4 CATEGORIA DESENVOLVIMENTO
4.2 Desenvolvimento: conceitos e correntes teóricas
Há um grande debate sobre o conceito de desenvolvimento. “Apesar das divergências existentes entre as concepções de desenvolvimento, elas não são excludentes. Na verdade, em alguns pontos, elas se completam” (SCATOLIN, 1989, p. 24).
Há inúmeras teorias relacionadas ao desenvolvimento econômico, destacando-se: a corrente clássica, que tem como expoentes Adam Smith (1723-1790), David Ricardo (1772- 1823), Thomas Malthus (1766-1834); a corrente keynesiana, proposta por John Maynard Keynes (1883-1946); a corrente neoclássica, com Robert Solow (1924-); a corrente neoliberal, com Milton Friedman (1912-2006); e a corrente neokeynesiana, que apresenta como expoentes Joseph Stiglitz (1943-), Paul Davidson (1930-), Olivier Blanchard (1948-) (ex- economista-chefe do FMI), e Lawrence Summers (1954-), secretário do Tesouro dos EUA no governo Bill Clinton.
O objeto deste estudo não contempla uma descrição pormenorizada das teorias de desenvolvimento, mas apenas uma breve descrição de algumas dessas correntes.
Assim, resumidamente, pode-se dizer que há duas correntes de pensamento econômico sobre o tema desenvolvimento (SOUZA, N. J., 1993).
A primeira percebe crescimento como sinônimo de desenvolvimento. Essa corrente abriga os modelos de crescimento da tradição clássica e neoclássica.
não suficiente. Reúne os economistas de orientação crítica, formados na tradição marxista(28) ou cepalina(29), que conceitua o crescimento como uma variação quantitativa do produto. São exemplos da corrente crítica os economistas Raul Prebisch (1901-1986) e Celso Furtado (1920-2004). O desenvolvimento seria caracterizado por transformações qualitativas no costume das pessoas, nas organizações e nas estruturas produtivas.
4.2.1 Visão clássica e neoclássica de desenvolvimento
A Teoria Keynesiana, formulada como alternativa à crise de 1929, e que tinha como hipótese que o Estado deveria intervir ativamente na economia, impulsionando e promovendo o desenvolvimento econômico e social, partia do pressuposto de que a iniciativa privada, por si só, não era capaz de promover a estabilidade da economia. Assim, o Estado surge como o ente responsável pelo processo histórico da sociedade em questões de economia, política e bem-estar social – welfare state (KEYNES, 1976).
Essa teoria perdurou até a década de 1970, quando eclodiu a crise do petróleo, trazendo, como consequência, uma mudança de enfoque na política econômica, dando surgimento à corrente neoliberal, fundamentada nos pressupostos da Lei de Say, delineada pelo economista austríaco Friedrich Von Hayek (1899-1992), em 1940, que apregoava a redução de gastos públicos e a desregulamentação, de modo a possibilitar que as organizações com recursos suficientes pudessem investir em todos os setores da economia.
Essa reforma encolheu o espaço público democrático dos direitos e ampliou o espaço privado, convertendo a comunicação, a eletricidade, o transporte, a saúde e a educação em mercadorias.
No Chile, em 1970, Pinochet (1915-2006) experimentou o neoliberalismo, seguido por Margareth Thatcher (1925-2013), na Inglaterra, em 1979; Ronald Reagan (1911-2004), nos Estados Unidos, em 1980; e Felipe González (1942-), na Espanha, em 1982; chegando ao Brasil, com Fernando Collor de Melo (1949-), em 1990.
No período de 1990 a 2004, vários países, inclusive o Brasil, implementaram reformas utilizando como pressuposto a crença de que a abertura dos mercados iria atrair maior volume de investimentos, prática neoliberal preconizada pelo Consenso de Washington, pelo FMI e pelo Banco Mundial.
(28) Pensamento formado no modelo criado por Karl Marx (1818-1883) que defende a supressão da exploração do
homem por seu semelhante e a instalação do regime socialista (OLIVEIRA, G. B., 2002, p. 40).
Como consequência das políticas neoliberais, dá-se a falência dos Estados nacionais, que não mais apresentariam poderes para estabelecer suas próprias políticas econômicas, considerando a globalização da economia. Surgem, então, questões sociais, como o desemprego, baixos níveis de renda e aumento da fome e da miséria, decorrentes da transferência de responsabilidades estatais para a sociedade civil.
