Recebendo as bênçãos de seu pai, Suk Deva começou a atravessar a Terra da Índia se dirigindo para Mithila. Por uns poucos anos ele caminhou sobre planícies e subiu montanhas, cruzou arroios e rios. Após algum tempo ele finalmente chegou a Mithila, a Cidade de Janaka. Do lado de fora do portão da cidade havia um soldado que ordenou-lhe, Pare, por favor. Preciso saber quem é você, e que negócios você tem na cidade.
Suk Deva olhou para o soldado e respondeu, Eu sabia que estava errado em vir até aqui. Que tolo fui em acreditar que esse rei era liberado em vida! Para mim ser liberado significa que a pessoa vê todas as coisas como sendo a mesma. E ainda este rei tem tanta ligação que coloca soldados do lado de fora da cidade para perguntar a todo visitante, Quem é você e que negócios faz para ter que vir aqui? Eu sabia que era impossível. Sinto muito, soldado. Não tomarei seu tempo. Voltarei para casa agora mesmo.
O soldado respondeu, Bem, você veio de tão longa distância. Eu não quis ofendê-lo. É apenas meu dever perguntar.
Suk Deva disse, Eu entendo que é seu dever e que você não quis me ofender. Um rei está correto em proclamar este dever. Mas este não é tipo de proclamação que um ser iluminado que vê tudo como o mesmo iria fazer! Que diferença tem para ele quem é uma boa pessoa e quem é uma má pessoa? Ele sabe que em todas as partes está a Unidade, e bom e mal são meramente valores julgados de acordo com as aspirações individuais. O que cada coisa é não faz qualquer diferença. Um ser liberado vê todos e todas as coisas como sendo a mesma. Ser iluminado significa ver que tudo é o Um! Não há dualidade, não há distinção, não há ilusão. Como ele pode ser liberado, quando coloca um guarda em frente de sua cidade? É impossível! Esqueça! Eu nem mesmo quero vir para esta cidade!
O guarda disse, Santo Brahmin, posso dizer que você é um homem muito respeitável e com muito conhecimento. Por favor, desculpe-me. Vá em frente e entre na cidade.
Suk Deva disse, Eu sei que o propósito de minha visita será infrutífero. Eu vim para uma conversa com um rei iluminado, mas obviamente ao invés de ver a Unidade em toda parte, este homem vê distinção em toda parte. Bem, já que você me convidou com tanta cortesia, e eu vim de tão longe, eu posso entrar e ver a cidade.
Assim Suk Deva caminhou na cidade e olhou nos mercados. Ele viu pessoas normais. Algumas delas estavam felizes, e algumas estavam tristes. Algumas estavam discutindo e algumas estavam debatendo a qualidade das mercadorias e os preços que deviam pagar. De várias maneiras, várias pessoas estavam fazendo atividades variadas. Suk Deva pensou consigo mesmo, Para mim não parece haver um sinal de uma administração iluminada nesta cidade. Estes cidadãos não são tão felizes. Estes cidadãos não estão irradiando alegria e bem-aventurança de ter um mestre iluminado como rei. Eles parecem pessoas normais fazendo as mesmas coisas que todas as pessoas normais fazem. Que tipo de rei iluminado é este? Eu sabia que estava errado! Meu pai me deu uma informação errada; ele só estava tentando convencer-me a fazer a vontade dele.
Quando o Rei Janaka ouviu que Suk Deva, o filho de seu Guru tinha vindo ao seu reino, seu coração ficou cheio de alegria! Ele imediatamente enviou seus ministros para encontrarem Suka Deva, e eles o escoltaram até ao belo palácio. Então muitas belas jovens do palácio vieram e prepararam seu banho. Elas deram a ele frescas
roupas, e prepararam deliciosas comidas. As senhoras fizeram uma bela cama sobre a qual ele pudesse descansar. Elas o colocaram na cama e começaram a massagear seus pés. Suk Deva estava inconsciente de todas essas coisas. Quando as meninas saíram, ele se sentou em sua postura de yogue e meditou. Então dormiu por algumas poucas horas.
