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2 MOVIMENTOS E CONTEXTOS

2.1 Costureiras de Vila Gustavo

Sonia Regina de Toledo nasceu na cidade de São Paulo, em 3 de marco de 1957. Filha de Darci e Maria de Toledo, ela era, por volta de 1975, uma jovem negra, solteira, de instrução primária. Ocupação: overloquista na empresa Guararapes, à época situada no número 74 da Avenida Casa Verde, no bairro paulistano de mesmo nome.

Esta história, sobre a qual dispomos não mais do que esses modestos retalhos, e que aqui é tomada de um ponto de vista primariamente simbólico, remete a capítulos pouco conhecidos não só da vida de nosso personagem, Eduardo, mas do universo cultural e político da comunidade negra na São Paulo no período de 1960-70, em pleno Regime Militar.

Sabemos da existência de Sonia pelo fato dela ter sido uma entre dezenas de alunos do curso de madureza que a Associação Cultural do Negro (ACN) promovia em sua sede, localizada, em meados dos anos 1970, no bairro da Casa Verde, Zona Norte de São Paulo. A ACN foi uma entidade do movimento negro na capital paulista que existiu entre 1954 e 1967, no Centro, e, de 1968 a 1976, na Casa Verde. O historiador Petrônio Domingues afirma que a ACN, cuja trajetória ainda não é muito conhecida e que aos poucos vem sendo desvelada por historiadores e cientistas sociais, “realizou um trabalho de mobilização e valorização do negro, procurando conscientizá-lo de sua história, de sua identidade e de seus direitos de cidadão”, sendo suas prioridades as de “atuar no terreno cultural e lúdico, promovendo

205 DELEUZE, Gilles. Um manifesto de menos; O esgotado. Trad. Fátima Saadi, Ovídio de Abreu, Roberto

palestras, cursos, apresentações teatrais, recitais de poesia, festivais, bailes, competições desportivas; publicando livros e um jornal”206.

Sonia, que presumimos fosse negra207, em paralelo ao curso de madureza da ACN, trabalhava como overloquista, que é o profissional que opera o overloque, um tipo de máquina de costura. Caminhos de pesquisa para além das bibliotecas, dos arquivos históricos e dos documentos formais, levaram-nos até a presença de João Baptista Borges Pereira, antropólogo, professor aposentado da USP, figura importante desta tese e de quem falaremos em hora oportuna. Em meio a considerações sobre a USP, a Ciência Social brasileira, o Movimento Negro, entre outros assuntos, o professor informou-nos o seguinte – e até então desconhecido – fato, relacionado à história da jovem Sonia:

Ele mantinha pelo menos umas três salas, que ele pagava, na Zona Norte de São Paulo, principalmente no bairro de Vila Gustavo, que era uma zona extremamente pobre [...]. Onde ele botou máquina de costurar, até para bordar, etc., e ele aliciava as mocinhas que não tinham emprego, domésticas, para aprender a ser costureira, que era uma forma de melhorar de vida [...]208.

Não pudemos definir com precisão o período em que este trabalho acontecia, nem se Sonia ou quaisquer outras alunas da ACN tenham sido uma dessas moças, mas o responsável era Eduardo, que na ocasião – na primeira metade da década de 1970 – cursava o mestrado em Sociologia na USP, sob a orientação de Ruy Coelho.

João Baptista conta que a Vila Gustavo fora constituída nos anos 1950 pela migração de populações rurais empobrecidas do interior do estado de São Paulo, a maioria afro- brasileira. Aliás, na mesma década e bem perto dali, em um processo migratório semelhante, outro grupo marginalizado, composto majoritariamente de negros e nordestinos, aglomerava- se na então favela do Canindé, onde Carolina Maria de Jesus viveria e conceberia o seu Quarto de Despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960. Também não muito longe da

206 DOMINGUES, Petrônio. Associação Cultural do Negro (1954-1976): um esboço histórico. In: SIMPÓSIO

NACIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH, 24, São Leopoldo, 2007. Anais… São Leopoldo: Editora Unisinos, 2007, p. 6. Disponível em: <http://anais.anpuh.org/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S24.0911.pdf>. Acesso em: 11 nov. 2016. Sem aqui nos alongarmos na história da ACN, deixamos ao leitor um dos únicos textos sobre o tema, de autoria de Mario Augusto Medeiros da Silva: Fazer História, Fazer Sentido: Associação Cultural do Negro (1954-1964). Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 85, p. 227-232, 2012.

