CAPÍTULO III – Caracterização Geral do Programa Saúde da Família
2. Diretrizes Gerais do Programa Saúde da Família
O PSF trabalha com o princípio da vigilância da saúde, com atuação inter e multidisciplinar, responsabilizando-se pela integralidade das ações na sua área de abrangência. O Programa refere-se a um modo de organização da atenção básica e, portanto, deve realizar todas as ações inerentes a esse nível de atenção, tais como: prevenção, promoção, assistência e reabilitação.
A sua diferença para o modelo de atenção tradicional está relacionado: à forma de planejamento e intervenção das suas ações, onde tem por base o trabalho em equipe multiprofissional; a sua forma de inserção e atuação na comunidade, uma vez que a equipe é responsável por uma área adscrita com uma população de cerca de 4500 pessoas; na sua capacidade de lidar com as diferentes necessidades e demandas dos indivíduos, famílias e comunidade, buscando se antecipar ao aparecimento de agravos à
saúde e fomentando o desenvolvimento comunitário, através do estímulo à participação e controle social. (SILVEIRA FILHO, 2005).
Dentre as diretrizes gerais explicitadas pelo Programa Saúde da Família escritas na Política Nacional de Atenção Básica, destacam-se:
- Caráter substitutivo em relação à rede de Atenção Básica tradicional nos territórios em que as equipes de saúde da família atuam. O Programa Saúde da Família deve se expandir de forma exponencial, para ser o modelo hegemônico na atenção básica, substituindo as formas tradicionais de assistência. (BRASIL, 2007).
- Pactuação com a população onde atuam para o direcionamento de ações com base no diagnóstico situacional e na escolha de ações prioritárias, buscando o cuidado dos indivíduos e das famílias ao longo do tempo, mantendo sempre postura pró-ativa frente aos problemas de saúde-doença da população. Cabe à equipe de saúde sua integração com a comunidade a fim de conhecê-la e de traçar um perfil epidemiológico e de saúde destes indivíduos, de tal forma que as ações desenvolvidas pela unidade procure atender as necessidades identificadas de modo a direcionar ações para grupos prioritários, grupos suscetíveis e famílias em situações de risco. (BRASIL, 2007).
- Desenvolvimento de atividades de acordo com o planejamento e a programação realizados com base no diagnóstico situacional, com foco na família e comunidade etc. As ações do PSF devem ser programadas objetivando atingir as necessidades levantadas na população adscrita, numa perspectiva de vigilância à saúde. O planejamento e a programação devem envolver o usuário, tentando estimular sua participação e reconhecendo-o como sujeito do processo. (BRASIL, 2007).
Às equipes de saúde competem realizar:
I. planejamento das ações, cujos objetivos são: conhecer os fatores determinantes do processo saúde e doença da comunidade adscrita; estabelecer prioridades e traçar estratégias para enfrentar os problemas detectados; conhecer o perfil epidemiológico da população; garantir estoque de insumos necessários para o funcionamento do trabalho.
II. assistência, promoção e vigilância à saúde, cujos objetivos são, a partir do conhecimento dos fatores que determinam a qualidade de vida da comunidade de seu território: propor soluções na atenção integral à saúde; desenvolver as ações de saúde pela prática baseada em evidências, pautando sua atitude clínica sob consagradas linhas de conduta; articular-se com outros setores e instituições locais e movimentos sociais organizados, buscando integrar ações que contribuam para melhorar a qualidade de vida da comunidade; III. trabalho interdisciplinar em equipe, cujos objetivos são: realizar
comuns; compartilhar conhecimentos e informações para o bom desempenho do trabalho; participar da formação e do treinamento do pessoal auxiliar, voluntários e estagiários; compartilhar conhecimentos com a comunidade a fim de promover o autocuidado, o cuidado familiar e a minimização dos riscos socioambientais;
IV. abordagem integral da família, cujos objetivos são: compreender a família de forma integral e sistêmica, como espaço de desenvolvimento individual e de grupo, dinâmico e passível de crises; identificar a relação da família com a comunidade; utilizar metodologias relacionais que possibilitem o estabelecimento do cuidado familiar nas situações necessárias; promover o autocuidado e o cuidado familiar; identificar os processos de exclusão ou violência e possibilitar abordagem compartilhada entre diferentes disciplinas e setores e de acordo com os preceitos legais e éticos existentes. (SILVEIRA FILHO, 2005, p.17).
Para tanto, de acordo com Reis, et.al, (2007), são necessários outros saberes e novos instrumentos para produzir saúde a partir das condições concretas de vida das famílias. Esses saberes devem ser produzidos através do diálogo, aportando a escuta qualificada, o vínculo, o acolhimento, a autonomização, entre outros, considerando os conhecimento da cultura popular e da educação.
O acolhimento remete a proporcionar uma unidade de saúde acessível a todos os usuários que dela necessitem e está relacionado à escuta qualificada, dando respostas às demandas trazidas pelos usuários, com comprometimento e responsabilização. O vínculo relaciona-se ao estabelecimento de referência dos usuários a uma dada equipe de saúde. Para Schimith e Lima (2004), o vínculo com os usuários permite a ampliação e eficácia das ações de saúde e favorece a participação deste na prestação do serviço. A autonomização, por sua vez, será o resultado da produção de cuidados que represente ganhos de autonomia dos sujeitos. (REIS, et.al, 2007).
Ainda no que se refere às competências e habilidades dos profissionais para este novo processo de produção do cuidado, Silveira Filho (2005) destaca alguns princípios organizacionais do PSF utilizados pelo sistema de saúde canadense, mas que, segundo ele, se aplica à realidade do programa que aqui está se desenvolvendo. O primeiro princípio afirma que o profissional de saúde da família deve ser hábil, seja na clínica, seja nos relacionamentos, no desenvolvimento do trabalho em equipe, no estabelecimento de parcerias, no comprometer-se com o outro, no respeito individual e familiar quanto ao modo de adoecer ou ter saúde. O segundo defende que o profissional de saúde da família deve ser a referência de saúde para uma dada população, e sendo assim, deve sentir-se responsável “pelo fomento qualitativo de uma comunidade”, tendo
capacidade de manejar situações adversas seja no acesso às ações da unidade básica e nos demais níveis do sistema, seja na manutenção de condições estruturais e materiais disponíveis para a prática em saúde. O terceiro princípio estabelece que o Saúde da Família é um campo interdisciplinar baseado na comunidade, com sua atenção pautada na dimensão do cuidado familiar nos seus diversos contextos e integrando ainda uma rede de suporte a essa comunidade, através da interface com diferentes setores da área social. O quarto princípio trata da relação equipe e família como o foco central, reforçando o comprometimento junto aos usuários.