Ao amanhecer, ele despertou e novamente sentou-se em meditação até o sol nascer. Então ele tomou seu banho e esperou pelo chamado do rei. Depois de um pouco de tempo um mensageiro do rei veio, O rei deseja vê-lo. Por favor venha.
Suk Deva foi ver o rei. O rei levantou-se para saudá-lo, Ó Suk Deva, por favor diga-me, a que eu devo a honra dessa visita?
Suk Deva disse, Ó rei, por doze anos eu estudei os Vedas e o Vedanta, vivendo no ashrama do Guru Brhaspati. Quando retornei de meus estudos do ashrama de meu Guru, eu perguntei ao meu pai, O que devo fazer agora? Qual meu Karma nesta vida? Meu pai instruiu-me a que eu deveria me casar e ter filhos e livrá-lo dos débitos do Karma. E eu disse, Pai, por muitos anos estudei o conhecimento da não dualidade. Eu tive um nascimento divino; não vim de um útero qualquer, mas sim do Fogo Divino. Por que deveria me casar e colocar-me no cativeiro, quando o que busco não são os prazeres do corpo? Eu busco absorção da alma! Meu pai pareceu ficar tomado de ansiedade e me disse, Não filho, você deve se casar! E quando eu recusei ele disse, Certo, se você não crê em mim, vá até Mithila para visitar o Rei Janaka. Após conversar com o rei Janaka, eu permitirei a você tomar a decisão que lhe agrade. Assim, rei eu vim tomar seu darshana. Por favor me ilumine. Quais são os deveres de um homem?
Janaka respondeu, Eu falarei a você sobre o caminho da liberação. Após completar os estudos como Brahmachari, a pessoa deve se curvar ao Guru e pagar o daksina. Então deve ir para casa e se casar. Após o casamento deve permanecer contente e livre de desejos, sem pecado e verdadeiro e ganhar o sustento com o coração puro, viver com justiça e conforme os ditames da consciência. E então quando as crianças são auto suficientes, o estágio de Vanaprastha pode ser iniciado, junto com a prática de tapasya. Por fim uma alma desenvolvida pode se tornar um Sannyasi, completamente absorvido na Verdade da Suprema Divindade. Este é o caminho da liberação proclamado pelo nosso dharma. Veja, um verdadeiro buscador deve completar seus estágios de vida, os ashramas de vida, um por um, passo a passo. Ninguém deve saltar um passo. Ele deve completar o ashrama anterior sucessivamente, e então entrar no estágio seguinte.
Suk Deva disse, Mas rei, se a pureza do desprendimento nasce da sabedoria interior do buscador, ainda é necessário para ele ir por todos os ashramas? Não é possível deixar tudo e residir na floresta?
Janaka respondeu, Não. Embora pareça que os sentidos se tornaram tranqüilos por um tempo, isso não significa que eles sempre ficarão tranqüilos por todo o tempo. Mesmo no estágio da Perfeita Yoga, pode parecer que os sentidos estão sob controle. Esta aparência não é confiável. A rede do desejo é muito difícil de ser conquistada e nunca morre. A mente é muito difícil de se controlar. Portanto, é necessário ir passo a passo, ashrama por ashrama. Ninguém salta. Veja, mesmo um chefe de família que realiza seus deveres sem ligações pode viver em pura felicidade, realizar seu próprio Ser e obter a liberação. Veja você, eu sou liberado enquanto vivo e estou engajado em proteger este reino. Não sou afligido pelo prazer ou pelo sofrimento e ainda assim continuo a atuar.