207 Sua ficha junto a ACN não possui foto nem informação sobre cor. É considerando o público-alvo dos cursos

da ACN que fizemos essa suposição sobre a cor de Sonia. Seu registro, como os de outros tantos alunos do curso de madureza, e também dos sócios da ACN, pode ser consultado no Acervo da UEIM-UFSCAR, Coleção Associação Cultural do Negro, Fichas de sócios.

Vila Gustavo estava a sede da ACN na Casa Verde, a qual, no período compreendido entre 1968 e 1976, esteve sob a responsabilidade de Eduardo e de Gilcéria de Oliveira.

Gilcéria é uma advogava, branca, fundadora do Partido dos Trabalhadores (PT) em São Paulo, ligada a movimentos de base da Igreja Católica e com largo histórico de atuação na comunidade afro-paulistana. Em entrevista para esta pesquisa, demonstrou apurada sensibilidade quanto às lutas do negro no Brasil, e descreveu-nos ainda as atividades desta segunda e última fase da ACN. A partir de uma relação próxima com a comunidade onde a Associação estava inserida – um bairro historicamente negro –, tratava-se de afazeres lúdicos, artísticos e culturais, cursos profissionalizantes – como de costura – e aulas de alfabetização e de madureza, ministradas por instrutores e professores voluntários.

Havia no horizonte da ACN o desejo de uma emancipação do negro através da profissionalização. Essa já era, a rigor, a visão da Frente Negra Brasileira nos anos 1930, que apostava no trabalho como valor social para a educação do negro brasileiro209. Gilcéria

afirma, todavia, que o que lá se fazia também estava impregnado de um sentimento político marcante, tendo sido os cursos de alfabetização baseados no Método Paulo Freire e as atividades mais gerais pautadas por um esforço em soerguer os negros que frequentavam a ACN de um ponto de vista da consciência da negritude e da história afro-brasileira210. Essa perspectiva da consciência racial/étnica pode ser observada em um folheto de divulgação do trabalho da Associação, de data imprecisa, onde se lê o seguinte:

Particularmente, pretende [a ACN] reencontrar as raízes da cultura negra, trabalhar para divulgá-la e desenvolvê-la, caracterizar sua contribuição para a civilização brasileira, assim como as influências recebidas, porém com um espírito sempre atento na sua preservação e em evitar o seu esvaziamento. Ressuscitar e dar a conhecer ao negro certos valôres inerentes ao seu grupo, como incorporar elementos de tôdas as culturas que possam dar uma contribuição rentável à causa do negro211.

209 Cf. DOMINGUES, op. cit.

210 Estes dois parágrafos são escritos com base em informações concedidas por Gilcéria de Oliveira. Entrevista

para o autor em 25 maio 2015. O caráter político das atividades da ACN também foi enfatizado pela antropóloga Liane Trindade. Entrevista para o autor em 21 maio 2015.

211 Cf. Acervo da UEIM-UFSCAR, Coleção Associação Cultural do Negro, Folhetos. Não sabemos o ano em

que este documento foi publicado, mas, pelos acentos circunflexos em “valôres” e “tôdas”, podemos inferir tratar-se de grafia anterior à Reforma Ortográfica de 1971, que suprimiu esses acentos. Logo, é provável que o folheto tenha vindo a lume entre 1968-71. Decidimos manter ao longo da tese a ortografia tal como ela está presente nos documentos originais, sem atualização para o sistema ortográfico vigente. Mantivemos, igualmente, os constantes erros de português de EOO, sem o recurso, que seria frequente demais, da expressão “sic”. Os eventuais erros evidentes de digitação foram corrigidos, simplesmente. A deterioração de sua escrita ocorre de forma nítida e progressiva ao longo do final dos anos 1970, decorrência talvez de uma enfermidade mental que o estava supostamente acometendo, situação percebida por pessoas que conviveram com ele de perto.

