4 CATEGORIA DESENVOLVIMENTO
4.1 Perspectivas epistemológicas do desenvolvimento
A categoria desenvolvimento assenta-se sobre um arcabouço ideológico que remete a modelos ou estilos de desenvolvimento que permeiam dois polos opostos e complementares – o tradicional e o moderno (emancipador) –, trazendo certa simetria entre as percepções que vão de uma visão regulatória a uma visão emancipadora na educação, evidenciando que certos estilos (modelos) de desenvolvimento determinam os estilos (modelos) educacionais (SAVIANI et al, 1983).
Esse movimento, do tradicional ao moderno, pode ser observado ao longo da história dos países da América Latina, sendo detectado a partir do período que precede a independência dessas nações. Funcionaria, ao longo da história, como um pêndulo, ora de um lado (tradicional – conservador), ora do outro (moderno – liberal), a depender dos interesses vigentes à época (WEINBERG, 1983).
O modelo modernizador articula-se contra o tradicionalismo arbitrário, opondo as ideias de razão e modernização às de fé e tradição, considerando-se, para tanto, a educação como fator-chave para minar o rigoroso tradicionalismo nas metrópoles coloniais.
O modelo tradicional era identificado com os conservadores e a metrópole colonial. Após o rompimento dos vínculos com a metrópole e a consequente conquista da independência, acirrou-se o conflito entre tradicional e moderno, expresso na disputa entre conservadores e liberais. Surgiu a necessidade da realização política das ideias iluministas, substituindo o ideal do súdito fiel pelo do cidadão ativo, implicando o estímulo à participação de todo o povo na tarefa educacional (WEINBERG, 1983).
Apesar da contradição entre os liberais em relação ao princípio da liberdade de ensino, a consolidação dos estados nacionais ou do Estado-Nação(25) parecia irrealizável sem a superação do isolamento, da miséria, da fragmentação linguística e sem a criação de instituições e legislação modernas e estáveis, surgindo uma nova geração de liberais para os quais a consolidação dos Estados não se faria sem a formulação de políticas educacionais de longo prazo. Dentre os representantes dessa geração, destacam-se Benito Juarez, no México, Domingo Faustino Sarmiento, na Argentina, e José Pedro Varela, no Uruguai (WEINBERG, 1983). O Brasil não chegou a produzir estadistas da educação no mesmo patamar (SAVIANI et al, 1983).
A educação foi concebida como o grande instrumento de integração nacional, de transformação das massas em povo, de conversão de súditos em cidadãos, sendo erigida em variável modernizadora, o que viria a orientar uma proposta de universalização da educação.
O progresso material acelerado pela Revolução Industrial ocasionou, para os setores dominantes, a reivindicação do controle político e da estabilidade social, que lhes desse condições de desfrutar, sem riscos, os benefícios proporcionados pelo progresso. O modelo positivista veio a atender essa demanda, sintetizando o tradicional e o moderno entre conservadores e liberais. O pêndulo inclinou para o lado tradicional, com a vinculação do progresso à ordem. O liberalismo tornou-se conservador, antepondo a ordem à liberdade, em nome do progresso.
O pêndulo tornaria para o polo moderno, com a classe média se beneficiando de um modelo de desenvolvimento que propiciou o crescimento do setor terciário, enquanto o ensino superior era centrado nas humanidades e profissões liberais, precedido de um ensino médio propedêutico, que se assentou sobre a base de um ensino primário que não conseguiu se universalizar na maioria dos países da América Latina (WEINBERG, 1983).
As classes dirigentes elaboraram um modelo de desenvolvimento a cujo serviço estava o sistema educacional; daí a congruência que nele se observou uma vez consolidados e obtidos os resultados. É um fato suficientemente analisado que, com o tempo, o sistema favoreceu fundamentalmente as classes médias não ligadas à produção primária nem a secundária, mas que certamente se beneficiavam com o crescente desenvolvimento dos setores terciários (burocracia, prestação de serviços, etc.) (WEINBERG, 1983, p. 38).
