Com o propósito de esclarecer os principais termos abordados nesta pesquisa, apresentam-se a seguir as definições constitutivas e percursos empíricos das categorias investigadas.
CAPACIDADES DINÂMICAS
Definição constitutiva: As capacidades dinâmicas podem ser entendidas
como a habilidade da organização para integrar, criar e reconfigurar competências em resposta às mudanças de ambientes altamente dinâmicos (TEECE; PISANO; SHUEN, 1997) ou moderadamente dinâmicos (EISENHARDT; MARTIN, 2000). As capacidades dinâmicas surgem e evoluem, em grande parte, por meio do aprendizado e história organizacional (TEECE, 2014). Assim sendo, elas são desenvolvidas ao longo do tempo e, como processos (EISENHARDT; MARTIN, 2000) são “necessariamente ‘dependentes da trajetória organizacional’” (CHIA, 2017, p. 601); portanto, baseadas na história. Tais processos ocorrem por meio de um conjunto de relações e práticas sociais, envolvendo as atividades de monitoramento do ambiente (sensing), apreensão de oportunidades (seizing), e reconfiguração da base de recursos (reconfiguring). Essas atividades, que são de nível organizacional, são fundamentadas em capacidades gerenciais cognitivas (HELFAT; PETERAF, 2014).
Subdimensões das capacidades dinâmicas:
MONITORAMENTO DO AMBIENTE (SENSING)
Definição constitutiva: O monitoramento do ambiente diz respeito às atividades de
identificação, criação, aprendizagem e interpretação de oportunidades e ameaças tecnológicas e de mercado (TEECE, 2007), que podem envolver diversos atores organizacionais (MACLEAN; MACINTOSH; SEIDL, 2015).
Percurso empírico: Essa categoria foi investigada a partir das ações
organizacionais relativas às atividades de sensing, conforme Quadro 4. Para obtenção desses dados, foram realizadas entrevistas com atores organizacionais envolvidos e pesquisa documental.
APREENSÃO DE OPORTUNIDADES (SEIZING)
Definição constitutiva: A apreensão de oportunidades refere-se às atividades
organizacionais para aproveitar (e moldar) as oportunidades de mercado anteriormente identificadas e interpretadas pelos atores organizacionais (TEECE, 2014). Envolve o reconhecimento de pontos de inflexão no mercado (WILDEN; DEVINNEY; DOWLING, 2016) e, a partir disso, habilidades para desenvolver produtos, processos e serviços adequados às novas demandas.
Percurso empírico: Essa categoria foi investigada a partir das ações
organizacionais relativas às atividades de seizing, conforme Quadro 4. Para obtenção desses dados, foram realizadas entrevistas com atores organizacionais envolvidos e pesquisa documental.
RECONFIGURAÇÃO DE RECURSOS (RECONFIGURING)
Definição constitutiva: A reconfiguração de recursos corresponde à constante
renovação e reconfiguração dos ativos (tangíveis e intangíveis) conforme as mudanças tecnológicas e de mercado (TEECE, 2017). Essa renovação e reconfiguração corresponde ao “processo, conteúdo, e resultado da atualização ou
substituição” dos ativos da organização que “podem afetar substancialmente suas perspectivas de longo prazo” (AGARWAL; HELFAT, 2009, p. 282).
Percurso empírico: Essa categoria foi investigada a partir das ações
organizacionais relativas às atividades de reconfiguring, conforme Quadro 4. Para obtenção desses dados, foram realizadas entrevistas com atores organizacionais envolvidos e pesquisa documental.
CONSCIÊNCIA HISTÓRICA
Definição constitutiva: como microfundamento cognitivo das capacidades
dinâmicas, subjacente às atividades de sensing, seizing e reconfiguring (SUDDABY et al., 2019), reflete a habilidade de pensamento pela qual os gestores constroem sentido para o passado (WADHWANI et al. 2018).
Percurso empírico: Essa categoria foi investigada a partir de identificação de
elementos que demonstraram a consciência histórica dos gestores, isto é, como eles pensavam, discutiram, tornaram signicativo e atribuíram sentido ao passado para realizar as atividades de sensing, seizing e reconfiguring. Para obtenção desses dados, foram realizadas entrevistas com atores organizacionais envolvidos e pesquisa documental.
HISTÓRIA OBJETIVA
Definição constitutiva: A história objetiva refere-se à visão de história como o
acúmulo de fatos do passado, que são exógenos à organização e ocorrem com determinada previsibilidade (SUDDABY; FOSTER; QUINN-TRANK, 2010). Nessa perspectiva, a história segue uma lógica sequencial e padronizada entre eventos, que possibilita o gestor prever mudanças tecnológicas a partir da análise de dados históricos objetivos (SUDDABY et al., 2019).
