2 O SIMBOLISMO E O RELIGIOSO
2.4 Desatando o mal, reencantando os objetos
A condição de encantamento não traz, necessariamente, um confronto direto com o "desencantamento", que constitui uma realidade em cujo processo de racionalização expulsou do seu convívio como meio de conhecimento os conteúdos da imaginação,
30 (Cf. O Neoliberalismo na América Latina, 1996, p. 12-19). As análises mais significativas constatam um agravamento do fosso social entre os beneficiários do crescimento e os que são excluídos dele (Cf. FORRESTER, 1997; SENNET, 2004; MORE, 1999).
entendidos por ela como ilusão (incluem-se aqueles produzidos pela consciência religiosa e, mais exatamente, pela própria religião). Os efeitos secularizantes não ofuscaram o poder de encanto que ainda reluz do ouro. Nessa perspectiva, se, no passado ou no presente, ancora-se o dinheiro nas costas do diabo, pelo fato de este reter aquele para si em favor do perigo (embora o dízimo, historicamente, na cultura judaica antiga, tenha sido de Deus, mas não desde sempre dinheiro (Cf. ATTALI, 2003, p. 39 et seq.), para simbolizar, com tal fato, sua estreita relação com as coisas do mal, hoje o dinheiro é feito instrumento do bem, quando depositado em altar, em forma de doação.
A questão, para nós, não reside em saber o que foi com certeza “desatado”, “desamarrado”, “resolvido” concretamente na vida, por exemplo, dos entrevistados para este estudo. Todavia, no roteiro das nossas entrevistas, não deixamos fora questões assim: você recebeu alguma bênção? Qual foi a maior bênção que você recebeu e como foi isso? 31. Chamou-nos a atenção, que é de nosso interesse, o fato de que, nos rituais neopentecostais, o dinheiro é apresentado, nomeadamente, como “ferramenta de Deus”; o seu depósito em altar, “sacrifício”, revela a força do dinheiro a incidir sobre a vida do fiel. Ao desprender-se daquilo que o impede de ofertar, o fiel revigora-se com o Poder Superior, que o abençoará com abundância. Trata-se de uma verdade inerente a todo Neopentecostalismo, a qual, sem dúvidas, encanta. Daí, é contraditório taxar determinada expressão neopentecostal de “religião de mercadoria” por causa da forte presença do dinheiro no espaço de culto.
Nesse ângulo, o símbolo reencanta o mundo. Sempre. A força esclarecedora da razão é insuficiente como instrumento absoluto de explicação e resposta aos problemas que se mostram no palco da trama histórica da vida humana. O reencanto por meio do símbolo, por ser este uma constante antropológica, não tem fim. É isso, por exemplo, que está na noção de potlatch, a que se refere Marcel Mauss. Mas o desejo do reencantamento pelo símbolo
31 Nos anexos, expomos o roteiro das entrevistas para apreciação. De fato, a questão das bênçãos, mesmo que a elas não nos referíssemos em nosso roteiro, o fiel testemunharia necessariamente.
reside, justamente, em como enfrentar as relações edificadoras do desencanto, em outras palavras, as que contribuem para esvaziá-lo, tornando-o inútil, daí arrefecê-lo, congelando-o em uma única imagem como verdade, para distorcer-lhe o sentido fundamental.
A racionalização instrumental como denúncia há muito verificada, por certo, foi uma das formas dispostas pela modernidade de realização emancipatória. Entretanto, em seu processo de contínua afirmação – aliado ao modo de produção capitalista – trouxe consigo, por conseqüência, um jeito moderno de submissão ao real: primeiro, o fetiche (da mercadoria); segundo, o virtual (pela tecnologia). Essas duas formas de submissão ao real mostraram-se como possibilidade maior do apagamento do simbólico verdadeiro, que não engana nem se reduz à eficiência material ou visual de um produto expressa no “design” capitalista, que provoca e seduz pela imagem, sem propor a valorização do humano, e sim do capital. (HAUG, 1997).
Os desejos fundamentais de uma pessoa podem ser esquecidos quando, aos poucos, ela se põe a tomar, como seus os desejos de outra realidade que revela, por exemplo, apenas, sede de lucro. Na hermenêutica neopentecostal, há uma possessão demoníaca instalada, fruto desse ethos social. E, em linguagem antiga, a possessão demoníaca acontece, quando não mais conseguimos fazer o que é o “nosso desejo”, pois a “nossa verdade” vai sendo esquecida. Arrefecem-se os nossos símbolos. Então, como recuperá-los?