Em alguns países da América Latina, essa proposta beneficiou os setores urbanos, destinatários efetivos dessas melhorias, em detrimento de uma população predominantemente
(25) Surgiu na Europa em finais do século XVIII e início do século XIX. [...] pressupõe que no âmbito de um
determinado território ocorra um movimento de integração econômica (emergência de um mercado nacional), social (educação de ‘todos’ os cidadãos), política (advento do ideal democrático como elemento ordenador das relações dos partidos e das classes sociais) e cultural (unificação linguística e simbólica de seus habitantes) (ORTIZ, 1999, p. 78).
rural, de tal forma que a educação contribuiu para aprofundar as contradições, em vez de reduzi-las ou superá-las.
Os setores dominantes manteriam, assim, a classe média subordinada aos seus interesses, por meio do controle da classe trabalhadora, evitando sua organização e não hesitando em lançar mão da repressão quando a ordem que correspondia aos seus interesses fosse ameaçada (SAVIANI et al, 1983).
No Brasil, o modo de produção escravocrata, as estruturas políticas associadas e as descontinuidades sociais e culturais da população dificultaram a incorporação das camadas populares à educação até meados do século XX, momento em que teve início um processo de industrialização, exigindo um novo disciplinamento e qualificação da mão de obra (TIRAMONTI, 2000).
Outra abordagem em relação aos estilos (modelos) de desenvolvimento social diz respeito ao estudo de Rama (1983), o qual privilegia uma perspectiva lógica e aponta cinco estilos de desenvolvimento social: o tradicional, o de modernização social, o de participação cultural, o tecnocrático e o de congelamento político. Considerando as mudanças ocorridas nas décadas de 1980 e 1990, bem como as novas exigências para a educação no século XXI, o autor acrescenta três outros estilos: transição democrática (do governo militar para a sociedade civil – década de 1980); neoliberalismo (década de 1990); e progressista (crise do neoliberalismo – século XXI).
Ainda segundo Rama (1983), o tipo de distribuição da renda e de acesso à educação não é resultante do desenvolvimento do capitalismo, mas uma variável política deste, derivando da relação de forças sociais manifestadas no poder.
No acesso à educação e na forma de distribuição da renda expressavam-se as concessões parciais estratégicas para evitar reivindicações, as formas com que o poder conseguia a sua legitimação e os valores que compunham a imagem da sociedade (RAMA, 1983).
Assim, as funções sociais que a educação exercia estariam sintetizadas da seguinte forma (RAMA, 1983): (1) transmissão da cultura da sociedade e de sua classe dominante; (2) conservação do sistema e provisão de inovadores; (3) funções políticas – obtenção de apoio ao sistema de governo vigente e recrutamento de líderes; (4) funções em relação com as classes sociais – manutenção e seleção de candidatos para os diferentes postos, segundo critério de aceitação ou rejeição da mobilidade social; e (5) funções econômicas – aplicadas essencialmente ao recrutamento da mão de obra na qualidade e na quantidade requeridas pelo sistema econômico.
De acordo com o tipo de estrutura social, com a natureza das relações de poder entre grupos e classes sociais e com as estratégias de luta, define-se um estilo de desenvolvimento orientado para certos objetivos. Da mesma forma, em relação às orientações gerais do estilo, exercer-se-ão demandas sobre a educação, privilegiando algumas de suas funções e situando as restantes em torno delas com diversos graus de dependência. No passado, a educação institucionalizada não incluía toda a população escolarizável e, como não comprometesse a totalidade do processo por ser uma entre as várias agências encarregadas da reprodução social, sua função podia ser mais estritamente cultural e pedagógica e gozar de uma margem maior de autonomia política. Atualmente, ao profissionalizar-se a sociedade, o papel do agente principal conferido ao sistema educacional no processo de socialização determina uma dependência maior dela com referência às relações sociais do poder; assim sendo o processo pedagógico reestrutura-se em torno da maior hierarquia que adquirem algumas funções educacionais (RAMA, 1983, p. 50).
O Quadro 10 reúne e explicita os estilos educacionais caracterizados segundo as funções educacionais.
Quadro 10 – Estilos educacionais caracterizados segundo as funções educacionais
Estilo Função educacional relevante Dimensão econômica Dimensão política Dimensão social
Tradicional
Conservação Socialização para a manutenção da ordem constituída de acordo com os valores da classe dominante
Estancamento e base econômica agrícola
Oligarquia
Controle político não sujeito a contestação por parte das massas
Classe dominante indiferenciada. Fraca identidade e organização das outras classes sociais. Pobreza e marginalidade De modernização social Mobilização
Integração das massas e formação segundo valores de participação num sistema educacional relativamente aberto a demandas de grupos em processo de incorporação Crescimento moderado com distribuição. Importância crescente do mercado interno
Instável relação e/ou aliança de classes integradas ao sistema, manipulação da mobilização
Orientada para uma estrutura capitalista de classes.