Percurso empírico: Essa categoria foi investigada a partir de identificação das
ações organizacionais ocorridas com análise de dados históricos objetivos para prever mudanças tecnológicas. Utilizou-se como base as ações que refletem: (1) uso
de raciocínio histórico diacrônico para entender as mudanças ao longo do tempo; e (2) uso de raciocínio histórico sincrônico para identificar a difusão das tecnologias no mercado (SUDDABY et al. 2019). Para obtenção desses dados, foram realizadas entrevistas com atores organizacionais envolvidos e pesquisa documental.
HISTÓRIA RETÓRICA
Definição constitutiva: Histórica retórica consiste na visão de história como “o
processo pelo qual gestores habilmente impõem significados ao passado da organização” (FOSTER et al., 2011, p. 104). Nessa perspectiva, a história é tratada como narrativa, uma forma de se contar história, muitas vezes a partir de ficções ou tradições inventadas (SUDDABY et al., 2019).
Percurso empírico: Essa categoria foi investigada a partir de ações organizacionais
ocorridas com uso de história retórica para convencer stakeholders sobre mudanças organizacionais. Utilizou-se como base as ações que demonstram a habilidade dos gestores para: (1) estruturar a mudança para que seja percebida como continuidade; (2) reinterpretar o passado para facilitar o convencimento de possíveis opositores sobre a necessidade de mudança; e (3) reparar as contradições entre os promotores da mudança e seus opositores (SUDDABY et al., 2019). Para obtenção desses dados, foram realizadas entrevistas com atores organizacionais envolvidos e pesquisa documental.
HISTÓRIA IMAGINATIVA
Definição constitutiva: História imaginativa diz respeito à visão de história como o
uso do passado para legitimar um futuro imaginado (SUDDABY et al., 2019). Essa perspectiva de história requer dos gestores uma forma de cognição imaginativa denominada de “pensamento no futuro perfeito” (PITSIS et al., 2003). Ao adotar tal pensamento, os gestores tentam moldar a percepção de futuro dos stakeholders em direção à mudança (GIOIA, CORLEY, FABBRI, 2002).
Percurso empírico: Essa categoria foi investigada a partir de ações organizacionais
em direção à reconfiguração estratégica. Utilizou-se como base as ações realizadas em cada nível de reconfiguração: (1) no nível de produtos, considerou-se as ações que refletem a utilização de conhecimento sobre a gramática da tecnologia para identificar novos usos para produtos já existentes; (2) no nível organizacional, levou- se em conta as ações que indicam reconfiguração de estratégia, estrutura e processos; (3) no nível de mercado, analisou-se as ações que denotam o uso de pensamento no futuro perfeito (na forma de sensemaking prospectivo) para convencer o mercado sobre a inovação com argumentos baseados em história (SUDDABY et al., 2019). Para obtenção desses dados, foram realizadas entrevistas com atores organizacionais envolvidos e pesquisa documental.
3.3.1 Definição de outros termos relevantes
Recursos organizacionais: Referem-se aos aspectos materiais (e.g., recursos
financeiros, físicos) e simbólicos (e.g., recursos históricos, humanos) usados pela organização para desenvolver, fabricar e entregar produtos e serviços para seus clientes (BARNEY, 1991).
Virada histórica: Corresponde a um crescente apelo por uma consciência histórica
nos estudos organizacionais e na administração (BOOTH; ROWLINSON, 2006) que vem sendo propagado por diversos teóricos organizacionais. Tal “virada histórica” implica em questionar a retórica científica dos estudos organizacionais, oferecendo uma abordagem em que a história é vista como a (re)construção e (re)interpretação do passado (CLARK; ROWLINSON, 2004).
Passado: Conjunto de todos os eventos ocorridos cronologicamente antes do
presente, independentemente do conhecimento de um evento em particular (WADHWANI et al., 2018).
Gramática da tecnologia: Termo empregado por Hard e Knie (1999) que se refere
à lógica de padronização da produção de tecnologia definida por um grupo específico de empresas dentro de uma indústria.
Fio invisível de micro-inovações: Diz respeito aos pequenos avanços tecnológicos
que se acumulam lentamente ao longo do tempo, fazendo com que as tecnologias compartilhem de uma longa história de inovação incremental, isto é, de micro- inovações a partir de tecnologias anteriores (BERNSTEIN, 2002).