• Nenhum resultado encontrado

4 RODA DE CONVERSA COMO EVENTO DE LETRAMENTO PARA

4.1. DESCRIÇÃO DO EVENTO “RODA DE CONVERSA”

Passarelli (2004, p. 20), ao discorrer sobre o sentimento de aversão e apreensão demonstrado pelos estudantes diante da tarefa de dar vida à folha em branco, aponta algumas causas que provocam desânimo e falta de vontade de imprimir suas ideias nas inúmeras linhas a serem preenchidas. Uma das causas elencadas é incompreensão por parte dos educadores acerca do texto como atividade de caráter processual, resultante das interações e reflexões, individuais e coletivas, aliada ao caráter metalinguístico de ensino do texto, geralmente usado como pretexto para o ensino de regras e conceitos.

A questão da tradição do ensino é outro fator problemático para a produção escrita, cujo propósito inicial não é de ser ensinada, mas servir de objeto de cobrança para observação da tríade textual: descrição, narração e dissertação, ignorando a existência de tantos outros textos com os quais os alunos mantêm contato fora do contexto escolar. Alie-se a essa evidência a adoção de materiais didáticos que se preocupam apenas em estabelecer modelos prontos como exercício de produção.

Outra causa são os mitos construídos em torno da atividade de escrever, responsáveis pela omissão de todos os processos pelos quais qualquer escritor, mesmo os mais experientes, precisam se submeter até chegar à versão final do texto. Falta o entendimento de que essa versão definitiva da produção não é simplesmente resultado de inspiração, mas de várias etapas que envolvem desde o planejamento, etapas de revisão e versão final, o que demanda muito esforço.

Frente à problemática descrita, faz-se necessário compreender que a ação de escrever se realiza não a partir de regras preestabelecidas, mas pelos usos contínuos em que o sujeito, em contato com o contexto e o interlocutor, produz um discurso que o individualiza e, nas ações interlocutivas dos outros sujeitos, tem o próprio discurso reconstruído. As vivências do cotidiano são o esteio para essa concepção de sujeito e de linguagem por ele praticada.

as evidências nos dizem que nenhuma língua existe em função de si mesma, desvinculada do espaço físico e cultural em que vivem seus usuários ou independente de quaisquer outros fatores situacionais. As línguas estão a serviço das pessoas, de seus propósitos interativos reais, os mais diversificados, conforme as configurações contextuais, conforme os eventos e os estados em que os interlocutores se encontram. (ANTUNES, 2009, p.35)

O desafio da escola consiste não somente em compreender as exigências frente ao ensino comprometido com o desenvolvimento das competências sociocomunicativas, mas também em assumir a responsabilidade de oferecer um ensino que considere as necessidades reais de uso da língua, as motivações e possibilidades dos educandos no processo de ensino-aprendizagem institucionalizado.

Diante dos novos paradigmas para desenvolver a competência escritora do aluno, o desenvolvimento de atividade cooperativa se configurou numa experiência cuja contribuição consistiu em conduzir os alunos a desenvolverem habilidades, que lhes permitissem adequar o uso a cada situação comunicativa, uma vez que,

funda-se sobre o postulado de que comunicar-se oralmente ou por escrito pode e deve ser ensinado sistematicamente. Ela se articula por meio de uma estratégia, válida tanto para a produção oral quanto para a escrita [...]. As sequências didáticas instauram uma primeira relação entre um projeto de

apropriação de uma prática de linguagem e os instrumentos que facilitarão

essa apropriação. [...] As práticas de linguagem são consideradas aquisições acumuladas pelos grupos sociais no curso da história. Numa perspectiva interacionista, são a uma só vez, o reflexo e o principal instrumento de interação social. (SCHNEUWLY; NOVERRAZ; DOLZ, 2013, p.43)

A realização da roda de conversa como elemento motivador, frente ao desânimo de alguns alunos para a realização de produção de texto, se apoiou na proposição de Warschauer (1993), que, a partir da própria experiência, viu nessa prática inúmeras possibilidades de troca e construção de saberes, tendo em vista que os encontros põem os sujeitos em constante situação de interação.