Diferenciação interna dos setores dominantes. Ascensão das classes média e trabalhadora. Sociedade de massas e marginalidade De participação cultural Cultura Implantação de um código que legitima um status e o ingresso num setor com relações internas igualitárias
Abundância e geração de excedentes no setor econômico específico difundidas por meio do Estado
Pluralismo elitista. Autonomização da burocracia política no quadro de uma aliança de setores dominantes e classe média legitimada democraticamente
Distensão das relações de classes sociais por ampliação em matéria de ocupação e renda. Consolidação de setores dominantes e ascensão da classe média Tecnocrático e/ou de formação de recursos humanos Economia Educação limitada à preparação funcional e estratificada de recursos humanos em alguns casos ideologicamente despolitizados Crescimento acelerado com concentração, internacionalização do mercado interno e exportação de bens
Controle por parte da classe alta ou tecnoestrutura político-militar com participação de setores dominantes Polarizada estrutura de classes. Incorporação parcial e gradual de grupos sociais de acordo com as ampliações do mercado De congelamento político Política Reimposição da autoridade e dos valores da classe dominante, desmobilização popular; inclui compartimentação educacional segundo estratificação e redução do diálogo intelectual
Crise por esgotamento de modelo ou por projeção das lutas de classe
Setores da classe alta com apoio dos setores médios e presença militar
Reestruturação autoritária das relações de classe.
Redução dos níveis de renda e diminuição da participação das classes média e trabalhadora
Continuação
Estilo Função educacional relevante Dimensão econômica Dimensão política Dimensão social
Transição democrática (governo militar para sociedade civil – década de 1980) Política Transição negociada do governo militar para o governo civil Década perdida. Estagnação da economia e índices de inflação extremamente elevados e baixo crescimento do PIB(26) Grande desemprego Reorganização dos movimentos sociais. Reestabelecimento de eleições diretas e do voto secreto Aumento da participação das classes média e trabalhadora Neoliberalismo (década de 1990) Mercado Abertura econômica e processo de globalização. Influência das agências multilaterais na reforma educacional (Banco Mundial e BID)
Influência de organismos
internacionais (Banco Mundial e BID) nos ajustes econômicos. Privatização de empresas estatais. Transformação de instituições públicas em organizações sociais sob a lógica do mercado
Redimensionamento das funções do Estado sob a égide do pensamento neoliberal: ideário cultural de mercado e consumo. Democratização política Políticas econômicas compensatórias de alívio da pobreza orientadas pelas diretrizes de focalização, descentralização e privatização (Banco Mundial e BID). Consolidação jurídica dos direitos sociais
Progressista (crise do neoliberalismo – século XXI) Cidadania Equidade social.
Educação ao longo da vida. Desenvolvimento local e sustentável.
Cultura global
Crise do crédito hipotecário em 2007. Crise nos países desenvolvidos. Prosperidade para países em desenvolvimento: BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Crise econômica da União Europeia em 2011 – endividamento público da Grécia, Portugal, Espanha, Itália e Irlanda Fortalecimento das funções do Estado, principalmente dos setores estratégicos de infraestrutura. Predominância de governos com ideologia de esquerda, comprometida com reformas sociais e defesa dos interesses nacionais
Políticas econômicas compensatórias de alívio da pobreza. Aumento da
participação das classes média e trabalhadora. Surgimento de movimentos sociais geradores de novos sujeitos sociais fortalecendo a sociedade civil
Fonte: Adaptado de Rama (1983), Krawczyk, Campos e Haddad (2000), Tiramonti (2000) e Delors (2001).
O estilo tradicional tem como objetivo prioritário conservar o sistema social, reproduzindo os valores dos setores dominantes sem demonstrar muito interesse pelo desenvolvimento científico ou pela formação das pessoas.
No estilo de modernização social, a mobilização é a característica fundamental. Procura integrar as massas em um novo tipo de consenso, cujos valores-chave sejam a legitimidade do poder, derivada de sua aceitação, e a crença nos benefícios da mobilidade social. O sistema educacional é considerado um instrumento imparcial para a seleção social.
