3.5 LIMITAÇÕES DA PESQUISA
4.1.2 Origem e desenvolvimento do setor de TIC no Brasil
A criação e consolidação do setor de informática e, mais amplamente, de TIC no Brasil estão profundamente ligadas, por um lado, à existência de uma forte demanda interna por bens e serviços de informática, e por outro, à implementação de um conjunto de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento industrial e tecnológico do país nos anos 70 (ROSELINO, 2006).
Segundo Botelho et al. (2005), no início da década de 1970, durante o governo militar, observa-se um modelo de desenvolvimento tecnológico baseado na
substituição das importações, em que se estabeleceu uma política de informática baseada na reserva de mercado. A intenção do governo, segundo os autores, era desenvolver capacidades que tornassem as empresas nacionais competitivas internacionalmente.
Entretanto, foi na década de 1980, com a implementação da Política Nacional de Informática (PNI), regularizada pela Lei nº 7.232/84, que a indústria brasileira de TIC apresentou avanços. Esse desenvolvimento é observável a partir de um significativo aumento do número de empresas no setor, diversificação dos produtos ofertados, e crescente demanda interna de bens e serviços de informática nos demais setores produtivos (DIEGUES, 2010).
No nível econômico, a década de 1980, conhecida como a “década perdida” representou um período de grande recessão econômica no país, marcada pelo alto nível de desemprego, redução da taxa de crescimento do PIB e aceleração da inflação. Marangoni (2012) destaca que a crise resultou em uma taxa de desemprego de cerca de 9%, além de uma queda drástica na taxa média do PIB comparado aos cinquenta anos anteriores. Segundo o autor, em toda a década de 1980, o PIB cresceu à uma taxa média de apenas 1,7% e a inflação anual de 1989 atingiu 1863%. Tal período de altos níveis inflacionários, entretanto, contribuiu para que o país desenvolvesse uma das mais modernas tecnologias bancárias do mundo (SPADINGER, 2012).
A década de 1990 foi caracterizada por uma série de transformações no cenário econômico brasileiro motivadas pela nova orientação política com o governo Collor. Kubota e Sousa (2012) apontam que o setor de informática, antes protegido pela PNI, sofreu profundas mudanças decorrentes do fim da reserva de mercado, além da abertura comercial e da privatização da Telecomunicações Brasileira S/A (Telebrás). Na visão desses autores, tais medidas culminaram em um forte ingresso de empresas estrangeiras no mercado brasileiro, mudando o cenário para as empresas nacionais de tecnologia. Em uma tentativa de mitigar a ameaça das multinacionais estrangeiras, em 1991 é aprovada a Lei de Informática (Lei nº. 8.248), dispondo sobre incentivos fiscais à produção nacional de equipamentos de informática (SZAPIRO, 2012).
No âmbito internacional, o fim da década de 1990 e início dos anos 2000 foram marcados pelo evento que ficou conhecido como a bolha da Internet. Silva, Ziviani e Ghezzi (2019) explicam que a alta popularização da Internet, a expectativa
na valorização das ações das chamadas empresas “ponto com”, bem como o aumento da concorrência no final dos anos 1990 culminou no colapso da bolha especulativa. Segundo estes autores, diante da recessão econômica, várias empresas passaram por processos de vendas e fusão, constituindo o atual oligopólio da rede, cuja principal característica é a prestação de serviços informacionais, tais como provedores de internet, computação em nuvem, plataformas, aplicativos,
softwares, dentre outros.
Nos anos 2000, cabe ressaltar o episódio da crise do subprime iniciada entre 2007 e 2008. Com origem nos EUA, o estouro da bolha imobiliária deu início a uma das maiores recessões econômicas da história mundial (BORÇA; TORRES, 2008). Apesar do cenário de crise em nível global, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) (2010), o setor de TI brasileiro apresentou relativa estabilidade, com um crescimento de 4% em 2009 comparado ao ano anterior. Em 2010, o setor já apresentava sinais de recuperação, com um crescimento de 21,3% (ABES, 2011).
Em 2012, os investimentos em TI no Brasil apresentaram um crescimento expressivo, com aumento de quase 11% comparado ao ano de 2011, colocando o país entre os 10 países com os maiores crescimentos setoriais (ABES, 2012). Em 2015, mesmo em um cenário de político econômico desfavorável, os investimentos em TI no Brasil continuaram am alta, com aumento de 9,2% em relação em 2014 (ABES, 2016) que, entretanto, vieram a reduzir 3,6% em 2016 com a persistência da crise política econômica (ABES, 2017).
Em termos de exportações, em 2017, o segmento de TI no Brasil exportou cerca de 2 bilhões de dólares, o que correspondeu a 7,05% do total de serviços exportados pelo país naquele ano (SOFTEX, 2019). Segundo dados da Assespro- PR (2019), apesar da taxa de crescimento acumulada das exportações brasileiras de serviços de TI entre o período 2010-2017 tenha sido expressiva (258%), a participação do Brasil no montante mundial foi de 0,4%, o que ainda é pouco representativo quando comparado ao mercado internacional. Um provável motivo para a baixa participação das exportações brasileiras no mercado global pode ser atribuído às características originárias do setor. Conforme Roselino (2006) explica, diferentemente de países como a Índia e Irlanda, cujas indústrias de TIC se formaram voltadas para o mercado de exportação, no caso do Brasil, a indústria teria se originado voltada primariamente para o mercado interno.
Ainda segundo o relatório da Brasscom (2019), no período que compreende os anos de 2011 a 2018 (ver Figura 3), o crescimento médio do setor de TIC no Brasil foi 8% ao ano e atingiu o pico de 14,4% em 2013, tendo como principais motivadores a desvalorização do Real e o aumento produtivo de provedores de TIC, como softwares, TI In House, BPO e das exportações. Durante esse mesmo período, observou-se que o setor cresceu nominalmente acima do PIB entre 2012 e 2015, com uma queda no desempenho no ano de 2016, devido à retração dos mercados de provedores de software e hardware. Entretanto, o segmento apresentou recuperação em 2017, com crescimento nominal de 9,1%, acima da taxa de crescimento do PIB daquele ano. Em 2018, acompanhando a economia nacional, o setor apresentou uma queda no desempenho, crescendo nominalmente 4,2%, taxa levemente superior à do PIB que foi de 4,1% (BRASSCOM, 2019).
FIGURA 3 – SETOR TIC X PIB NACIONAL
FONTE: Brasscom (2019)