SOUZA, Arshamã Luara Universidade Federal do Ceará (UFC) [email protected] CARVALHO, Máspoli Igor Universidade Federal do Ceará (UFC) [email protected]
Eixo temático 2: Estado, sociedade e políticas educacionais
RESUMO
O trabalho objetiva investigar a influência das políticas neoliberais na matriz curricular do curso de Pedagogia de uma universidade federal brasileira. Trabalha-se com ementas das disciplinas que corroboram com os princípios e ideias neoliberais do curso de Pedagogia. Desenvolve-se uma pesquisa de cunho bibliográfico-documental, usando o método materialista histórico-dialético. Como conclusão preliminar tem-se que o currículo tem sofrido interferências do projeto neoliberal, na medida em que adequa o ensino aos seus objetivos.
Palavras-chave: Política da educação no Brasil. Educação superior. Política neoliberal.
Formação do pedagogo.
1 INTRODUÇÃO
Desde a década de 1990, uma grande ofensiva neoliberal tem se desenhado a fim de atender aos interesses de desenvolvimento capitalista da classe dominante, que se utilizam de conferências e fóruns para delimitar seus objetivos e áreas de atuação mundiais a fim de atingir esse desenvolvimento, que no campo educacional, seria o ensino dirigido para a racionalidade empresarial: eficiência, objetividade e lucros (SAVIANI, 2013). O Consenso de Washington ocupa posição central na formação desses interesses sobre os países da América Latina. Tratam-se de políticas econômicas que vão requerer a remodelação das políticas educacionais dos países subordinados, como é o caso do Brasil (Ibidem), e o Banco Mundial, organismo multilateral, é o responsável por organizar e financiar essas reformas.
O Banco Mundial amplia o interesse pelo campo da educação após a necessidade de reorganização estrutural do capitalismo na década de 1970 para retomar a taxa de lucro (BIANCHETTI, 2005). A partir disso, o Banco Mundial desenvolveu diretrizes educacionais dimensionadas pelo modo de produção capitalista em função do capital. A busca pelo
lucro desdobrou-se na subsunção do homem à lógica do capital, tanto no aspecto objetivo (material) como subjetivo, consolidando a ideologia da classe dominante, que repercutem firmemente na política educacional.
Para o modelo neoliberal fomentado pelo Banco Mundial e outros organismos multilaterais, é necessário formar um novo cidadão apto para sobreviver no século XXI. (DUARTE; MARTINS, 2010). Esse cidadão deve se apropriar dos “códigos da modernidade” para ter oportunidades de emprego. Visto que essa formação é responsabilidade da escola, a formação de professores (cursos de pedagogia e demais licenciaturas) passa por um redirecionamento onde seus currículos perdem conteúdos, seguindo para um caminho de esvaziamento científico e pragmatismo da profissão docente.
Com base nessas referências, nosso objetivo com esse trabalho é analisar as influências das políticas neoliberais na matriz curricular do curso de Pedagogia de uma Universidade Federal (UF) brasileira, discutindo uma nova matriz curricular do curso, recentemente alterada, e focando em certas disciplinas que tiveram suas ementas radicalmente mudadas ou carga horária alterada.
Utilizamos da pesquisa bibliográfica para fundamentação das discussões acerca do neoliberalismo e a educação e da análise documental para refletir sobre as mudanças do currículo do curso.
2 DESENVOLVIMENTO
Para melhor controle ideológico, a educação se torna ferramenta subordinada que auxilia na manutenção do modo de produção capitalista, enfatizando nos trabalhadores a necessidade da polivalência, flexibilidade, disponibilidade e vontade (SAVIANI, 2013). Além disso, o Banco Mundial também utiliza dessa forma de controle na elaboração de suas diretrizes e conselhos sobre educação, criando uma fundamentação baseada na positividade da competitividade mercadológica, ainda que antagonicamente e de maneira idealista tente defender um suposto sentimento de solidariedade entre os homens.
Para fundamentar as novas diretrizes educacionais surge a teoria da pedagogia das competências. Esta surge pela primeira vez como tarefa pedagógica para aquisição de habilidades na década de 1960, a partir da matriz behaviorista (Ibidem). Em consonância com as novas necessidades do mercado, a pedagogia das competências exige do educando uma racionalidade mais instrumental (funcional, imediata, adaptativa), ou seja, puramente pragmática, esvaziada de conteúdos e dos professores a sobreposição da forma sobre o conteúdo. Em suma, para os professores, é mais importante aprender como ensinar do que o que ensinar.