Nesse contexto, percebe-se que algumas funções anteriormente desempenhadas pelo Estado não interessam ou não podem ser atendidas pelo setor privado, fazendo eclodir uma nova corrente de desenvolvimento – a neokeynesiana. Trata-se de uma versão adaptada da corrente keynesiana, na qual economistas como Davidson (1994) e Stiglitz (2004) percebem uma complementaridade entre Estado e mercado; e da visão cepalina neoestruturalista, segundo a qual a industrialização latino-americana não foi capaz de reduzir as desigualdades sociais da região, sugerindo a proposição de estratégias de transformação produtiva com equidade social, de modo a possibilitar um crescimento econômico sustentável, com melhor distribuição de renda.
O surgimento dessa nova corrente coincide com o estabelecimento, no início do século XXI, de governos de países latino-americanos com ideologia de esquerda, como é o caso do Brasil.
Essas medidas de regulação, contudo, poderiam ser consideradas estratégias compensatórias, e de alívio da pobreza para alguns grupos vulneráveis, mas não chegam a tocar no essencial do sistema capitalista, ou seja, nos interesses dos setores dominantes.
4.2.2 Visão crítica de desenvolvimento
A visão crítica de desenvolvimento passou a ser disseminada no final da década de 1940, coincidindo com a reconstrução da Europa e do Japão no Pós-Guerra, assim como com os processos de industrialização de alguns países chamados de Terceiro Mundo, ocasião em que se procurou identificar formas alternativas para acelerar o desenvolvimento, bem como conhecer a natureza do subdesenvolvimento e os obstáculos à sua transição para o desenvolvimento (CASTRO, 2011).
A partir de então, os economistas estruturalistas (ligados à Cepal) manifestaram sua visão diferenciada entre desenvolvimento e crescimento: “Enquanto este era entendido como um processo de mudança ‘quantitativa’ de uma determinada estrutura, desenvolvimento era interpretado como um processo de mudança ‘qualitativa’ de uma estrutura econômica e social” (SCATOLIN, 1989, p. 15).
A visão de desenvolvimento trazia forte relação com os aspectos econômicos, estando, assim, associada ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ou à expansão da renda por habitante (AMARAL FILHO; VALENTE JÚNIOR, 2007).
Furtado (2009, p. 19) tinha o mesmo entendimento quanto à distinção dos estruturalistas, de tal forma que para ele o desenvolvimento econômico se classificaria como progresso na “organização da produção e na forma como se distribui e utiliza o produto social”. Também defendia que “o conceito de desenvolvimento compreende a ideia de crescimento, superando-a” (FURTADO, 2000a, p. 102). Ia além, afirmando: a “ideia de um crescimento sem desenvolvimento está no centro de minha reflexão teórica” (GAUDÊNCIO; FORMIGA, 1995, p. 77). Para ele, “quando a capacidade criativa do homem se volta para a descoberta de suas potencialidades e ele se empenha em enriquecer o universo que o gerou, produz-se o que chamamos de desenvolvimento”, o qual “se efetiva quando a acumulação conduz à criação de valores que se difundem na coletividade” (FURTADO, 1998, p. 47).
Holanda (1979, p. 7) define desenvolvimento como "um complexo processo de mudança social, que tem implicações de natureza não apenas econômica, como também política, sociológica, cultural e psicológica".
Percebe-se, assim, que a visão de Furtado acerca de desenvolvimento vai bem mais além do que a lógica do consumismo, pelo mecanismo de mercado e pelo sistema capitalista, percepção teórica essa que prega crescimento econômico como o fim último da economia e da vida social (CAVALCÂNTI, 2009).
Furtado expressa o seguinte pensamento sobre desenvolvimento:
[...] não é apenas um processo de acumulação, de aumento de produtividade macroeconômica, mas principalmente o caminho de acesso às formas sociais mais aptas a estimular a criatividade humana e responder às aspirações da coletividade. Dispor de recursos para investir está longe de ser condição suficiente para preparar um futuro melhor para a massa da população. Mas quando o projeto social prioriza e efetiva a melhoria das condições de vida desta população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento. Ora, essa metamorfose não se dá espontaneamente. Ela é fruto da realização de um projeto, expressão de uma vontade política. As estruturas de países que lideram o processo de desenvolvimento econômico e social não resultaram de uma evolução inercial, mas de uma opção política orientada para formar uma sociedade apta a assumir um papel dinâmico nesse processo (CADERNOS DO DESENVOLVIMENTO, 2006, p. 25).