No estilo de participação cultural, a educação apresenta grande autonomia, podendo fixar seus objetivos e manter a lógica proveniente de suas estruturas internas. A sociedade se
(26)O Produto Interno Bruto (PIB) corresponde à dimensão econômica do desenvolvimento, e tem por objetivo mensurar a
atividade econômica de uma dada região. Considera o valor da produção final total de todos os bens e serviços gerados internamente numa economia ao longo de determinado período (geralmente um ano). No PIB são considerados os seguintes fatores: consumo privado, investimentos realizados no período, gastos do governo, volume de exportações e de importações (AMARAL FILHO; VALENTE JÚNIOR, 2007).
vale de seus critérios, assumindo-os como hierarquias sociais. A pluralidade ideológica não é limitada na prática docente, nem provoca preocupação nos setores dominantes, haja vista que a legitimidade do sistema não está em discussão.
No estilo tecnocrático, as funções predominantes são o crescimento e o salto tecnológico e gerencial, fortalecendo os conteúdos ideológicos com o objetivo de formar técnicos aptos a viabilizar modelos e instituições não sujeitos a análises valorativas. Não admite discussões, e procura reduzir todas as áreas do conhecimento social e político capazes de proporcionar instrumentos para a análise da sociedade e para o questionamento do poder.
O estilo de congelamento político tem como função dominante o controle político da educação, com o consequente controle social dos valores. A educação age a serviço de um programa de diferenciação e estratificação de grupos. A hierarquia se transforma em padrão social: cada agente é definido por seu papel produtivo ou reprodutivo, e não como ser social (RAMA, 1983).
As análises de Rama (1983) e Weinberg (1983) constituem versões de estudos incluídos no Projeto Desenvolvimento e Educação na América Latina e Caribe, realizado pela Unesco em 1977, em parceria com a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) e com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Apresenta-se, a seguir, uma breve análise na perspectiva histórica relativa ao período que vai da década de 1980 até a primeira década do século XXI, aportando informações que possibilitaram a elaboração dos três estilos: transição democrática (do governo militar para a sociedade civil – década de 1980), neoliberalismo (década de 1990) e progressista (crise do neoliberalismo – século XXI).
O início dos anos 1970 inaugura ditaduras na América Latina, marcada por golpes militares, destacando-se o Brasil (1964), a Bolívia (1971), o Chile (1973) e a Argentina (1976).
A partir da década de 1980, sucede-se a transição de governos militares para a sociedade civil. No campo econômico, o período ficou conhecido como a década perdida, devido à estagnação econômica vivenciada pela América Latina, quando se constatou uma intensa retração da produção industrial e uma desaceleração do crescimento da economia. Na dimensão política, essa década é marcada pela reorganização dos movimentos sociais e dos sindicatos. O período também ficou conhecido como década da redemocratização, principalmente no Brasil, devido à promulgação da Constituição Federal, em 1988; ao retorno das eleições diretas para governador de Estado, em 1982; à condução, ainda que via eleição indireta, de um civil ao comando da nação, em 1985; e à primeira eleição direta para
presidente da República, em 1989 (KRAWCZYK; CAMPOS; HADDAD, 2000).
A década de 1990 se inicia com uma onda neoliberal, originando transformações nas economias e nos setores sociais dos países. Com base no modelo econômico proposto no Consenso de Washington, foram realizadas importantes reformas, como a redução drástica do Estado e a estabilização da economia, a partir do ajuste fiscal e do uso de políticas ortodoxas, apresentando o mercado como linha central.
No campo social, cresceram a desigualdade social e a concentração da riqueza. A educação passou a considerar a lógica de mercado e da competência. Aumentou a desigualdade no acesso à educação de qualidade, expressa em anos de escolaridade e na qualidade da educação. Para atender à nova lógica (mercado), foram implantados, sob o slogan da modernização da educação, novo modelo de gestão do sistema educacional, da gestão escolar, conteúdos, formas de financiamento e estrutura acadêmica (TIRAMONTI, 2000).
No Brasil, a década de 1990 se inicia marcada por dois movimentos contraditórios: de um lado, o desejo de implantação dos direitos sociais então recém-conquistados e a defesa de um novo projeto político-econômico para o Brasil; do outro, a posse de Fernando Collor de Mello na presidência da República, com um projeto neoliberal de reformas do Estado para colocar o país na era da modernidade, iniciando o processo de desmonte e privatização das empresas estatais, para em pouco tempo passar pelo processo de impeachment, dados os desmandos e inconsequências do seu governo.