A partir disso, a formação de professores adaptou-se a tal controle, elaborando no currículo das licenciaturas formas de ensinar que despertem e desenvolvam nos estudantes, as características necessárias para serem aceitos no mercado de trabalho. Com o constante aprofundamento da crise do capital e as ameaças sobre a sobrevivência das massas trabalhadoras, essa determinação se torna mais urgente e aceleram-se as políticas neoliberais já vigentes para o ensino superior.
No Brasil, com a resolução CNE/CES nº 2/2015, os cursos de licenciaturas foram obrigados a reestruturar seus currículos, e dentre as prerrogativas do documento está o aumento da carga horária do estágio curricular obrigatório. No entanto, este aumento não garante a melhor preparação dos professores em formação, além de perpetuar a tendenciosa ideia de que a prática e técnica são mais valiosas que a teoria e o fundamento.
Na UF onde a pesquisa foi realizada houveram mudanças significativas na carga horária de disciplinas ditas como “teóricas” nos dois primeiros períodos do curso de licenciatura em questão. As disciplinas de Filosofia da Educação I e Sociologia da Educação I do primeiro período permaneceram com carga horária de 64h como no currículo anterior e sua ementa foi apenas revisada, mantendo os mesmos conteúdos. Entretanto, as disciplinas Filosofia da Educação II e Sociologia da Educação II, apesar de manterem os mesmos conteúdos em suas ementas, sofreram a redução em sua carga horária de 64h para 32h, compreendendo um currículo voltado prioritariamente para uma visão educacional mais prática e técnica do que teórica e fundamentada.
Além disso, houve o acréscimo de uma disciplina no semestre inicial do curso, nomeada “Tecnologias educacionais, raciocínio lógico e mediações pedagógicas”, que engloba tecnologias analógicas e digitais na educação, processos lógicos em tecnologias, teoria dos modelos, entre outros assuntos. A preocupação com essa disciplina se dá pela iminente ameaça das práticas virtuais na educação, colocadas de forma a auxiliar na manutenção do modo de produção capitalista. Tais práticas estão majoritariamente voltadas para um aprendizado lógico e tecnicista do estudante, normalmente usando estratégias que os preparem para a competição de mercado, sem focar numa tecnologia humanitária que desenvolva sentidos solidários e benéficos para a vida social.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o avanço da crise capitalista é exigida da educação desempenhar o papel de reorganizar por classes as exigências do mercado. Por meio de uma escolarização esvaziada de conteúdos científicos e sem relação com as reais necessidades da classe trabalhadora, a escola se torna um polo de formação de trabalhadores sem os
conteúdos necessários para construir uma socialização crítica, ativa e proporcionadora de transformação.
E essa formação não se faz sem os professores, portanto, observamos as reestruturações pelas quais os currículos dos cursos de licenciatura estão sendo submetidas como mais uma forma de adequação às exigências do capital. No caso da UF onde realizamos a pesquisa e especificamente no currículo do curso analisado, podemos vislumbrar professores extremamente tecnicistas, pois se coloca a inutilidade das áreas de Filosofia e Sociologia.
Em contrapartida disso, mas em curso com as novas configurações do mercado, a nova disciplina com a temática sobre tecnologias e educação nos coloca para o debate: apesar da ascensão das tecnologias digitais, principalmente no âmbito educacional, de que forma essa cadeira está sendo colocada? Como uma tecnologia preparatória para o mercado de trabalho ou voltada para o desenvolvimento de técnicas que auxiliam no compreendimento da história? Seria imprescindível adicioná-la no currículo em detrimento de áreas que ajudam a compreender a atual conjuntura política do país e do mundo?
REFERÊNCIAS
BIANCHETTI, Roberto Geraldo. O modelo neoliberal e políticas educacionais. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
MARTINS, Lígia Márcia; DUARTE, Newton (Org.). Formação de professores: limites contem- porâneos e alternativas necessárias. São Paulo: Editora UNESP, 2010.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Resolução CNE/CES nº 2/2015, de 1º de julho de 2015. Diário
Oficial da União, Brasília, 02 jul. 2015. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/docman/
agosto-2017-pdf/70431-res-cne-cp-002-03072015-pdf/file>. Acesso em: 10 out. 2018. SAVIANI, Dermeval. Histórias das ideias pedagógicas no Brasil. 4. ed. Campinas: Autores Associados, 2013.