O imaginário permanece mais que nunca necessário; é de algum modo o oxigênio sem o qual toda vida social e coletiva se arruinariam. É feito de todas as imagens que cada um cria a partir da apreensão que tem de seu corpo e de seu desejo, de seu ambiente imediato, de sua relação com os outros, a partir do capital cultural recebido e adquirido, bem como das escolhas que provocam uma projeção no futuro próximo (BALLANDIER, 1997, p. 232).
A trajetória de vida é matéria-prima a compor o processo de adesão religiosa. E acreditamos ter sido assim. Uma situação de vida, em que pese o negativo, é sempre experiência que traz desencantamento. Contudo, desencantamento sempre foi entendido, em
primeiro lugar, como percepção dos indivíduos acerca do esvaziamento do mistério nas coisas, por causa do avanço das formas concretas na perspectiva do esclarecimento; por conta disso, em crítica ao secularismo, diz-se que ocorre o apagamento da luz divina como salvaguarda de uma origem.
O universo religioso neopentecostal não está imerso no mar de magia no interior do qual o dinheiro poderia aparecer pobre de significação. Tratando-se de um bem que os fiéis procuram obter normalmente dentro do universo mágico, ele é entendido como um fim meramente racional (Cf. PIERUCCI, 2003, p. 75). Esse não é um caminho plausível, conforme nossos propósitos, para aprofundarmos a compreensão de um objeto que demarca forte presença em determinado universo religioso.
O altar é o lugar onde se depositam objetos para receberem o encanto divino e ou serem reencantados. No instante do referido depósito, eles passam a ter o poder de desfazer – já que agora se transformam em "ferramentas divinas” – os infortúnios do fiel os quais incidem sobre a vida econômico-financeira "amarrada". Nessa perspectiva, entre tantos objetos, se o dinheiro é oferta no altar e abençoado em nome de Deus, ele passa a desempenhar duas funções: uma, crescimento da obra, pois, como objeto e valor de uso, fica; outra, oferenda, que vai chegar às mãos de Deus para Ele, mediante tal oferta, digna de sacrifício, desamarrar a vida financeira ou outra dimensão qualquer da vida impedida de prosperar. Na realidade, o simbólico se sobrepõe ao real (sem que isso signifique separação um do outro), porquanto, na doação, o sentido que o coração humano dá às coisas é o que mais conta – ela se transforma, em elemento vital ou acompanha o fluxo da vida.
Poderíamos demonstrar tal afirmação, referindo-nos ao campo 32 evangélico 33 neopentecostal e tomando por base o objeto central de nosso estudo: o dinheiro. O maligno,
32 Lembramos que, a partir do capítulo quarto deste estudo, teceremos discussão referente ao Neopentecostalismo. O Neopentecostalismo constitui-se nosso referencial abrangente no qual situamos a Igreja Internacional da Graça de Deus. A noção de campo é entendida como lugar de expressão de forças e de relações objetivas entre agentes que aí se encontram, planejam e tomam posição que oriente suas ações de engajamentos
tanto quanto os anjos, povoa ainda imaginários coletivos religiosos institucionalizados ou não e mentalidades de indivíduos a insistir em acreditar (e reproduzi-los), nas suas relações cotidianas, em crenças que os fazem sentir seguros em um mundo que havia posto por terra os mistérios que os envolviam. Por exemplo, quando se associa o dinheiro com o maligno, que o tranca, acarretando na vida do fiel uma "derrota", é porque ele, o dinheiro, como realidade material, mesmo sob a ação do mal, se investe de poderes do alto: está como elevado à condição de encantamento. Sob tal condição, o fiel também será "desamarrado", pois a fé em Deus é a força que desatará o nó que está a prender a vida próspera em sua dimensão econômico-financeira. O dinheiro, por exemplo, como dízimo é apresentado na condição de algo separado – parte pertence a Deus, parte da vida doada por mais vida que se quer de volta. A expressão de que a vida financeira de determinado fiel pode estar “amarrada” é profundamente significativa, porque, nesse tipo de infortúnio, só o demônio pode reter, e não liberar34. Ele retém dinheiro, porque, na hermenêutica eclesiástica neopentecostal em favor dos fiéis, o referido ser maligno quer que a vida sempre esteja em perigo, o que significa, no mínimo, estar quase sem vida ou tê-la por um fio. Se afirmarmos, nessa lógica, que os bancos se constituem em instituições demoníacas, por reter dinheiro, por meio de juros extorsivos, de quem a tal credor estiver devendo, a vida do devedor corre sério risco de desaguar nos braços da pobreza. Isso seria, portanto, a nosso ver, equivalente a “quem deve abandonou parte de sua energia com seu credor”.
no referido campo. Para noção mais específica de “campo religioso”, ver “Gênese e estrutura do campo religioso” (cf. BOURDIEU, 1992, p. 26).