No campo educacional não havia um projeto consistente de intervenção social. Com a posse de Itamar Franco em 1992, o projeto neoliberal se consolidaria, pressionado pelos organismos internacionais (Banco Mundial e FMI).
Na educação, foi aberto um processo de discussão com os diversos atores da sociedade, prevalecendo, contudo, os interesses dos setores dominantes e das agências de financiamento internacionais.
Com a eleição de FHC para o período1995-1998, fica mais clara a reforma liberal, com o ideário cultural globalizante de mercado e consumo, a redução do aparelho do Estado e do financiamento das áreas sociais, a privatização de empresas estatais rentáveis, a redução de direitos sociais de trabalhadores assalariados e a reconceituação de público e privado, transformando instituições públicas em organizações sociais que seguissem a lógica de mercado.
Na área da educação, passou-se a legislar por meio de medidas provisórias, desrespeitando o Poder Legislativo e o sistema democrático representativo, sendo FHC o
governo de maior número de medidas provisórias editadas desde a Proclamação da República, superando as edições de todo o período de regime militar, de 1964 a 1985 (KRAWCZYK; CAMPOS; HADDAD, 2000).
Como consequência, a racionalidade e os critérios de mercado passam a constituir os novos referenciais de competência administrativa e pedagógica para as escolas e sistemas de ensino (KRAWCZYK; CAMPOS; HADDAD, 2000).
Na primeira década do século XXI, os países latino-americanos experimentaram governos com ideologia de esquerda, mais comprometidos com reformas sociais, com a democracia e com a forte defesa dos interesses nacionais.
No campo social, notou-se o incremento do financiamento de programas sociais, com políticas compensatórias de alívio à pobreza. A retomada do crescimento econômico possibilitou a mobilidade social, com a inclusão de novos participantes na classe média.
Na Conferência do Desenvolvimento (Code) de 2011, durante o painel Fortalecimento do Estado, das Instituições e da Democracia, foi ressaltada a linha de atuação do governo federal brasileiro adotada no período de 2000 a 2010, a qual apresentou forte ação na política social, com programas sociais, como o Bolsa Família, a elevação do salário-mínimo e o lançamento do Estatuto do Idoso, propiciando o aquecimento do mercado interno (IPEA, 2011b).
Houve um fortalecimento do setor estratégico de infraestrutura, com a criação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a partir de 2007, possibilitando a alavancagem da indústria pesada e o processo de internacionalização para muitas empresas brasileiras (IPEA, 2011b).
Na educação, como um estilo que se contrapunha ao estilo neoliberal, defendeu-se um modelo de educação ao longo da vida, que privilegiasse a equidade social e a cidadania, na perspectiva do desenvolvimento sustentável, com práticas locais que reforçassem uma cultura global (DELORS, 2001; GADOTTI, 2008).
Nessa perspectiva, o governo brasileiro concebe em 2007 o PDE, na esfera do MEC, o qual
[...] perpassa a execução de todos os seus programas e reconhece na educação uma face do processo dialético que se estabelece entre socialização e individuação da
pessoa, que tem como objetivo a construção da autonomia(27), isto é, a formação de
indivíduos capazes de assumir uma postura crítica e criativa frente ao mundo. [...] a política nacional de educação exige formas de organização que favoreça a individuação e a socialização para a autonomia (BRASIL, 2007, p. 5).
O PDE traça uma relação com os objetivos da República Brasileira, fixados pela Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 2007, p. 5-6):
[...] construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização; reduzir as desigualdades sociais e regionais; e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Dentro da definição das políticas públicas do governo brasileiro, crê-se só ser “possível garantir o desenvolvimento nacional se a educação for alçada à condição de eixo estruturante da ação do Estado de forma a potencializar seus efeitos” (BRASIL, 2007, p. 6).
Contudo, apesar do desejo expresso, o próprio documento do PDE não dá o devido destaque à educação profissional, ao direcionar três estratégias para essa modalidade de ensino, das trinta ali previstas.
Por ocasião do painel Fortalecimento do Estado, das Instituições e da Democracia,