A obra de Celso Furtado seria caracterizada por sua preocupação com a emancipação nacional. Seu projeto central envolve a superação do subdesenvolvimento(30) por meio de um
(30) O subdesenvolvimento é a manifestação de complexas relações de dominação-dependência entre povos, e
que tende a autoperpetuar-se sob formas cambiantes, e engloba a falta de acesso da população em geral a oportunidades de emprego, saúde, água, alimentação, educação e moradia, demandando, para sua superação, a formação de centros nacionais de decisão válidos, ou seja, a tomada de consciência da dimensão política da situação de subdesenvolvimento (FURTADO, 2000b, p. 265).
projeto nacional, carente no país, que prevê a transformação de nosso quadro histórico de exclusão social em um quadro de aprofundamento dos fundamentos de nossa democracia política (TAVARES, 2000; FURTADO, 2009).
Furtado (1974, p. 75-76) afirmava que
a ideia de desenvolvimento econômico é um simples mito. Graças a ela tem sido possível desviar as atenções da tarefa básica de identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das possibilidades que abrem ao homem os avanços da ciência, para concentrá-las em objetivos abstratos como são os investimentos, as exportações e o crescimento.
A partir da década de 1970, alguns estudiosos passaram a perceber que o PIB ou a renda por habitante não era suficiente para explicar o significado e a dimensão de desenvolvimento, havendo outras condições sociais, culturais, ambientais e políticas que influenciavam a qualidade de vida das pessoas e que precisariam ser consideradas na perspectiva do desenvolvimento (AMARAL FILHO; VALENTE JÚNIOR, 2007).
Em 1990, é cunhado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq, com a colaboração do economista indiano Amartya Sen, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH(31)) que oferecia, além do fator renda do PIB, a inclusão dos fatores longevidade (expectativa de vida ao nascer) e educação. Desde 1993 o IDH vem sendo usado pelo Pnud no seu relatório anual, o qual serve para comparação entre os países, com o objetivo de medir os respectivos graus de desenvolvimento econômico e níveis de qualidade de vida de suas populações (AMARAL FILHO; VALENTE JÚNIOR, 2007).
Com a incorporação do IDH, o significado de desenvolvimento corresponderia
[...] a um processo de melhoria da qualidade das vidas humanas, de forma que ao menos três aspectos se sobressaiam quando se fala de desenvolvimento: (1) aumento dos níveis de vida da população, isto é, renda e níveis de consumo de alimentos, educação, moradia, saúde e lazer, através do crescimento da renda per capita; (2) criação de condições que contribuam para o aumento do autorrespeito da população, através do estabelecimento de sistemas econômicos, políticos, sociais e institucionais que garantam a dignidade e o respeito humanos; (3) o aumento da liberdade de alternativas da população, através da ampliação de sua gama de variáveis de escolha (AMARAL FILHO; VALENTE JÚNIOR, 2007, p. 20).
O último relatório anual do Pnud aponta que em 2012 o Brasil registrou IDH 0,730, significando ligeira melhora em comparação ao valor assinalado em 2011, de 0,728. Apesar dessa variação, o Brasil manteve a posição registrada em 2011: 85ª entre 187 países (OLIVEIRA, C. M., 2013).
O autor do presente estudo se identifica com as ideias de Furtado, por também (31)O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) incorpora à dimensão econômica as dimensões longevidade (expectativa de
vida) e educação (taxa de analfabetismo e taxa de matrícula em todos os níveis de ensino). No IDH, essas três dimensões têm a mesma importância (AMARAL FILHO; VALENTE JÚNIOR, 2007).
entender que a construção de uma nação, percebida enquanto processo de unificação do espaço socioeconômico nacional, passa pelo crescimento sustentado, pela inclusão social e pela geração de empregos e melhor distribuição de renda, por meio de uma participação mais ativa e efetiva do Estado, como forma de minimizar as desigualdades regionais e elevar o nível da qualidade de vida do povo.
Qualquer novo projeto alternativo de nação deverá contemplar o aumento da participação e influência do povo nos centros de decisão do país.