Note-se que à valorização de elementos culturais negros ligava-se o sentido da ação social. José de Souza Martins relata que Eduardo “organizou para negros do bairro da Casa Verde uma escola, para a qual convidava professores da USP, com razão convencido da função emancipadora dessa ressocialização”212. João Baptista, em seu depoimento, enfatizou o caráter prático e não meramente retórico dessa militância, e bem poderia ter-se utilizado de palavras semelhantes às de Martins quando nos fez saber do trabalho que Eduardo teria mantido com as costureiras da Vila Gustavo. Além de Martins e de Gilcéria, Antonio Candido e Liane Trindade, antropóloga aposentada da USP, também participaram da ACN, e, em entrevistas, sublinharam a importância do trabalho desta entidade.

Entretanto, o contexto nacional era de forte refluxo quanto a quaisquer tipos de ações no sentido de se promover a negritude politicamente. Como se sabe, os militares no poder a partir de 1964 passaram a asfixiar e mesmo proibir a discussão do racismo no Brasil213, encampando, ao mesmo tempo, a ideologia da “democracia racial” como discurso oficial sobre as relações raciais. Se até então já era difícil para os negros brasileiros levantarem o problema do racismo em uma nação que, ao menos desde o final dos anos 1930, se imaginava, por definição, miscigenada e – consequentemente – sem conflitos raciais e sociais, com os militares adicionou-se a essa dificuldade um ambiente político acentuadamente autoritário e concretamente repressivo, principalmente durante os chamados “anos de chumbo”, entre 1968-78. Referindo-se aos motivos pelos quais a ACN fechou as portas – em sua primeira fase, em 1967 –, Mario Augusto Medeiros provê um retrato deste momento histórico: “[...] o teste mais duro da realidade envolvente é o golpe civil militar de 1964: desmobiliza o que já era precário, amedronta os que tinham dúvidas [...]”214.

Embora houvesse, com efeito, pouca margem política para o ativismo negro, ele não deixou de existir. Nem, por sinal, foi simplesmente “fermentação” histórica para o que viria a ser, em 1978, o “divisor de águas” do Movimento Negro no Brasil, qual seja, a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), em São Paulo. Devemos ver os processos históricos em seus próprios termos e a experiência humana em sua diversidade. Assim olhamos para a história de instituições e personagens pouco lembrados ou esquecidos, tais como a overloquista Sonia, os alunos de madureza da ACN, as costureiras em Vila Gustavo, mas também o próprio Eduardo. Este era, por sinal, no momento em que assumiu as tarefas da

212 MARTINS, op. cit., p. 240. Grifo nosso.

213 Cf. KÖSSLING, Karin Sant'Anna. As lutas anti-racistas de afro-descendentes sob vigilância do DEOPS/SP (1964-1983). Dissertação (Mestrado em História Social) – FFLCH-USP, São Paulo, 2007.

ACN, juntamente com Gilcéria, em 1968, um licenciado e bacharel em Ciências Sociais, mas, ponto importante, também um profissional liberal – publicitário.

Entre 1959 e 1960, Eduardo trabalhou como assistente administrativo na Metal Leve, empresa do ramo de autopeças que pertencia a José Mindlin, bibliófilo brasileiro que era, aliás, sócio da ACN, e que, anos mais tarde, em 1975, como Secretário de Cultura do Estado de São Paulo, seria a pessoa que facilitaria a contratação de Eduardo por esta mesma Secretaria. De 1961 e 1964, enquanto fazia o curso noturno de Ciências Sociais na Maria Antonia, atuou no MASP como secretário administrativo, local onde, também alguns anos depois, promoveria atividades culturais, políticas e intelectuais tematizando o negro no Brasil e nos Estados Unidos, além de estabelecer boa relação com Pietro e Lina Bo Bardi, mentores do MASP. Ainda, entre 1965 a 1971, trabalhou como publicitário na sede paulista da Standard Propaganda, condição que lhe possibilitou considerável ascensão socioeconômica215.

Apresentamos essas informações para dizer que Eduardo, àquele período, entre as décadas de 1960-70, na qualidade de um negro de classe média e com formação universitária, poderia ser membro de um dos mais importantes e duradouros grupos do Movimento Negro em São Paulo nos anos 1970: o Grupo de Trabalho de Profissionais Liberais e Universitários Negros, o GTPLUN, cuja história pouco se conhece.

Para melhor entendermos o contexto no qual nos situamos, e, ainda, para matizarmos as facetas da comunidade afro-paulistana nesses anos de grande incerteza política, mas também esperança, detenhamo-nos por algumas páginas na história do GTPLUN.