33 O termo “evangélico” no Brasil é usado de forma genérica para aqueles que comumente são identificados por “protestantes”, apesar de o Pentecostalismo clássico, a exemplo da Assembléia de Deus, discordar de que os neopentecostais tomem para si a designação de “evangélicos” (Cf. BURITY, 1997, p. 71); Mendonça (2006, p. 97-98) diz ter dúvidas quanto a designar os neopentecostais de “evangélicos”, pois “como referência precária não se ajusta às novas religiões que pretende agrupar”.
34 O capítulo quinto, intitulado “A Igreja Internacional da Graça de Deus: o Espírito do Dízimo”, construído com base em nossas observações de campo, durante os cultos realizados sempre às terças-feiras pela Igreja da Graça, revela a complexidade do drama sacrifical presente nos rituais neopentecostais. Dimensões da vida humana, por se apresentarem em dificuldades, são entendidas e interpretadas sob a ação do demônio. Essa nossa reflexão toma por base o referido capítulo, que, mais adiante, poderemos apreciar melhor.
O dinheiro é uma realidade desejada. Há luta, esforço quase sobre-humano e desprendimento de energias que mobilizam milhões de pessoas, no planeta inteiro, a buscar uma das realizações mais antigas do sonho humano: ter dinheiro. Enquanto coisa, tal realidade não tem mistério: há explicação plausível, enquanto realidade transformada, a cada período de sua história. Assim, podemos afirmar que ele nunca foi o mesmo – de chocolate até cheque eletrônico –, pois, no seu processo de desenvolvimento tecnológico, não só incorporou quantidade de valor devidamente mensurada, mas também teve facilitados o manuseio e o entesouramento. Mudaram-se o nome e a coisa como mediação do processo de troca. O caminho percorrido de mudanças significativas em torno de realidade tão cobiçada se poderia chamar de monetarização. E muita coisa foi tão inventiva, a ponto de agradar – inclusive a Deus – aos especialistas que, por tradição, desempenham a função de administrar o sagrado:
As pessoas constataram que o dinheiro era um substituto conveniente para vários serviços e tributos devidos a autoridade política e religiosa. Em vez de dar uma porção de sua safra para o Senhor, o lavrador simplesmente pagava um tributo. Em vez de dar uma parte da própria produção à igreja ou templo, as pessoas podiam fazer contribuições monetárias. Até mesmo o serviço a Deus passou a ser valorizado em termos monetários. Deus não queria mais os primeiros frutos da colheita ou os animais nascidos na primavera. Deus ou pelo menos os padres, queriam dinheiro. (WEATHERFORD, 1999, p. 39).
Amêndoas amargas, cacau, milho, sal ou caracóis (Cf. GALIANE, 2000, p. 55): nomes dados à moeda, ao dinheiro. Mas não nos ocupemos com nomes, conforme nossos propósitos, e sim com essa invenção humana a representar o mundo humano – realidade metafórica, isto é, quer dizer outra coisa:
Permite que os seres humanos estruturem a vida de formas incrivelmente complexas que não se encontravam disponíveis antes da invenção do dinheiro. A qualidade metafórica concede-lhe um papel de enfoque na organização do significado na vida. O dinheiro representa uma forma infinitamente ampliável de estruturar o valor e as relações sociais, pessoais, políticas e religiosas bem como comerciais e econômicas. (Ibid., p. 46).
No capítulo a seguir, trataremos o dinheiro como símbolo. Situado em práticas de rituais religiosos, o caminho mais plausível para a apreensão do que revela como uma outra
coisa é tomá-lo por símbolo. Assim, o dinheiro será entendido como objeto que atua, de modo eficaz, sobre a realidade social, apresentando-se, contudo, de maneira não muito comum, dado que a sua natureza de ser, universalmente, apenas concretiza a realização objetiva de troca, pois, do ponto de vista do valor, é um equivalente geral. Como símbolo, há que se admitir certo número de operações a demarcar-lhe a existência. Isso tornará compreensível a sua tão forte presença no dia-a-dia de certas expressões religiosas acusadas, de forma absoluta, de mercantilistas.