O mundo material é simplesmente um objeto de percepção sensória. E a alma que percebe isso, é em si mesma não percebida. Assim diga-me como a criação perceptível pode encobrir a alma imperceptível? Esta é uma lógica impossível. O Ser que imutável, sem impureza, nunca pode ser atado pelo mutável, visível, coisa material tangível. Quando o coração torna-se puro e tranqüilo, todas as coisas tornam-se cheias de pureza e totalmente tranqüilas. É a mente que é a causa do cativeiro e da liberdade. Não é o corpo. Não é a alma. Não é o sentido. O Ser , a Alma de tudo, é sempre Pura Consciência, e é sempre livre, assim nunca pode ser atado. O cativeiro e a liberdade residem somente na mente. Assim quando a mente está em paz, o cativeiro da existência cessa. Este Ser individual, esta existência individual é Deus. Eu sou aquele Deus e nada mais.
Mas rei, perguntou Suk Deva. Tenho outra dúvida. Como pode um homem ser livre de desejos e das recompensas das ações quando ele vive no meio desta Maya? Todo este mundo material está sempre forçando a mente para dentro da ilusão. Mesmo adquirindo a sabedoria das escrituras e a discriminação do entendimento do que é real e o que não é, a ilusão da mente não é dispersada até que se pratique Yoga. Como pode a liberdade do desejo e a liberação vir ao chefe de família. Os munis e Rsis que vivem na floresta controlando sua dieta, seus
sentidos, vivendo suas vidas como eremitas e mendicantes, eles conhecem a natureza transitória deste mundo. Mesmo eles caem vítimas de Maya. Então o que esperar para você ou eu ou alguém mais que está agindo e interagindo na dualidade? Quando você está agindo na dualidade, está atado por Maya. Os cinco elementos vão com você onde quer que você vá, e estes elementos sempre nos trazem para Maya, a ilusão da dualidade.
Janaka respondeu, O que você diz é verdade sem uma partícula de falsidade, Suk Deva. Você está certo. Os cinco elementos: Terra, água, fogo, ar e éter, fazem existir todas as coisas. Assim mesmo se você vai para a floresta eles irão existir com você lá. Você também se preocupará com seu bastão, sua manta, ou sua taça. Você irá se preocupar sobre se vai encontrar água e madeira. Iluminação não significa completa cessação de pensamento. Este estágio de Yoga, Citta Vrtti Nirodh, a cessação de todas as modificações da Consciência. É passageira. Nem Brahma permanece lá. Nem Visnu, e nem Shiva, nem mesmo qualquer outro ser personificado. Todos retornam a consciência da dualidade. Iluminação não significa liberdade da manifestação, não significa ser livre do pensamento. Iluminação significa liberdade de ligações!
Veja você, sua mente está cheia de dúvidas. Portanto você está viajando em busca da cessação de suas dúvidas. Mas você vê que minha mente está livre de dúvidas. Eu estou permanecendo aqui muito pacificamente e alegremente observando meu dharma. Não sou atado por este mundo. Esta idéia me dá constante felicidade do grau mais elevado. Você acha que você esta atado, e portanto você está em constante sofrimento. Não importa se você vai para a floresta ou se reside em sua casa, sua mente irá determinar seu estado de cativeiro ou de liberação. Este corpo é meu Esta idéia leva ao cativeiro. Este corpo não é meu. Este conhecimento concede a liberdade Assim eu lhe digo verdadeiramente que todo este reino, toda esta riqueza, todos os súditos para quem eu executo deveres administrativos, nada é meu!
Suk Deva ficou extremamente inspirado, Você é um sadhu, disse ele ao rei Janaka se curvando com respeito. Um sadhu é um Mestre de Eficiência. Você tem se tornado extremamente eficiente organizando sua vida. Eu me curvo a você em respeito à sua sabedoria.
Suk Deva olhou para seu próprio coração e pensou, Eu posso viver neste mundo, e este mundo não é meu. Eu posso atuar neste mundo, e os frutos da ação não serão meus. Então eu posso me tornar um Karma Yogue, mantendo a pureza na ação. Mesmo se eu for para a floresta com minha vara, minha panela e minha manta, eu serei atado enquanto minha mente não estiver livre. Enquanto que este rei administrando todo o império como representante do maior poder, é liberado.
Suk Deva se curvou ao rei Janaka e pediu sua licença. Com esta realização ele retornou ao ashrama de seu pai nas margens do Sagrado Rio Saraswati.