalho produz conteúdo. A apresentação pública do artigo Para Cidadãos? (A. C. N. Roberti, 2016) foi um destes exemplos. O desconforto provocado pelas questões levantadas acerca da autoridade do etnógrafo/ documentarista nestes locais e da forma como as boas intenções do mesmo muitas vezes tentam justificar as suas ações, foi evidente e provocou longos debates sobre o tema. Nesta altura de autocrítica, descrita na crise representativa do capítulo I, o pro- jeto questionava a sua proposta inicial: o mapeamento visual e sonoro das Ilhas do Porto. Estas discussões foram mais um contributo no sentido de abdicar desta ideia e focar na aproximação e no aprofundamento de casos específicos, ao invés de tratar estes espaços como uma espécie de museu particular e/ou priorizar uma vertente mais exaustiva e comparativa, porém, necessariamente menos aprofundada.

A reação da audiência durante a exibição dos filmes apresentados – como, por exem- plo, nas sessões do Sobreiro (A. C. Roberti, 2018c), realizadas no próprio bairro e na sala de cinema próxima ao local, que serão descritas mais a frente neste capítulo e também nos Trajetos – e as questões levantadas durante as comunicações dos vários

papers, agiram como uma espécie de termômetro. Assim, foi possível compreender

o que os resultados do projeto eram capazes de provocar, o tom e o tipo de caminho que estavam a seguir e se iam de encontro aos propósitos estabelecidos, principal- mente com relação à maneira de se retratar o encontro com o outro.

Nesse sentido, o trabalho com o design, a imagem (fixa ou em movimento) e o som, gera inputs e feedbacks fundamentais para os objetivos desta investigação. Estes meios provocam sensações e reações imediatas, fomentam interpretações do próprio inter- locutor, tornando-o capaz de complementar e dar sentido ao trabalho apresentado.

2.8 Diários

Dada a importância do trabalho de campo etnográfico nesta investigação, intenso e imersivo, foram criadas estratégias para organizar o volume de material que ia sendo

obtido. Neste caso, foram realizados dois tipos de diários que acompanharam todo o processo: escrito e imagético. Trata-se do desenvolvimento de uma ferramenta dupla já explorada no mestrado (A. C. N. Roberti, 2015, p. 81), que se mostrou positiva para este estilo de trabalho. A seguir, apresenta-se uma breve descrição e a justifica- tiva de cada um dos diários.

2.8.1 Diário Escrito – Relatos

Os relatos de campo são parte integrante fundamental desta investigação, acompa- nhando o seu amadurecimento conforme as situações vividas no trabalho de campo, assim como as consequentes reflexões sobre as diversas experiências. São compostos por descrições objetivas, interpretações subjetivas, impressões, desabafos pessoais e todo o tipo de comentários que se situam entre a procura de objetivação científica por um lado, e artística por outro. Luís Fernandes, em um diário de campo nos terri-

tórios psicotrópicos, descreve o lugar da etnografia ao reconhecer a sua pluralidade:

Se estiver algures, é entre a arte e a ciência. Do lado da arte, exige o treino do olhar com a minúcia com que se treinam o escultor ou o arquitecto; convoca a capacidade narrativa e o domínio do texto se- melhantes aos do novelista – e não há verdadeiro etnógrafo que não habite a escrita pelo lado de dentro; exige a análise e a extracção de formalismos própria ao ensaista. Do lado da ciência não dispensa as aprendizagens standard próprias à tradição de qualquer comunidade científica; e, por muito que se diga dela ser um modo personalizado de trabalho empírico, chamando o investigador à participação e ao envolvimento, não dispensa o cultivo da imparcialidade nem a pro- cura do rigor (...) (Fernandes, 2002, p. 23)

É importante ressaltar que nem todos os textos produzidos ao longo deste estudo foram incluídos neste documento. Alguns por terem deixado de ser o foco da inves- tigação, outros pelo tom mais expressivo do que informativo. Nem por isso, porém, deixaram de ser relevantes para o desenvolvimento do trabalho. Muitos deles, mais da esfera do emocional no campo do subjetivo não partilhável, serviram para ex- pressar e organizar ideias que se mostravam confusas devido aos confrontos entre os estudos teóricos e a realidade vivida.

As impressões frescas do que foi observado e vivenciado no trabalho de campo não poderiam ser recolhidas com a precisão desejada senão fossem estes documentos. As anotações e os textos feitos no caderno, o diário, mantêm vivo o lado real destes mo- mentos, o encontro com o objeto de estudo. Por esse motivo, estes textos foram escritos de forma livre, sem formatação pré-definida e, na maioria das vezes, sem a mediação

digital. O exercício desta liberdade permitiu extrair o caráter mais dinâmico destas ex- periências. Com o decorrer do trabalho, estes textos foram revisitados e reformulados, quer com a devida distância face ao caráter emocional que os envolvia, quer mediados pela progressiva reflexão teórica – equilibrando-os e permitindo a seleção e extração do conteúdo conforme as necessidades das diferentes fases da investigação.

Como já discutido neste capítulo, no tópico reconhecer o subjetivo como legítimo, es- tes textos são inseridos ao longo do presente documento de acordo com a situação e o tema abordados. Dessa forma, acredita-se que seja possível combinar um olhar amadurecido sobre o trabalho realizado com a frescura latente do que foi vivido no trabalho de campo.

O diário ordena, através do fio narrativo, a dispersão de aconteci- mentos do dia- a-dia. Mas não ordena apenas o dado descritivo – ordenam-se uma série de cognições e de sentimentos que constan- temente se produzem no contacto permanente com a vida social do local. Escrever estas notas de terreno é, portanto, processo de cons- trução de sentido. (Fernandes, 2002, p. 26)

2.8.2 Diário imagético

O diário de palavras, ou escrito, é composto exclusivamente por texto. Entretanto, dada a natureza visual deste trabalho, optou-se por construir um diário imagético (A. C. Roberti, 2018a), formado por fotografias feitas em diferentes contextos do trabalho de campo.

Trata-se da aplicação de um processo iniciado no trabalho de mestrado (A. C. N. Roberti, 2015), que organizou as visitas ao terreno em séries fotográficas através de uma plataforma online, por ordem de acontecimento (A. C. Roberti, 2014). Cada sessão de fotos continha apenas um conjunto de imagens. Na presente investigação, entretanto, as séries são acompanhadas por pequenos textos, ou excertos de relatos e artigos mais extensos, de forma a contextualizar o momento retratado e possibilitar uma reflexão aprofundada15.

Esta plataforma é utilizada como um catálogo de imagens organizado por títulos, que pode ser facilmente consultado. O volume e a alta resolução do material produzido durante o exercício da observação, exige que os arquivos de imagem (vídeo ou foto- grafia) e áudio sejam colocados em discos externos, por uma questão de espaço. Ter

as imagens, em tamanho reduzido, disponíveis a partir de qualquer dispositivo capaz de se conectar à internet, facilitou o acesso a este banco de imagens. Para além disso, a seleção e a disposição das fotos dessa forma facilitam a visualização do material. O compromisso de preencher e organizar este catálogo, ou diário imagético, mo- tivou a análise do material visual recolhido em cada visita, de forma a que fosse realizada a filtragem das imagens que mais interessavam para o trabalho, e, assim, ir compondo a reflexão central para os objetivos da investigação. O tratamento de cada um dos arquivos selecionados, também foi capaz de otimizar o trabalho de for- ma gradativa, evitando o acúmulo de material para a pós-produção. Selecionadas e tratadas, as fotos ficaram à disposição para serem revisitadas e utilizadas conforme as necessidades do trabalho.