Nessa perspectiva, os diálogos constituem-se em verdadeiras ferramentas de desenvolvimento do “potencial interativo, criativo e de construção dos conhecimentos” (WARSCHAUER, 1993, p. 47) para os sujeitos envolvidos, os quais têm a possibilidade de assumir o mesmo protagonismo nessa situação de ensino- aprendizagem.

Chegado o tão esperado dia de realização do evento, após dois meses de espera, a sala fora devidamente organizada e no horário determinado os alunos aguardaram ansiosos a chegada do convidado. As boas-vindas foram dadas por Órion que o saudou em nome da turma, com a leitura de uma das crônicas escritas e publicadas pelo jornalista em edições anteriores da revista.

Figura 14 - Roda de conversa: boas-vindas

.

Fonte: Arquivos da pesquisa (2015)

Logo após, Gerson Luiz que estava acompanhado de sua esposa, parceira de todos os projetos, inclusive da revista, afirmara o escritor, fez questão de relatar suas principais vivências com jornal, rádio, televisão e demais atividades envolvendo a escrita desde o período da juventude, incluindo nas memórias relatadas recortes de sua vida pessoal, considerados importantes para o entrevistado.

Após a apresentação, embora algumas perguntas já tivessem sido contempladas, os alunos puderam continuar interagindo, a partir das perguntas elaboradas anteriormente e de outras que surgiram naturalmente, como a de Sirius que quis saber qual a “pior notícia dada pelo jornalista” quando era locutor de rádio. Os demais colegas, a exemplo de Sirius, fizeram outros questionamentos, queriam saber sobre o processo criativo do jornalista: inspiração, critérios para seleção dos temas, elementos motivadores para o processo de produção, o surgimento das ideias para elaboração do texto.

Figura 15 - Vivenciando a roda de conversa

Fonte: Arquivos da pesquisa (2015)

O depoimento do escritor revelou alguns momentos interessantes que serviram de inspiração para a produção de crônicas, como a cena de um senhor sentado numa calçada que lhe rendera uma crônica reflexiva. A roda de conversas transcorreu com a revelação de outras histórias, de forma dinâmica e descontraída, com a participação efetiva da turma.

De acordo com a Proposta Curricular para a Educação de Jovens e Adultos (BRASIL,2002), o uso efetivo da palavra em situações de participação social possibilita desenvolver as capacidades construtiva e transformadora dos alunos, a partir do exercício do diálogo.

Diante da empolgação dos alunos e do entrevistado, o evento se estendeu e terminou após o horário previsto, sem que ninguém demonstrasse o desejo de ir embora. Presenteados com a edição mais recente da revista, os alunos conheceram um pouco sobre sua dinâmica de elaboração e circulação, e o momento de autógrafos que não fora planejado se tornou inevitável. Todos queriam de alguma forma eternizar aquele momento de trocas de saberes e ampliação de conhecimentos.

Figura 16 - Momento de autógrafos

Fonte: Arquivos da pesquisa (2015)

A roda de conversa terminou por um inesperado desafio para a turma: produzir uma crônica coletiva para ser publicada em uma das edições da revista. Visualizava-se, portanto, a oportunidade do exercício da autoria. Para encerrar oficialmente a atividade, Jih fez os agradecimentos finais em nome da turma, oferecendo uma pequena lembrança como símbolo de gratidão, pelos momentos prazerosos de aprendizado proporcionados pelo jornalista.

Figura 17 - Agradecimentos finais

Fonte: Arquivos da pesquisa (2015)

Desafio aceito, despedidas devidamente formalizadas, encerramos o momento com o compromisso de elaborar a produção coletiva, a fim de fazê-la circular na revista.